Da responsabilidade na política

A incapacidade dos dois maiores partidos chegarem a um entendimento sobre matérias essenciais, manifestada na escolha do novo Provedor de Justiça, mais a candidatura simultânea de alguns políticos a vários cargos, de forma a garantirem uma eleição, qualquer que ela seja, são sinais perigosos do avançado estado de degradação da vida política em Portugal. Relativamente a este último exemplo, de candidatura simultânea a vários cargos, temos o caso de Ana Gomes e de Elisa Ferreira, como candidatas às autarquias de Sintra e do Porto (a primeira é ainda uma possibilidade) e também nas listas do PS às eleições para o Parlamento Europeu.

Ambas já disseram não existir qualquer incompatibilidade nas suas candidaturas, tendo as duas referido que irão desistir do lugar no Parlamento Europeu, caso vençam as respectivas corridas autárquicas. Ou seja, com o cuidado de terem como garantido outro cargo público e apenas no caso de vitória na segunda corrida eleitoral a que se sujeitam, esquecendo que irão ser eleitas vereadoras, exercício de função para o qual se candidatam também, mas que, desde já, recusam.

As candidaturas simultânea a cargos, cujo exercício conjunto é praticamente impossível, nem precisa de ser proibida por lei. Decorre do mero bom senso. É do senso comum que a política implica correr riscos políticos. Sendo a eleição para um cargo público, algo sagrado, um pacto solene para com o povo, a quebra de tal compromisso, sem motivo de força maior e justificável, pior, a quebra a priori desse mesmo compromisso, é mais um sinal dos tempos que ferem de morte a política como actividade indispensável para o desenrolar saudável de uma democracia.

11 pensamentos sobre “Da responsabilidade na política

  1. Luís Lavoura

    Mas a candidatura simultânea a vários cargos existe sempre, em todos os países, e decorre até do mero bom senso.

    Por exemplo, Barack Obama candidatou-se simultâneamente a presidente dos EUA e a senador.

    José Sócrates candidatou-se a deputado sabendo que, caso o seu partido ganhasse as eleições, não seria deputado e sim primeiro-ministro.

    Isto acontece em todos os países do mundo, em todas as democracias.

    Durão Barroso, que era deputado, abandonou esse cargo para ir para primeiro-ministro, e depois abandonou esse cargo para ir para a Comissão Europeia.

    Toda a gente se candidata a cargos mais elevados quando não está satisfeita com o cargo menos elevado que tem. O facto de Elisa Ferreira ser eleita euro-deputada não a impede de se candidatar a presidente da Câmara do Porto, cargo que, no entender dela, é mais elevado.

    Quando nós votamos um deputado ou euro-deputado, sabemos sempre que ele poderá depois candidatar-se a um cargo executivo (primeiro-ministro, presidente de Câmara, presidente da Comissão Europeia…) e abandonar o seu lugar de deputado.

    Sempre assim foi e sempre assim será.

  2. Luís Lavoura

    Aliás, o mesmo se passa fora de política, no mundo do trabalho.

    O facto de você contratar um trabalhador e depositar toda a sua confiança nele, não impede esse trabalhador de, amanhã, se despedir para ir fundar a sua própria empresa – concorrente com a sua – ou para ir trabalhar para uma empresa concorrente.

    Qualquer trabalhador é livre de decidir procurar melhor pouso.

    O mesmo se passa com os deputados. Têm o seu emprego como deputados mas, se surgir a oportunidade de arranjar um emprego melhor (como presidente de Câmara, por exemplo), agarram-na.

  3. “não impede esse trabalhador de, amanhã, se despedir para ir fundar a sua própria empresa – concorrente com a sua – ou para ir trabalhar para uma empresa concorrente”

    Olhe que não, olhe que não…

  4. “Por exemplo, Barack Obama candidatou-se simultâneamente a presidente dos EUA e a senador.”

    Nada disso.
    Já era Senador e ainda tinha mais 2 anos de mandato.
    Nos EUA ninguém se pode candidatar simultâneamente a mais que um cargo electivo.

    “Durão Barroso, que era deputado, abandonou esse cargo para ir para primeiro-ministro”

    E não deixou de ser deputado por causa disso.
    E se fosse em Inglaterra nem sequer podia ser membro do governo se não tivesse sido eleito deputado.

    São situações completamente diferentes.
    Aqui trata-se de garantir a qualquer custo um lugar à mangedoura sem qualquer respeito pelos eleitores.
    .

    .

  5. “Têm o seu emprego como deputados mas, se surgir a oportunidade de arranjar um emprego melhor (como presidente de Câmara, por exemplo), agarram-na.”

    Esta é mesmo a frase paradigmática deste Regime.
    Ver os lugares representativos como empregos.
    .

  6. “O facto de você contratar um trabalhador e depositar toda a sua confiança nele, não impede esse trabalhador de, amanhã, se despedir para ir fundar a sua própria empresa.”

    Se for assim de tanta confiança, vai estar no quadro, pelo que o amanhã, é daqui a … 90 dias, pelo menos.
    E também não abre uma empresa na concorrência directa com o antigo empregador assim nas boas.
    .

  7. “Ou seja, com o cuidado de terem como garantido outro cargo público e apenas no caso de vitória na segunda corrida eleitoral a que se sujeitam, esquecendo que irão ser eleitas vereadoras, exercício de função para o qual se candidatam também, mas que, desde já, recusam.”

    Atendendo que elas dizem logo isso abertamente aos potenciais eleitores, não vejo grande problema.

  8. “Atendendo que elas dizem logo isso abertamente aos potenciais eleitores, não vejo grande problema.”

    Miguel

    Não seria efectivamente grande problema se em função dessa informação os eleitores pudessem efectivamente impedi-las de serem eleitas.
    Mas sabe que não é assim.
    Aquelas duas já tem a sinecura garantida para os próximos 4 anos.
    .

  9. DSC

    “Aliás, o mesmo se passa fora de política, no mundo do trabalho..”

    Ai sim??????

    O sr zé, vou candidatar-me à sua empresa e à empresa X. Se a Empresa X me der mais é para lá que vou mas se não der, não se preocupe que vou trabalhar consigo que sempre é melhor que as 400 balas de subsídio…

  10. Ana

    Quando iniciamos um cargo assumimos o nosso interesse pelo posto, naquele momento estamos a fazer uma opção à qual nos queremos dedicar. Se as circunstâncias mudam a meio, podemos repensar a opção e então achar que temos coisa melhor ali ao lado. Isto é normal e foi o que aconteceu com os políticos acima nomeados. Outra coisa bem diferente é à partida candidatar-se a dois cargos, revelando a total indiferença pelo posto e tendo como único objectivo arranjar um tacho e não correr riscos. Não interessa os projectos que se tem para o cargo, isso depois vê-se se for eleita… enquanto não tiverem o tacho assegurado, não hao-de perder tempo a pensar nisso. Como é que alguém vai votar em alguma destas senhoras para presidente da câmara sabendo à partida que elas se estão a marimbar para o cargo?
    Eu nem sequer sabia que isto era possível, quão descabida achava que era esta situação! Esqueci-me que estamos em Portugal, onde o cúmulo do ridículo é o dia a dia nacional!

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