Demolidor

“Os Coelhinhos de Louçã” de João Duque (Diário Económico)

Depois de ouvir Louçã com a sua alegoria dos coelhinhos e notinhas, a dúvida que me assaltou foi a de saber se é lícito que um político possa perder o rigor conceptual mínimo que se exige a um profissional da sua área de especialidade, apenas por esse facto. Será que um economista, professor catedrático de economia pode, no seu discurso às massas, esquecer o que sabe e ensina (ensinará?) para passar a usar as palavras sem qualquer rigor, em perfeito delírio demagógico, panfletário e potencialmente eleitoralista?(…)

Se Marx ouvisse Francisco Louçã reprová-lo-ia liminarmente porque confundiu (deliberadamente?) dinheiro com capital. Recomendo ao professor Francisco Louçã uma releitura da sua “Bíblia”, mais precisamente o 4º capítulo, livro segundo do primeiro tomo de “O Capital”, para se reavivar de como o dinheiro tal como usado no seu infeliz exemplo, difere do conceito de capital.(…)

A esta sua intervenção apetecia-me lembrar-lhe o famoso texto de Leonard Read intitulado “I, Pencil” onde se mostra como nos dias de hoje ninguém sabe como é feito um simples lápis de grafite. A cadeia de intervenções e de equipamentos necessários para extrair o minério ou aparar a madeira é tão complexa, o capital exigido é tão elevado que um simples cidadão está bem longe de o conseguir produzir de modo independente. Daí a necessidade de juntar o esforço humano à potencialidade que lhe transmite o capital, independentemente da sua propriedade.(…)

Recentemente, a propósito da intervenção do Estado no caso BPN, Francisco Louçã insistiu em baralhar o conceito de “Capital Próprio” com “Passivo”, coisa que qualquer aluno do 1º ano do curso de Economia é obrigado a saber para obter aprovação na mais básica disciplina de Contabilidade Geral, ou ainda trocar os conceitos de “Despesa” com o de “Investimento”, coisa trivial para um estudante de Finanças Públicas do curso de Economia.

Esperarão os eleitores de Francisco Louçã outra coisa de um profissional como ele? Não terá ele obrigação de usar e saber interpretar bem e com a linguagem apropriada, os acontecimentos económicos e financeiros que lhe passam pelas mãos? Não será sua obrigação usar de modo adequado o vocabulário técnico de um economista, a bem da profissão que aprendeu, da universidade que o enquadra e promove, e do Estado que o sustenta?

Discordar de uma nacionalização não obriga a baralhar conceitos!

Porque das duas, uma: ou o professor Francisco Louçã não reconhece o conteúdo específico de cada palavra técnica que usa, o que é muito grave para um catedrático em Economia, ou conhece, mas não quer usar, a bem de demagógicas e populistas intervenções eleitorais.

LEITURAS COMPLEMENTARES: Faz muita falta a Louçã ler Menger; Anything Goes (2)

12 pensamentos sobre “Demolidor

  1. essagora

    Mas há dúvidas?

    Simplesmente, há pessoas que não podem ser levadas a sério, mesmo quando circunstancialmente estão a dizer alguma coisa acertada: se isso acontece, é com algum objectivo pernicioso em mente. É o caso do Louça.

  2. mj

    Quer-me parecer que o discurso do dr. Louçã não era sobre economia, mas sim sobre a mais recente causa fracturante:

    Duas notas de 100 euros não se reproduzem – anátema para o capital!
    Uma CASAL de coelhinhos reproduz-se – disto é que eu gosto!

    Ainda não se levantaram vozes indignadas a exigir a fogueira para esta homofóbica criatura?

  3. Joana Proença

    Pois é, mas o argumento de Louçã ainda não o vi rebatido: “o capital não se reproduz, só o trabalho cria riqueza”. O problema de Louçã é que na sua área de conhecimento aqui em Portugal só lhe saem é Duques…

  4. Um dos melhores professores dessa grande escola chamada ISEG [dêem-me o desconto, é a <Alma Matter ;)]

    Joana, tomara todos os economistas deste país serem “Duques” como o João Duque. Garanto-lhe que dir-se-iam bastante menos disparates!

    Capital e trabalho não são “bens substitutos”, mas sim “bens complementares”. E isto é Introdução à Microeconomia, 1º ano, 1º semestre! À entrada para a faculdade ensina-se: existem 4 tipos de bens – normais, complementares, substitutos e inferiores [ou, de Giffen].

    Bens complementares são bens que só quando utilizados em conjunto, satisfazem a necessidade inerente. O problema de Louçã, muito bem explicado por João Duque, é confundir dinheiro com capital. Capital é tudo desde o computador na sua secretária ao edifício onde está a trabalhar. Pode ser fixo [edifício] ou circulante [computador].

    Dai que a frase “o capital não se reproduz, só o trabalho cria riqueza” não faça sentido teórico algum! São bens que têm que ser consumidos em conjunto: consegue fazer torradas sem uma torradeira? É que se tiver um café, de nada lhe serve o empregado, a não que consiga arranjar um que “cuspa fogo”. E sem o empregado, também não serve de nada a torradeira, excepto para ganhar pó e ocupar espaço. Complementares.

    A riqueza não é nem criada pelos donos do capital nem pelos donos do trabalho. É criada pelo empreendedor que junta os dois num processo produtivo. Cria um café, compra a torradeira, paga a um empregado e voilá: vendem-se torradas.

    É por isso que os economistas são, geralmente, contra impostos sobre o capital: a procura de capital e a procura de emprego não são substitutos mas sim complementares. Se a procura de uma sobe, a outra tem de forçosamente subir.

    Não confundir capital com “capital financeiro”, vulgo, dinheiro, que mesmo assim continua a ser essencial. Pode ter a ideia, uma futura torradeira, um futuro empregado, mas sem dinheiro também não vai longe. A criação de riqueza está no processo, não em nenhuma das partes.

    Logo, a afirmação não faz sentido, e demonstra o que já se tinha dito: Louçã distorce a teoria, para marcar “pontos políticos”!

  5. «Capital e trabalho não são “bens substitutos”, mas sim “bens complementares”. E isto é Introdução à Microeconomia, 1º ano, 1º semestre! »

    Só se tivermos uma função de produção de Kondratieff; numa função Cobb-Douglas, p.ex. (e penso que é este o modelo mais usado nos cursos de economia, sobretudo porque as contas são fáceis de fazer), capital e trabalho são efectivamente bens substitutos.

    Aliás, acho que toda a teoria neo-clássica da renumeração dos factores de produção pelo seu produto marginal só faz sentido se se considerar “trabalho” e “capital” como bens substitutos (se fossem complementares, penso que a soma dos produtos marginais ultrapassaria o produto total). Não que a questão de serem complementares ou substitutos seja muito relevante para a questão de o capital ser ou não produtivo…

  6. Ah a velha brincadeira dos Economistas: usar a matemática para brincar com a lógica.

    Antes demais, um disclaimer: não sou contra o uso da matemática na Economia. Mas sou contra o uso da matemática na ciência quando o objectivo não é dar formalidade e empiricidade à disciplina, mas sim para martelar pontos que a simples lógica dita que não serão válidos.

    A função de Cobb-Douglas não tem fundamentos micro-económicos alguns. Alias, esta é uma critica constante ao uso da dita função para estudar sectores. Basta dois segundos para pensar: podem-se fazer torradas num café sem A) Empregado (Trabalho) e B) Torradeira (Capital)? Julgo que ainda não existem torradeiras inteligentes a esse ponto (pelo menos com um preço comercialmente viável, de modo a serem parte da cadeia produtiva) e que os empregados ainda não cospem fogo.

    Sim, a função de Cobb-Douglas é a mais “ensinada” e sim, é simplesmente porque é mais “fácil” de manipular matematicamente. Não faz dela a função correcta para tentar modelar a realidade.

    Isso é a mesma coisa que dizer que o mercado de capitais segue uma curva normal, porque é assim que é ensinado na faculdade – dado que a Curva Normal é mais fácil de manipular matematicamente, quando toda o trader em todo o santo banco de investimento do mundo sabe que isso não é verdade. Pelo menos, se lá estiver à mais de 3 meses (tanto que é por isso que se gastam fortunas em matemáticos para adaptarem os modelos de “faculdade” à realidade)…

    E se não vê a relevância, é muito simples: dado que um precisa do outro no processo produtivo, sendo que é impossível, na prática, criar riqueza apenas com um deles [por muito que eu possa fazer modelos matemáticos que digam o contrário], então o factor capital é por definição produtivo. Tão produtivo quanto o factor trabalho!

  7. Só uma adenda:
    A teoria da remuneração de factores não depende da complementaridade dos factores de produção [Capital/Trabalho]. A teoria de remuneração dos factores diz que, dada uma função de produção Q, a remuneração de cada factor é, no limite e em equilíbrio, igual à sua produtividade marginal. Esta última é, conceptualmente, quanto em termos de produção, se obtém, adicionando uma unidade de um dos factores, mantendo o outro constante – ou matematicamente, a derivada da função de produção em ordem ao factor. Dai que a Função de Cobb-Douglas seja conveniente: é extremamente fácil de derivar.

    Daqui se infere que, de acordo com os neo-clássicos, tudo o resto constante, adicionar cada vez mais unidades de, por exemplo, trabalho, vai diminuir o salário oferecido, dado que, os rendimentos marginais são decrescentes [exemplo de rendimentos marginais decrescentes, há um limite na quantidade de alunos que um professor pode ensinar…quanto maior a turma, menor a produtividade efectiva] e que, o salário é em equilíbrio, o rendimento marginal.

    Podem-se fazer criticas a esta teoria, mas ela não se apoia na substituibilidade dos factores. Muito pelo contrário, ela é derivada mantendo o outro factor [Capital, por exemplo], constante.

  8. “Basta dois segundos para pensar: podem-se fazer torradas num café sem A) Empregado (Trabalho) e B) Torradeira (Capital)?”

    Podem-se apanhar conquilhas sem capital (se tivermos capital – sob a forma de um balde de plástico – dá mais jeito, mas não é necessário).

    Agora, é verdade que eu não fui muito rigoroso quando disse que a função Cobb-Douglas significava que os factores eram substituiveis, já que, na função C-D, se um dos factores for zero a produção tembém é zero, mesmo que tenhamos carradas do outro factor; no entanto, tem implícita a ideia que, para obtermos a mesma produção, poderemos aumentar um dos factores e reduzir o outro (era isso que eu queria dizer com “substituíveis”).

    A respeito da produtividade marginal e da complementaridade: se dois factores de produção forem perfeitamente complementares, a produtividade marginal de cada um deles multiplicada pela quantidade total do factor é igual à produção total, logo a remuneração total dos dois factores seria o dobro da produção total (impossível). Um exemplo:

    Vamos supor que a produção de 40 torradas/hora implica 1 trabalhador e uma torradeira. Com 1000 trabalhadores e 1000 torradeira temos 40.000 torradas/horas. Como os trabalhadores e as torradeiras são complementares, tanto faz termos 1000 trabalhadores e 999 torradeiras, 999 trabalhadores e 1000 torradeiras ou 999 trabalhadores e 999 torradeiras – nos 3 casos teremos 39.960 torradas/horas (se fiz bem a conta). Logo, a produtividade marginal de um trabalhador é de 40 torradas/hora e de uma torradeira é também de 40/torradas/hora. Mas se 1000 trabalhadores forem renumerados com o valor equivalente a 40.000 torradas/hora (1000*40) e a remuneração (do proprietário ) das 1000 torradeiras também for o valor de 40.000 torradas/hora, temos que falta dinheiro…

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