Mistérios sobre o aborto

Ontem estava ocupada com o aniversário do meu filho e não me aperteceu perder tempo com essa realidade feia e funesta que é a liberalização do aborto em Portugal desde há cerca de ano e meio. Não me venho aqui queixar da falta de aconselhamento às grávidas que pretendem abortar, apresentando-lhes alternativas, como havia sido prometido pelas hostes pró-aborto e por vários socialistas nos últimos dias da campanha antes do referendo. Também não me queixo (por agora) da isenção de pagamento de taxas moderadoras para quem aborta, ao contrário do que sucede com quem está de facto doente e utiliza o SNS, nem do pagamento integral do valor do ordenado durante um mês a uma mulher que abortou, qual licença de maternidade, enquanto a quem está de baixa e mesmo doente a Segurança Social apenas comparticipa uma percentagem do ordenado. Também não venho louvar as palavras da Ministra da Saúde, porque não acredito nelas (e que boas intenções para um ano de eleições; mas claro que isso são coincidências).

Gostava, no entanto, de ter números dos abortos realizados. E não apenas de quantos e em que zonas e em mulheres de que idade foram realizados abortos. Quando a liberalização do aborto celebrou seis meses, recordo-me que os jornais deram a saber coisas interessantes, por exemplo o número de mulheres que tinha feito mais de um aborto nesse período (e foram só seis meses, recordo) que não era nada negligenciável, quantas mulheres desistiram de abortar durante o período de reflexão, que grande parte das mulheres que abortavam não participavam nas consultas de planeamento familiar que se deveriam seguir. Depois de Dezembro de 2006 não li mais uma linha sobre estes aspectos mais desagradáveis para a propaganda pró-aborto. E, uma vez que os meus impostos são usados para os ditos abortos, se não for muita inconveniência, gostava de ter disponível de forma fácil e acessível a leigos quantas mulheres já usaram repetidamente o aborto e quantas vezes, se as consultas de planeamento familiar subsequentes servem para alguma coisa, quantas mulheres que abortaram sofreram de depressão nos tempos seguintes e quantas, tempos depois, consideram que se lhes tivesse sido dado outro apoio e mostradas alternativas não teriam abortado. É certo que as promessas dos movimentos pró-aborto durante a campanha ainda valem menos do que as promessas de Sócrates noutras matérias, no entanto recordo-me que se falou em estudar em abundância o fenómeno do aborto de forma a ser feita uma melhor prevenção.

13 pensamentos sobre “Mistérios sobre o aborto

  1. Karocha

    Pois é Maria João Marques.
    Eu sou a favor da despenalização do aborto.
    A mim, uma pseudo-mãe, arrastou-me para fazer um aborto a sangue frio, quando o que eu necessitava apenas de uma avó.
    Tinha tanto trabalho,que não me apercebi, que não tinha período há meses!
    Paguei o aborto como sendo com anestesia e, ela ficou com o resto do dinheiro.
    A parteira, não o queria fazer,estava de 5 meses e,ela desatou aos gritos e obrigou a mulher a fazê-lo,eu ia morrendo.
    Sou a favor e tenho dois filhos que adoro.
    Cumprimentos
    Manuela Diaz-Bérrio

  2. Manuela Diaz-Bérrio, conta uma experiência horrível e eu garanto que me sinto solidária. Ainda bem que não teve consequências de saúde (além das mágoas das lembranças) e que conseguiu ter os seus dois filhos.

    Mas ser favorável à despenalização não tem nada a ver com esta história, em que a Manuela abortou coagida e numa situação de grande vulnerabilidade (já pensou quantos casos de aborto se farão assim, porque uma grávida se vê sem apoio da família ou do namorado/marido e se sente numa armadilha? já pensou na liberdade que muitas mulheres não terão para decidir? já pensou quantas mulheres não abortam contra vontade, porque os outros de quem dependem assim o querem? e como esta lei propicia estas situações?).

    Em todo o caso parece-me que mesmo quem seja a favor da despenalização e até da liberalização também queira saber se o Estado está a fazer o que deve nesta matéria, de forma a prevenir abortos e a evitar recidividas. E não está. Nem a comunicação social o está a escrutinar.

  3. Lucklucky, tendo em conta o recente caso italiano, também chegaremos aos novos, mesmo que estes não se tenham pronunciado sobre estados vegetativos e mortes à fome.

    AR, penso que até gostam que sejam usados impostos de quem é contra o aborto para estes fins, segundo me lembro de coisas escritas por alturas do referendo.

  4. Cara Pálida

    Estranho cozinhado aquele que se faz neste blogue com liberalismo e conservadorismo…

    Um dado para os semi-liberais deste blogue: é hoje um facto que a descida da criminalidade que se registou nos EUA a partir de meados dos anos 90 é resultado da liberalização do aborto nesse país 20 anos antes.

    A explicação para esse fenómeno é fácil de entender.

  5. Libertas

    a cultura da morte é arrepiante.

    Os srs do regime não querem saber do futuro deste país, nem desta Nação.

    Pobre país, o nosso…

  6. Maria João Marques

    Cara Pálida, há quem pareça pensar que a descida de criminalidade nos EUA se deveu a um grande endurecimento das penas e a uma tolerância zero das polícias e das instâncias judiciais.

    E não entendo a mistura liberalismo/conservadorismo. A minha liberdade não pode implicar poder decidir a morte de um terceiro. Mesmo que este seja totalmente indefeso (um bebé também é). Isso não é liberalismo, é totalitarismo.

  7. Cara pálida,

    não infira factos a partir de correlações. Essa é do Freakonomics ou do Armchair Economist?
    Já agora juntando a frenologia com essa pode programar-se melhor o aborto/pacificação da sociedade. Para os que escapem à grelha há o Ritalin ou, em último caso, a lobotomia.

  8. Karocha

    Maria João

    Se estiver interessada em falar comigo sobre o assunto, tenho mail.

    Cumprimentos
    Manuela Diaz-Bérrio

    PS. Um dos meus filhos, é o Guilherme Diaz-Bérrio, Economista.

  9. Maria João Marques

    Manuela, vou ver o seu e-mail no registo de comentários. Gostava muito de trocar umas impressões.
    Cumprimentos

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