Os políticos deviam ser como a Coca-Cola

The Real Thing

O leitor recordar-se-á certamente do Pepsi Challenge, o anúncio televisivo em que uma série de pessoas provavam duas colas (a Pepsi e a Coca) e, para sua surpresa, diziam preferir a Pepsi. Nos EUA, a Coca-Cola pensou que estes resultados não passavam de um golpe publicitário, e fez ela própria o teste. O resultado foi o mesmo: a maioria das pessoas, provando as duas Colas sem saber qual era qual, preferia a Pepsi. No entanto, a Coca-Cola (o produto que a maioria das pessoas dizia ser inferior) continuava a vender mais que a Pepsi.

Qual a razão para isto? A resposta é simples: o Pepsi Challenge estava ligeiramente “viciado” à partida: qualquer teste de prova “favorece” a bebida mais doce (a Pepsi), enquanto que o consumo de uma lata inteira “favorece” a Coca-Cola. A característica que nos faz preferir a Pepsi após um gole é a mesma que a torna enjoativa ao fim de quatro ou cinco.

Ao longo dos últimos anos, os partidos portugueses só têm oferecido Pepsi aos eleitores: na ânsia de conquistarem votos, não estão dispostos a dizer aos cidadãos que a Segurança Social é insustentável, que o SNS é a doença e não a cura, e que a protecção estatal contribui mais para o acentuar das desigualdades do que para as atenuar. Em vez de explicarem aos portugueses a necessidade de uma série de reformas, preferem (como o actual governo) limitar-se a uma série de “remendos” que em nada resolvem os problemas estruturais do país, e que contribuem mesmo para o agravamento de alguns. Como a Pepsi dos partidos políticos é mais doce que a Coca-Cola das reformas “duras”, parece mais vantajosa. Mas ao fim de uns goles, ela torna-se enjoativa: inevitavelmente, implica subidas de impostos e atrofia a economia, empobrecendo progressivamente os portugueses, que se viram contra a Pepsi do momento, que responsabilizam pela degradação das suas condições de vida. O problema é que a alternativa não tem sido a Coca-Cola, mas sim outra Pepsi, outra série de medidas doces de cujo sabor os eleitores se fartam rapidamente.

Não espanta que os governos não durem muito tempo: todos conduzem políticas que, sedutoras à primeira vista, produzem apenas descontentamento a médio prazo. E aqui há uma oportunidade para o partido que arriscar oferecer Coca-Cola: embora os eleitores possam desconfiar de quem lhes proponha apenas “sangue, suor e lágrimas”, o enjoo de anos e anos de promessas vazias e resultados negativos talvez os faça pensar duas vezes, e preferir a bebida mais amarga no imediato mas mais suportável a longo prazo.

Até porque a tendência dos partidos portugueses adoptarem políticas “Pepsi” radica num equívoco acerca da natureza dos eleitores voláteis, aqueles que decidem eleições. Políticos e seus conselheiros tendem a ver o eleitorado como um corpo definido de opiniões: algumas pessoas inclinam-se para a “esquerda”, algumas para a “direita”, e depois há um número grande de eleitores “moderados”, que se situam no “centro” do espectro político. Cometem o erro de ver estes eleitores “centristas” como pessoas com opiniões políticas claramente definidas, embora “moderadas”. Pensam que os eleitores “centristas” estão tão certos das suas opiniões como os eleitores de “direita” e de “esquerda”, e que a única diferença entre estes diferentes tipos de eleitores é a de que os “centristas”, sendo menos “extremistas”, são “captáveis”, podem ser “ganhos” se os políticos forem ao encontro dos seus desejos e lhes oferecerem um conjunto de políticas que as sondagens lhes dizem que eles querem.

O problema está em que os eleitores “centristas” não são uma espécie de versão “intermédia” dos seus concidadãos mais “extremistas”: eles são realmente diferentes. Ao contrário destes últimos, os eleitores “centristas” não têm opiniões políticas firmemente definidas. Eles mudam a sua escolha política, não porque estejam “no meio” do espectro político e os partidos ajustem as suas políticas às suas preferências medianas, mas antes porque, não tendo um corpo rígido de convicções políticas, orientam as suas opções eleitorais de acordo com outros critérios, como a sua simpatia pelos líderes partidários, a percepção que têm da competência destes últimos, da sua honestidade, ou apenas e só porque acham que o “novo chefe” é “diferente” do “velho”. E depois descobrem que eles afinal são “iguais”.

O partido que tiver a coragem de fugir a este comportamento, o partido cujo líder mostrar aos eleitores que, ao contrário dos outros, diz aquilo que diz porque acha que é melhor para o país, e não porque acha que é melhor para ganhar eleições, será capaz de obter o apoio necessário para promover políticas “Coca-Cola”: por muito amargas que sejam ao início, sabem bem melhor quando se chega ao fim da garrafa.

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6 pensamentos sobre “Os políticos deviam ser como a Coca-Cola

  1. Mentat

    “Uma analogia interessante…”

    Mas muito deprimente.
    Eu olhando à volta, nem Pepsi vejo, só colas ranhosas tipo Canada Dry…
    .

  2. Muito bem. Assino por baixo.

    E agora lembrei-me de que quando vou aos cinemas Lusomundo só há Pepsi, não há Coca-Cola. À atenção da Autoridade para a Concorrência! LOL

    Ah, e o meu futuro partido é Coca-Cola. 🙂

  3. l.falcão

    para Fernando Pessoa
    «1º estranha-se, depois entranha-se»
    a escumalha tomou conta do que resta do rectângulo

  4. Ricardo Sebastião

    O único senão é que políticas austeras não podem ser impostas pelo PSD… Tivesse o PSD feito um quarto do que o governo socialista tem feito e já teria havido uma revolução… O PS na oposição em conjunto com BE e PCP fazem um barulho ensurdecedor que secam qualquer margem de manobra pelo PSD…

    É como o Pedro Arroja diz: o liberalismo não foi feito para os portugueses. E as poucas reformas serão feitas pelo PS e pela pressão de choques externos ou da insustentabilidade do Estado Social…

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