Alianças (aparentemente) impossíveis

Num artigo que publicado, esta semana, no Diário Económico o Fernando Gabriel aludia ao apoio prestado pelo Irão a grupos terroristas como o Hamas ou o Hezbollah. Esta afirmação causou alguma indignação (como se o Irão nunca tivesse publicamente declarado a intenção de destruir os seus inimigos por meios não-convencionais) e espanto (no caso do Hamas devido a eventuais incompatibilidades no campo religioso).

Bastante a propósito, surgiu ontem ontem uma notícia curiosa. Em meados de Janeiro, numa operação inicialmente atribuida aos EUA (que Israel agora reinvidica de forma indirecta) foi destruido um comboio de armas no Sudão. Curiosamente estas haviam sido compradas pelo Hamas ao Irão e tinham como destino a Faixa de Gaza.

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18 pensamentos sobre “Alianças (aparentemente) impossíveis

  1. Luís Lavoura

    Se o Miguel se lembrar bem do meu comentário, lembrar-se-á que eu não afirmei que o Irão não venda armas ao Hamas, apenas mostrei espanto por o artigo de Fernando Gabriel afirmar que o Irão apoiava o Hamas no contexto do apoio ao xiismo contra o sunismo.

    É evidente que o Irão pode vender armas ao Hamas (vender armas não é um apoio, é um negócio) e provavelmente até o faz (o dinheirinho faz muita falta ao Irão), mas certamente que não o faz no contexto do apoio ao xiismo contra o sunismo – uma vez que o Hamas é sunita.

  2. CN

    Em relação à AlQaeda (cujo termo “terrorismo” é especialmente adequado) e Talibans isso não foi posto em causa. Quanto ao Hamas e Hezbollah, a maior ou menor ajuda é consistente com o não reconhecimento de Israel, mesmo assim, deviam abster-se de o fazer. Mas não ajuda também o grande apoio dado a Israel envolvido num conflito territorial que transformou Israel num Golias especialmente notado nos dois últimos actos de guerras (Libano e Gaza). Quase que se pode dizer que O “intervencionismo” dos países do médio-oriente em relação ao que seria os seus “aliados” e no seu próprio espaço estratégico é em termos relativos muito menor que o “intervencionismo” de quem é de fora e muito fora do seu espaço estratégico. Enfim, a prazo só se vislumbra o pior.

  3. “certamente que não o faz no contexto do apoio ao xiismo contra o sunismo”

    Nem eu nem o Fernando alguma vez dissemos que o estes apoios tem motivação religiosa (no campo das diversas correntes do islamismo).
    Repare que mesmo no campo das ideologias poltícas as alianças também parecem pouco prováveis. No tempo do Saddam Hussein o partido no poder era o Baath que é um partido pan-arábe. O regime sírio da família Asad também se apoia no Baath. No fundo seriam (e até certa altura foram-no) apenas duas secções (a síria e a iraquiana) do mesmo partido. Por estranho que pareça a Síria apoio o Irão na guerra contra o Iraque e continua a ser o maior aliado deste. Ainda por cima a elite síria é alawita (que é considerada por muitos uma heresia no seio do Islão) e o regime é laico tendo arrasado uma cidade inteira quando os islamitas se sublevaram.

  4. Luís Lavoura

    Miguel, recordo o texto de Fernando Gabriel:

    “apoiar grupos terroristas como o Hamas [que] são instrumentos úteis […] na oposição aos projectos de hegemonia sunita”

    Claramente, Fernando Gabriel escreveu que o Irão apoia o Hamas por motivos parcialmente religiosos. Motivação que eu contestei e contesto.

    Agora, que o Irão venda armas ao Hamas, isso não contesto.

  5. Entretanto editei o comentátio anterior e expandi-o consideravelmente.

    ““apoiar grupos terroristas como o Hamas [que] são instrumentos úteis […] na oposição aos projectos de hegemonia sunita”

    Existiram motivações religiosas mas a comveniência política ultrapassa todas essas barreiras. No fundo a aliança sirio-iraniana engloba diversas correrentes islâmicas (antagónicas) e mesmo aliança entre regimes laicos e teocráticos

  6. Luís Lavoura

    “a aliança sirio-iraniana engloba diversas correrentes islâmicas antagónicas”

    Isso não é bem verdade. Embora a população síria seja maioritariamente sunita, a família real síria é de uma tribo xiita (minoritária). Portanto a corrente islâmica dos senhores do Irão e da Síria é, basicamente, a mesma.

  7. “Embora a população síria seja maioritariamente sunita, a família real síria é de uma tribo xiita (minoritária). Portanto a corrente islâmica dos senhores do Irão e da Síria é, basicamente, a mesma. ”

    Isso os torna automaticamente aceites pela maioria dos xiitas. Não se esqueça que é um regime laico. Algo (à partida) inaceitável para o Irão.

    Mais um paradoxo. O Hamas é wahabita o que o faria um ptotegido natural dos sauditas. Não é esse o caso. E até são aliados dos sirios e iranianos contra estes.

  8. Luís Lavoura

    Miguel, eu acho, mais uma vez, que você está equivocado, e a avaliar mal a situação.

    O Hamas é um movimento fundamentalista sunita, que é de facto financiado pelos sauditas e por outros Estados do Golfo. De onde é que oMiguel pensa que vem o dinheiro com que o Hamas compra as armas ao Irão? De onde é que vem o dinheiro que o Hamas usa para a sua extensa obra de assistência social em Gaza, obra essa que é o seu principal asset em termos de popularidade? Vem do Golfo e dos seus senhores wahabitas, evidentemente.

    Portanto: temos um movimento fundamentalista sunita que recebe dinheiro (e outra ajuda não financeira) dos soberanos sunitas do Golfo, e que usa uma parte desse dinheiro para comprar armas a quem esteja disposto a vender-lhas, em particular ao Irão (mas certamente que a outras fontes também). É simples.

  9. Luís Lavoura

    Aliás, não é segredo nenhum que os soberanos sauditas usam o seu dinheirinho para financiar, por este mundo fora, montes de movimentos fundamentalistas islâmicos. Esses movimentos dedicam-se à pregação, à assistência social e, ocasionalmente, a atividades menos recomendáveis (ao incitamento à violência e ao terrorismo). Tudo isto é bem sabido, e as autoridades sauditas não o negam. É portanto normalíssimo que essas autoridades também se dediquem a financiar o Hamas, o qual, além de ser seu parente religioso, é também parente étnico (isto é, é árabe). Normalíssimo.

    É claro que o Hamas aproveit parte do financiamento para gastar em armas, comprando-as em particular ao Irão – mas certamente que não somente ao Irão. Repare-se que o Irão não é nem sunita nem árabe, e portanto está muito mais longe, em termos tanto religiosos como étnicos, do Hamas. Sóque o Irão tem menos dinheiro que os sauditas, e portanto mais necessidade de vender armas para ganhar a sua vida.

  10. É provável que o Hamas já tenha sido financiado pelos sauditas mas agora apoia-se principalmente no Irão.
    Por outro lado existe uma grande falha no seu argumento. Os sauditas e os iranianos não são propriamente aliados. Não fazia qualquer sentido que um movimento fosse financiado por uns e armado por outros. No fundo os sauditas estariam a financiar os iranianos.

  11. Carlos Duarte

    Que confusão que para aqui anda…

    O Irão apoia o Hamas pura e simplesmente porque estes travam uma guerra por “proxy” com Israel. O objectivo do Irão é a destruição de Israel e seja com sunitas, xiitas ou outros quaisquer, serve. Existe um caso contrário no Líbano em que o Hezbollah (xiita) é fortemente apoiado pela Síria (sunita e “laica”), novamente por causa de Israel. No dia em que os montes Golã regressarem à Síria, o Hezbollah perde imediatamente parte do apoio.

    A “aliança” Siro-Iraniana data da altura do Saddam e teve por fim “conter” o Iraque. É uma aliança de (pura) conveniência. Nesta altura mantém-se à custa de Israel, apesar de a Síria estar ultimamente a dar uma no cravo e outra na ferradura.

    O exemplo mais “interessante” de alianças de ocasião foi definitivamente a guerra no Afeganistão e no Iraque, em que os EUA tiveram apoio (informal) do Irão! Porque o interesse era comum… nos dias que correm, no Iraque, a coisa já não é tanto assim pois o Irão sabe que o Sul do Iraque é, ideologicamente, deles. Já os Taliban continua a não interessar a ninguém (bem, menos aos generais paquistaneses, mas isso é outra história…)

    Como disse, e bem, o Luís Lavoura, o grande actor religioso no médio oriente é a Arábia Saudita que financia extremistas sunitas por motivos PURAMENTE RELIGIOSOS. Às vezes as contas saem furadas (como na Al-Qaeda) quando os extremistas começam a questionar a pureza religiosa de alguém que é “amigo” do Grande Satã…

    E agora, para baralhar (ainda mais) as contas temos o Sudão, que é sunita e é financiado pela… China. E viva o “pitroil”.

  12. lucklucky

    “Esses movimentos dedicam-se à pregação”

    Esqueceu-se de dizer pegação pior que nazista.

    “No dia em que os montes Golã regressarem à Síria, o Hezbollah perde imediatamente parte do apoio.”

    Não não perde. Qualquer destes países precisa do conflito com Israel para sobreviver.

    “Às vezes as contas saem furadas (como na Al-Qaeda) quando os extremistas começam a questionar a pureza religiosa de alguém que é “amigo” do Grande Satã…”

    Esses mesmo extremistas nunca tiveram grandes pruridos em receberem apoio do Paquistão ou de quem quer que os ajudasse.

    “o grande actor religioso no médio oriente é a Arábia Saudita que financia extremistas sunitas por motivos PURAMENTE RELIGIOSOS.”

    O Hiz-b-Alá é um projecto imperial/religioso Iraniano desde o início. Há ainda muitos Sheiks freeriders com muitos milhões para gastar.

  13. Carlos Duarte

    “Não não perde. Qualquer destes países precisa do conflito com Israel para sobreviver.”

    A Síria não precisa. Precisa tanto como o Egipto. O principal “problema” regional da Síria é o Iraque.Enquanto o Egipto conseguiu evoluir bem do pan-arabismo, a Síria (porque perdeu território e se enfiou no “buraco” do Líbano) não. Mas se há Estado naquela zona que evoluirá (mais) rapidamente para uma normalização das relações com Israel será a Síria (e eventualmente o Líbano).

    “Esses mesmo extremistas nunca tiveram grandes pruridos em receberem apoio do Paquistão ou de quem quer que os ajudasse.”

    É diferente. O Paquistão não tem lá Meca, nem Medina, nem Jerusalém. É puramente apoio “material”, enquanto a cooperação Saudi-Americana (especialmente as tropas americanas em território saudita) são vistas como uma conspurcação da terra sagrada do Profeta.

    “O Hiz-b-Alá é um projecto imperial/religioso Iraniano desde o início.”

    O حزب الله (para não haver confusões) é puramente um fenómeno Libanês. De “imperialista” não tem nada.

    “Há ainda muitos Sheiks freeriders com muitos milhões para gastar.”

    Completamente de acordo. Mas estava a falar de apoio por parte de países e não de “freelancers”.

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