o outro

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O pensamento socialista parte de um pressuposto radicalmente pessimista sobre o género humano: não acredita que os homens possam, por si mesmos, em sociedade, estabelecer os vínculos necessários e suficientes à harmonia e ao desenvolvimento. O socialismo partilha da convicção hobbesiana de que se deixados a si mesmos, os homens propendem para a destruição e para o abuso de posição dominante. A sua crítica ao liberalismo está enfermada deste raciocínio. A sua defesa do estado e da intervenção pública também. No fim de contas, o socialismo desconfia da espécie humana.

O socialismo não acredita no outro. O outro é aquele que não conhecemos, que nos é estranho, e que a mentalidade socialista coloca sob reserva e suspeição. Na cosmologia socialista, o outro é o adversário, o inimigo potencial donde todos os perigos são expectáveis. O “patrão”, o “explorador”, o “incumpridor”, o “faltoso”, o “abusador”. O universo socialista está cheio de inimigos públicos, de adversários da “sociedade”, indevidamente identificada com o estado. Esta mentalidade admite mais facilmente o conflito do que a cooperação. Não acredita na livre composição de interesses, e julga que da liberdade incontrolada só pode resultar o caos.

No pressuposto de que a paz social e a boa ordem não são possíveis espontaneamente, o que sugerem, então, os socialistas? Que elas fiquem a cargo de instituições públicas estatais, dotadas de poderes e competências muito amplos e capazes de intervir em todas as dimensões da vida social, a fim de suprirem as alegadas insuficiências do relacionamento social livre (as ditas “insuficiências do mercado”).

Sucede que tais instituições são, elas mesmas, corporizadas por indivíduos. Nos regimes democráticos, por indivíduos que ocupam esses postos em razão de pertencerem a um determinado partido político, isto é, a uma associação de pessoas dotada de interesse próprio e finalidades exclusivas. Ao considerar que um grupo reduzido de indivíduos possa criar as regras e as instituições necessárias e suficientes ao convívio humano pacífico e ao desenvolvimento social, o socialismo transforma-se numa doutrina elitista.

De facto, todas as filosofias que aceitam a teoria das elites como dinamizador social são profundamente avessas ao género humano. Elas desconfiam dos homens e, por isso, confiam apenas em certos homens. Este vício é antigo, remonta, pelo menos ao governo dos sábios de Platão, às formas de governo aristocráticas dos clássicos, e foi actualizado, no século XX, pelas várias formas de socialismo e de estatismo. Assim, desde a “vanguarda do proletariado” leninista, à “tecnocracia” social-democrata das democracias europeias da segunda metade do século passado, até à unção dos “representantes do povo”, munidos da “legitimidade democrática” que lhes permite pôr e dispor do governo de um país, tudo são variações de um mesmo tema: os homens, se entregues a si mesmos, são incapazes de cuidar de si próprios; deixemos, pois, esse “pesado fardo” a quem sabe governar.

O socialismo e o estatismo, faces de uma mesma moeda, são, assim, em última instância, doutrinas políticas profundamente anti-democráticas. Mesmo nas modalidades em que aceitam e defendem o sufrágio universal, elas não consideram a hipótese da soberania se restringir a um núcleo básico de funções, preferindo retirá-las aos indivíduos, para confiá-las à elite que os governará. Neste pressuposto, é menos importante saber como se determina a designação dos governantes, do que conhecer os poderes que lhes estão confiados.

20 pensamentos sobre “o outro

  1. O que seria de nós sem o omni-presente Estado de Sócrates e companheiros de partido?
    Quem supriria a “insuficiência do mercado” do sal no pão? Ou a dos galheteiros “violáveis”?
    Quem controlaria as nossas viagens através do chip automóvel obrigatório?
    Quem poderia consultar num (mais um) institutozinho do MAI todos os processos em andamento nos nossos tribunais?
    Bendito Estado que nos quer mudar as fraldinhas a todos!

  2. “O pensamento socialista parte de um pressuposto radicalmente pessimista sobre o género humano: não acredita que os homens possam, por si mesmos, em sociedade, estabelecer os vínculos necessários e suficientes à harmonia e ao desenvolvimento. O socialismo partilha da convicção hobbesiana de que se deixados a si mesmos, os homens propendem para a destruição e para o abuso de posição dominante.”

    Os socialistas costumam ser acusados do oposto…

  3. ruialbuquerque

    “Os socialistas costumam ser acusados do oposto…”

    Caro Miguel, “acusados” exactamente de quê?

  4. Búfalo

    Acredito que Rui Albuquerque refere-se naõ ao socialismo utópico, mas sim ao implantado pala ex-URSS. Neste contexto, mesmo sob uma envoltória de combater as “instituições opressoras”, desacreditavam na capacidade dos homens lidarem com seus vínculos sociais. Mesmo assim é bem difícil generalizar com uma visão ou outra.

    Aristóteles era a favor da aristocracia. Mas não podemos nos restringir a idéia de que seria um “governo das elites”. Ele defendia que os bons e melhor preparados convernassem. Num cenário utópico isto é perfeito e não visa a desacreditar na capacidade do indivíduo. Só que na prática são raros os casos de governantes assim, que não tenho abusado do poder.

    O mesmo podemos dizer da dinastia chinesa. Para eles, o governo deveria governar para o povo, tomando as melhores atitudes, mesmo que por vezes não pudessem ser revelados de imediato. Mas há uma ressalva: se quem governa não o faz para o povo, se abusa do poder, qualquer prática contrária aos princípios definidos, ele deverá renunciar.

    Acredito que temos de contextualizar as idéias. No cenário hipotético em que foram realizadas elas se colocam de maneira muito bem. Entretanto, na prática, existem inúmeros fatores que alteram as condições iniciais.

    Concordo com a idéia de Miguel Madeira. Na teoria ela funciona assim mesmo e esta é sua definição.

    Abraço,
    Búfalo
    http://naoserouser.wordpress.com/

  5. Rui Albuquerque: Concordo com tudo o que aqui afirma sobre uma forma de organização política e social que tem conseguido invadir todas as áreas vitais com a aceitação acrítica dos cidadãos porque se tem apoiado no alibi da crise financeira.
    Só não consigo aceitar pacificamente a última frase: “… é menos importante saber como se determina a designação dos governantes, do que conhecer os poderes que lhes estão confiados.” Qualquer coisa me diz que já estaríamos numa Venezuela, ou não?

  6. Miguel,

    Mas, como você bem sabe, o socialismo é o meio escolhido para eliminar as ditas “instituições opressoras”. A “fraternidade universal” é o comunismo. Ora, o que aqui critiquei foi o método, que a doutrina e a prática caracterizam com a estatização da sociedade.

    Ana,

    Infelizmente, cada vez mais é menos importante a forma de designação do que os poderes da magistratura. O Chávez é um bom exemplo: o que fez ele com o mandato democráatico e com os poderes que a Constituição lhe confere? Subverteu a democracia e a Constituição. Do ponto de vista liberal, como dizia Popper, o que interessa é sobretudo o conteúdo da soberania. Embora a democracia universal seja hoje um valor imprescindível à liberdade. Mas já aqui escrevi sobre isso.

  7. CN

    “Neste pressuposto, é menos importante saber como se determina a designação dos governantes, do que conhecer os poderes que lhes estão confiados.”

    The case for monarchy…

    Bem, o paradoxo é que a grande força ideológica que existe na verdade é o centro, e essa tem como altar o Estatismo como regulador da ordem social. Depois existem os outros.

  8. Filipa Correia Pinto

    Para além disso, a superioridade moral. Os homens entregues à sua sorte serão sempre vítimas de outros homens, almas predadoras, e só os homens bem intencionados, aqueles que sabem governar, os poderão libertar.Mais irritante do que o paternalismos com que o outro é olhado, incapaz de se governar numa comunidade de homens livres, é a arrogância da superioridade moral: o homem socialista é o unico capaz de impedir que o outro – «O “patrão”, o “explorador”, o “incumpridor”, o “faltoso”, o “abusador” – domine os fracos e os incapazes.

  9. Pingback: Leituras: « BLASFÉMIAS

  10. Excelente!

    Muitas vezes, encerramo-nos em estereótipos intelectuais e quase que raciocinamos “palovianamente”! Reagimos a postulados mais ou menos commummentemente aceites. Este texto desmonta isso mesmo.

  11. mf

    Inversão teórica não me parece. Omissão teórica , talvez. A direita também é assim , só que o inimigo são outros ” outros”. Também são estatistas , também gostam de tudo muito certinho e conforme aos valores que definiram.
    Passamos a vida a mudar de inimigos , ora para a esquerda , ora para a direita , e o monstro leviatã sempre atrás de nós , é o que é.

  12. Búfalo

    Manual, mas nas óticas que abordei, você percebe que utopicamente não haverá problema nas escolha do governante, logo quando, quanto e com que limites não se torna uma questão tão forte. O governante com as condições supostas saberá governar da maneira correta, de modo que não abusará dos limite e saberá em cada situação qual é o limite e poderá passar tempos governando pois terá noção da maneira correta de governa, eliminando abusos de poder.

    Já na prática tornam-se questões fundamentais, uma vez que deve criar estes limite à fim de eliminar as práticas incorretas. A discussão de como estipular estas normas e até onde, aumentando a qualidade e eficiência de governo é bem complexa.

    Abraço,
    Búfalo
    http://naoserouser.wordpress.com/

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