As políticas sociais do liberalismo

Anda por aí em voga a ideia de que é preciso mais Estado para proteger os cidadãos da crise. Mais regulamentação da actividade laboral, mais protecção do trabalhador, maior controle das decisões tomadas pelos empresários, da forma como estes devem gerir a sua empresa, como os bancos devem conceder créditos. São inúmeros os exemplos, significativos dos ventos que correm e que tanta coragem têm dado à esquerda para que volte a desejar, sem receio de parecer ridícula, o fim do capitalismo.

Junte-se, a esta euforia, a ideia alicerçada até ao fundo da nossa consciência cívica de que os liberais não cuidam dos mais desfavorecidos. Não se preocupam com as situações mais gritantes da miséria humana, acreditando que toda a vida do homem é um percurso natural na evolução da condição humana. Que basta o trabalho, o esforço e a fé no mercado para que tudo corra pelo melhor.

Não há, no entanto, nada mais errado. Ao contrário do que tem sido ponto assente, quanto maiores as dificuldades para o despedimento, e que as forças de esquerda tanto preconizam, maior a dificuldade na obtenção de emprego. Se tais medidas protegem quem tem trabalho, já prejudica quem não trabalha. Qualquer homem e qualquer mulher que fique em casa sem nada fazer e desconhece como vai pagar as contas no final desse mês. Da mesma forma, as licenças de maternidade/paternidade podem ter um efeito contrário ao pretendido. Se protegem a mãe com emprego e que tem um filho, prejudica aquela que, estando desempregada, engravida e dificilmente encontrará alguém disposta a contratá-la. É, pois, uma medida que também pode desincentivar à constituição de família e contribui, à sua maneira, para a redução da natalidade. A desregulamentação é, pois e muitas vezes, a melhor forma de não discriminar e, não discriminando, não prejudicar os cidadãos.

Nenhum liberal deseja o desamparo total e completo dos cidadãos. Nenhum liberal acredita que o Estado se deve abster das políticas de apoio aos mais desfavorecidos. A existência de uma política mínima de cuidados de saúde, de apoio à pobreza, de acesso à educação, a tal rede de segurança que por vezes se fala, é o cerne do liberalismo. A única diferença é serem políticas sociais que não atrofiam e penalizam o esforço dos que têm trabalho, nem as poupanças dos que cuidam do seu futuro. São políticas que acreditam nas pessoas, no uso que fazem da sua liberdade (uma palavra tão erradamente entregue ao socialismo), e que não destroem a responsabilidade e capacidade das pessoas cuidarem do seus e dos que lhe são ou estão próximos. Não rouba à sociedade o seu papel e dever para cuidar de si. Não é possível dar esperança às pessoas, quando não se confia nelas.
Mas o liberalismo não é apenas economia. É também política. Trata sobre a vida do homem em sociedade. Alicerça-se em valores, quer sejam laicos ou religiosos. Assenta em princípios que, marcando cada pessoa de maneira diversa e manifestando-se individualmente em cada ser, marcam de forma perene a sociedade. Não há liberdade sem responsabilidade individual e cívica; sem qualquer reconhecimento do valor do ‘outro’; sem respeito pelo próximo; consideração pelas suas opiniões, o seu esforço e a satisfação das suas vontades. Tendo o liberalismo um cariz político, implica ele uma maior aproximação dos cidadãos ao poder. Algo que só se consegue (refiro-me agora apenas a Portugal) através de uma reforma dos sistema eleitoral que permita a escolha, um por um, de cada deputado do Parlamento; obriga a uma descentralização administrativa, atribuindo gradualmente, que nada se faz ao acaso e de repente, mais poderes ao poder local, permitindo aos municípios fazerem o que hoje é competência dos governos e às freguesias decidir naquilo que cabe aos municípios.

É nos tempos como os que se vivem actualmente que decisões mais fundas devem ser pensadas, discutidas e tomadas. Mas é também nestas alturas, em que a elite política e intelectual, que nos dirige há anos, aponta como causa dos nossos problemas soluções que não têm sido aplicadas, que devemos parar um pouco, como quem respira fundo, suspeitar das premissas apresentadas, estudar um pouco e inquirir. É um pouco como partir pedra. Há que insistir. Insistir sempre. Porque é assim que acabam os mitos. E a mentira.

Anúncios

50 thoughts on “As políticas sociais do liberalismo

  1. “Nenhum liberal acredita que o Estado se deve abster das políticas de apoio aos mais desfavorecidos. A existência de uma política mínima de cuidados de saúde, de apoio à pobreza, de acesso à educação, a tal rede de segurança que por vezes se fala, é o cerne do liberalismo.”

    É por isso que sou capitalista e não liberal.

    “A única diferença é serem políticas sociais que não atrofiam e penalizam o esforço dos que têm trabalho”

    Explica-me lá uma coisa, quem é que paga os cuidados de saude, apoio à pobreza, eduacação e não sei que mais que os liberais querem? Os que estão de papo para o ar? Quem é que paga o professor? O médico? Trabalham de borla? Como é que isto funciona sem penalizar os que trabalham? Ou os impostos são um privilégio?

  2. O post está muito bom mas não está correcto dizer que “A existência de uma política mínima de cuidados de saúde, de apoio à pobreza, de acesso à educação, a tal rede de segurança que por vezes se fala, é o cerne do liberalismo.”

  3. CN

    O cerne do liberalismo é pensar que a forma mais eficaz (e mais humanista) no combate à pobreza vem de um sistema social e económico livre, onde existem pessoas e organizações que se podem dedicar a isso, especialmente se tiverem na posse da totalidade do rendimento fruto do seu trabalho e produção e as pessoas desfavorecidas não forem impedidas de se ajudarem a si mesmo por barreiras como “salários mínimos”,

  4. Luís Lavoura

    “uma reforma dos sistema eleitoral que permita a escolha, um por um, de cada deputado do Parlamento”

    Confesso que não vejo bem o que é que isso tem a ver com o liberalismo.

  5. António Carlos

    “Alicerça-se em valores, quer sejam laicos ou religiosos.”
    Essa para mim é uma das causas da não aceitação dos princípios liberais em Portugal. É que os defensores do liberalismo geralmente associam-no a valores religiosos (católicos) afastando assim muito do seu potencial eleitorado (ver, por exemplo, os posts de hoje de Rui A. no Portugal Contemporâneo).

  6. “Nenhum liberal deseja o desamparo total e completo dos cidadãos. Nenhum liberal acredita que o Estado se deve abster das políticas de apoio aos mais desfavorecidos. A existência de uma política mínima de cuidados de saúde, de apoio à pobreza, de acesso à educação, a tal rede de segurança que por vezes se fala, é o cerne do liberalismo.”

    Concordo com a maior parte do post, que aliás está muito bem escrito, mas não com esta parte.

    Independentemente de eu (provavavelmente) até estar mais próximo das posições defendidas pelo AAAmaral em termos de políticas públicas, não tenho dúvidas em classificar o Carlos Novais e o Nuno Branco (mesmo eventualmente contra a vontade do próprio 🙂 ) como liberais, assim como Rothbard, Nozick, D. Friedman, Hoppe ou Ayn Rand.

  7. “É que os defensores do liberalismo geralmente associam-no a valores religiosos (católicos) afastando assim muito do seu potencial eleitorado (ver, por exemplo, os posts de hoje de Rui A. no Portugal Contemporâneo).”

    António Carlos,

    Não duvido que a sua intenção seja boa, mas erra completamente o alvo. Tão completamente que chega a ser irónico.

    O Rui A. chama – e muito bem – a atenção para aquele que tem sido porventura a principal falha histórica dos auto-proclamados defensores do liberalismo em Portugal. Ler os posts dele da forma que o fez, só prova que o contexto português é mesmo muito problemático a esse respeito. Enquanto persistirmos nos mesmos erros, não vamos longe…

  8. António Carlos

    Caro AAAlves,

    confesso que não percebi o seu comentário mas gostaria de aprofundar a questão.
    Da leitura dos posts de Rui A. (não só o seu último) a ideia com que fico é que ele defende como condição necessária para um projecto político liberal em Portugal a sua associação ao “conservadorismo”, aos “valores católicos” e à “direita”. Estarei a perceber mal?

  9. Luis Serpa

    O grande erro dos liberais foi, caro André Alves, termos deixado que a esquerda nos roubasse o monopólio da solidariedade. E o seu post demonstra-o excelentemente. Parabéns.

  10. Pitágoras

    “Se protegem a mãe com emprego e que tem um filho, prejudica aquela que, estando desempregada, engravida e dificilmente encontrará alguém disposta a contratá-la. É, pois, uma medida que também pode desincentivar à constituição de família e contribui, à sua maneira, para a redução da natalidade.”

    Entäo e a mulher que engravida e depois é despedida para dar lugar a uma desempregada que não tem filhos?

    “A desregulamentação é, pois e muitas vezes, a melhor forma de não discriminar e, não discriminando, não prejudicar os cidadãos.”

    Claro que não prejudica. Somos todos iguais. Somos todos trabalhadores, ou “colaboradores”, para ser suave… Se temos filhos ou não, casas para pagar ou não, problemas de saúde para tratar ou não, não interessa. Não é “produtivo”…Troca-se por outro! De qualquer maneira eles são todos iguais…

  11. António Carlos

    Caro AAAlves,

    só mais uma achega. Através do seu comentário cheguei ao site (e post) de Nuno Branco que explica e defende a sua posição com argumentos “racionais” sem que para isso tenha alguma vez mencionado a palavra “direita (partidária)”, “conservadorismo” ou “valores religiosos (católicos)”. Apesar do “radicalismo” das suas propostas penso que um argumentário do tipo que utilizou (concentrado em questões politico-económicas e no papel do Estado na sociedade) teria muito mais adeptos do que as mesmas posições defendidas com um argumentári odo tipo avançado por Rui A.

  12. “O cerne do liberalismo é pensar que a forma mais eficaz (e mais humanista) no combate à pobreza vem de um sistema social e económico livre, onde existem pessoas e organizações que se podem dedicar a isso, especialmente se tiverem na posse da totalidade do rendimento fruto do seu trabalho e produção e as pessoas desfavorecidas não forem impedidas de se ajudarem a si mesmo por barreiras como “salários mínimos””

    Eu diria que isto será o cerne do anarco-capitalismo e da facção mais ortodoxa do liberalismo clássico. O “radicalismo” desta crença é precisamente por entrar num domínio de crença e do abono que dá à bondade humana ao acreditar que alguém que disponha de cem por cento do seu rendimento se irá dedicar a olhar pelos que ficaram excluídos do mercado. Ora é aqui que este liberalismo se espalha ao comprido, pois nada garante essa suposta generosidade, nem numa sociedade com sólidos valores cristãos e éticos (e eu acredito nos valores cristãos e católicos) se pode acreditar que a um grau de exclusão grave e danosa para uma nação não brotasse e não corroesse os seus alicerces.
    Por isso, e como não acredito na bondade humana – crença que coloca o liberalismo na esquerda e nas balelas que deram origem ao progressismo do século XX -, nunca me considerei propriamente um liberal, porque embora desta ideologia vá tire uma relação acertada com o mercado livre, a política fiscal e a exploração económica, uma total importação e decalque das teorias do liberalismo clássico, bem como de todos os ismos deste mundo, seriam calamitosas.
    Quase todos os governos e políticos conservadores têm conseguido pôr este liberalismo à distância correcta e no seu devido lugar.

  13. PF,

    1) “anarco-capitalismo” é uma aberração da mente. Não existe nem pode existir. Uma das pedras fundamentais do Capitalismo é o direito à propriedade privada e é impossível essa ideia co-existir com a ideia de anarquia.

    2) Ninguém é excluido do mercado a não ser que seja pela força (daí não podermos viver em anarquia mas precisarmos de uma forma de governo que faça cumprir a lei e que proíba o usa da força na sociedade). A unica forma de se excluirem do mercado é não produzindo nada (ou produzindo algo que ninguém quer, o que vai dar ao mesmo). Se alguém decide por se auto-excluir do mercado não há grande coisa que a “sociedade” possa fazer sobre isso. Qualquer pessoa pode ir morar para uma ilha deserta, não lhe dá o direito de exigir que quem vive em sociedade todos os dias lhe mande mantimentos para suster o seu nível de vida.

    3) Até nos períodos mais negros da história sempre houve pessoas que sentiram interesse em ajudar os mais desfavoráveis seja porque razão for (ou porque se sentiam mais perto de Deus, ou porque lhes fazia bem ao ego, ou porque os ajudava indirectamente em outros objectivos de vida). Vir dizer que isso não acontece(u) é obviamente falso.

    4) O bom do mercado é exactamente que não temos que acreditar na bondade humana. O padeiro não me dá pão por ser bonzinho, troca-o por algo que eu lhe dê de valor. Eu não trabalho porque sou um tipo porreiro para pagar impostos mas porque preciso de valor para dar ao padeiro.

    5) O problema desta questão toda é que pelos vistos há pessoas que pensam que a vantagem do liberalismo ou capitalismo é o seu modelo social. Isso é claramente falso. A vantagem do capitalismo é a liberdade individual, que isso forneça à humanidade o sistema de melhor progresso humano e de riqueza disponível pode ser considerado como uma feliz consequência. O valor principal não é a criação de riqueza mas sim a liberdade individual.

  14. Caro Nuno

    1) Se é uma aberração o anarco-capitalismo ou não é uma discussão que não me meto.
    2)Ninguém está em dificuldades devido ao desemprego ou a doença, seja considerado excluído ou não, por vontade própria. Pode estar por culpa e responsabilidade própria, sim. Mas isso é uma eterna luta entre as políticas sociais dos governos, sejam eles socialistas ou liberais, conseguir cortar apoio finaceiro à malandragem.
    3)Não duvido que nos períodos mais negros da história houve caridade e beneficência. Nunca disse que não havia. o que digo é que duvido que esta seja suficiente para períodos mais críticos. Acreditar que isso é suficiente, das duas uma: ou nos marimbamos para quem sofre; ou acreditamos que há muita gente boa a querer ajudar. No primeiro caso, como cristão e católico é uma hipótese tão abominável como um crime: No segundo é ter uma crença infantil na bondade humana.
    4) Completamente de acordo. Nem eu pus em causa o mercado, pois não?
    5) De acordo com o a falácia do modelo social do liberalismo. Mas na minha opinião é perigoso e mesmo amoral colocar os de modo absoluto e acrítico os interesses individuais acima dos interesses de uma nação e das instituições que lhe dão vida, assim como do bem comum. Aí entrávamos na dialéctica liberdade-autoridade e isso dá pano apra mangas e como diz o outro “é mais velha que a Sé de Braga”.

  15. CN

    “1) “anarco-capitalismo” é uma aberração da mente. Não existe nem pode existir. Uma das pedras fundamentais do Capitalismo é o direito à propriedade privada e é impossível essa ideia co-existir com a ideia de anarquia.”

    Portanto, uma vez que no planeta terra não existe um Estado Mundial com uma única fonte de direito, policia e tribunais, e pelo contrário temos mais de 200 agências (ou Estaditos) de segurança, cada uma armada até aos dentes, com a mania que cada um pode ter o seu próprio direito e sistema social e matando a torto e direito sempre que alguém se atreve a dizer o contrário, … suponho que vivemos todos numa aberração.

    (e ainda podemos pensar na possibilidade de vida inteligência extra-terrestre a partir do qual teríamos de pensar … na Federação Galáctica para acabar com a anarquia no universo).

    Já agora, quanto ao PF sempre diria que dado que na sua realidade a pobreza extrema continua a existir apesar das garantias não só mínimas como até muito estendidas, pelo menos eu confrontado com essa realidade, concluo que já foi tentado e não funciona. E Negar a realidade é um problema sério.

  16. 1) Não pode haver discussão… o capitalismo a sobreviver na anarquia seria como um ser humano a viver no vácuo.

    2) É por isso que existe poupança e seguros, para atravessarmos os momentos mais dificeis. Uma recessão não resulta em destruição de postos de trabalho mas sim na realocação da força de trabalho. Não é preciso estudar economia para se comprovar isto, basta olha para o século XIX e ver como eram as recessões quando o estado não intervia. A célere redistribuição do trabalho fazia com que o período de crescimento baixo ou negativo fosse muito mais rapidamente ultrapassado. Através dos subsidios à não produção o Estado alonga em muito este tempo de recuperação penalizando todos.

    3) Posso apenas dizer que o infortunio não pode ser traduzido no direito de exploração de outro ser humano. Só porque parti uma perna e não posso trabalhar não tenho nenhum direito de te mandar trabalhar por mim. Se aceitas isso tudo bem, que por “maioria democrática” mo imponhas a mim não posso aceitar.

    5) O impressionante é que mesmo depois destes séculos todos, depois da América liberal do século XIX e depois da Russia autoritária do século XX ainda há quem não tenha a certeza de que a liberdade é o melhor caminho.

  17. CN

    “No segundo é ter uma crença infantil na bondade humana.”

    E que tal a crença infantil na capacidade do colectivismo liderados por poços de bondade têm a capacidade de transformar para melhor a alma humana?

    Todos os programas sociais incentivam a existência permanente de dependentes e uma classe que precisa dessa dependência para justificar a sua existência. Acreditar noutra coisa é uma crença infantil.

    Da maneira que se fala agora, poder-se-ia pensar que antes da seg. social as pessoas, idosos por exemplo, simplesmente morriam de fome aos milhares pelas ruas fora.

  18. CN

    Caro Nuno

    Estado é um monopólio territorial da violência (daí decorre o monopólio sobre o direito e o exercício da violência e a capacidade de o financiar).

    Mas no planeta não existe tal monopólio. E existem boas razões para pensar que a civilização nasce e progride na Europa dado o extremo atomismo das suas estruturas politicas (na altura de Napoleão, a Alemanha era composto por 300 estaditos independentes).

    Bom, deixe-me ser claro – o mundo é anárquico.

  19. Se podemos argumentar que o mundo, numa perspectiva macro, é anarco por falta de um orgão central, penso que também podemos ser claros em afirmar que o mundo não é capitalista 😉

  20. CN

    Para quem ainda tem crenças sobre os e programas sociais, mesmo aqueles que parecem malais racionais e neuros, ler:

    “Losing Ground”, de Charles Murray (re-editado em aniversário de 10 anos de publicação).

    Uma análise extensiva incluindo estatística sobre American Social Policy de 1950 a 1980).

    Vale a pena ler os efeitos de uma experiência com “imposto negativo” a nível local.

    Foi observado que mesmo um programa tímido e local, o desincentivo a quem entrava no programa procurar emprego era drástico, e tendo também consequências directas na destruturação da família.

    Enfim, coisas que conservadores deviam saber mas para o qual já perderam o instinto.

  21. CN

    Nuno

    Sim, tem razão. Mas a crença que o mundo desaba se não existir apenas um direito único e uma força única para a aplicar é, bem vista as coisas, apenas uma ilusão de óptica. Não se esqueça que o comércio internacional sempre se fez desde a antiguidade sem que existe um enforcer comum. Pelo contrário, as partes sempre foram capazes de criar mecanismos de regulação, arbitragem e punição (em geral, o ostracismo).

  22. Estamos a afastarmo-nos do tópico mas convém esclarecer que eu nao disse que “o mundo desaba se não existir apenas um direito único e uma força única para a aplicar”. Eu disse que o capitalismo não pode sobreviver na anarquia.

    Imaginas (isto na net é tudo corrido a “tu”, não é nenhum desrespeito) um mundo onde um empresário de Tokyo contracte um trabalhador em Lisboa sem um contracto que não possa fazer valer? Achas que a anarquia na Somália encoraja as rotas comerciais que passam ao seu largo?

    Não te parece que para que haja um próspero e justo comércio internacional tenha que haver garantias de que a propriedade privada é reconhecida, que os contractos tenham valor e que haja um mínimo de lei internacional para os fazer respeitar? Achas que alguém vai colocar a sua carga ao mar se achar que vai poder ser confiscada por uma qualquer potência marítima que não sofra qualquer tipo de retaliações ou que o seguro não cubra os prejuízos independentemente de quem praticou essa acção?

    Porque é apenas disto que o Capitalismo precisa, não precisa de nenhumas nações unidas a policiar o planeta.

    O anarco-capitalismo é uma coisa tão provável como o comuno-capitalismo. Ou temos uma coisa ou temos outra, não podemos ter as duas.

  23. 1) Não pode haver discussão…

    Tanto pode que vocês estão a fazê-lo 😉

    Não te parece que para que haja um próspero e justo comércio internacional tenha que haver garantias de que a propriedade privada é reconhecida, que os contractos tenham valor e que haja um mínimo de lei internacional para os fazer respeitar?

    O CN já respondeu a isso. Há 200 agências que o fazem. Quanto à Somália julgo que os chineses estão a tratar do assunto.

  24. CN

    Caro Nuno

    Estamos no mesmo barco. Quando vislumbrar um Estado Mínimo avise-me.
    ~

    PS: E volto a perguntar, o planeta não vive em anarquia?

  25. CN

    Quanto a Somália o maior gerador de anarquia (no sentido de anomia) por lá são os Estados externos a meterem-se na propriedade dos outros.

    De resto, a maior fonte de anomia (ausência total de direito) na civilização, capaz de matar, obrigar a matar, e destruir impunemente em massa (com se as leis de Deus não se lhe aplicassem) … é mesmo o Estado.

  26. CN, para te responder vais ter que definir anarquia. Para mim:
    1. Absence of any form of political authority.
    2. Political disorder and confusion.
    3. Absence of any cohesive principle, such as a common standard or purpose.

    Não me parece que o mundo viva mergulhado na anarquia. Não sou perito em leis mas sei que existe uma cadeira de “Direito Internacional” que presumo tenha alguma aplicação prática. Existem organizações supra-nacionais (quer concordemos com elas ou não) que impõem regras. Só por não haver um super-governo mundial não quer dizer que estejamos em anarquia.

    E volto a afirmar o que me parece óbvio: O capitalismo não sobrevive sem “any form of political authority”.

  27. Quer o Nuno quer o CN incorrem no erro de anacronismo quando se referem ao século XIX como modelo de política social e económica. Se compararmos a população mundial e a sua relação com os recursos existentes nesse século, para não falar noutros aspectos, com os de agora, temos no mínimo dúvidas se as políticas económicas e sociais poderão ser as mesmas.
    Nuno, a América do século XIX era um conjunto de estados com regras muito próprias, nos quais as instituições e a noção de bem comum tinham um peso considerável. Não existia segurança social nem subsídios, mas as comunidades tinham um poder coercivo sobre o indivíduo que hoje não se aplica à mentalidade vigente. Esse poder foi transferido para o Estado (mal ou bem). Mas de qualquer modo, a autoridade existia e não brincava em serviço.

  28. “CN, para te responder vais ter que definir anarquia. Para mim:
    1. Absence of any form of political authority.
    2. Political disorder and confusion.
    3. Absence of any cohesive principle, such as a common standard or purpose.”

    Penso que os pontos 2 e 3 seja o que o CN (e eu, já agora) chamará “anomia”.

  29. “Da leitura dos posts de Rui A. (não só o seu último) a ideia com que fico é que ele defende como condição necessária para um projecto político liberal em Portugal a sua associação ao “conservadorismo”, aos “valores católicos” e à “direita”. Estarei a perceber mal?”

    Em sentido estrito, creio que sim. E conhecendo o Rui A. (não necessariamente pessoalmente ainda que isso também ajude, mas tendo uma visão mais abrangente do que ele já escreveu sobre teoria política e sobre o pensamento político em Portugal), julgo que rapidamente concluiria que o que ele pretende alertar é para a impossibilidade de qualquer projecto político liberal que hostilize a Igreja ser bem sucedido (enquanto projecto liberal, já que poderá ser bem sucedido como outras coisas…). E esse tem sido precisamente o erro tragicamente repetido dos auto-proclamados liberais portugueses.

    Não é preciso ser católico para ser liberal mas dificilmente se pode ser anti-católico e continuar a ser liberal(clássico).

  30. “O grande erro dos liberais foi, caro André Alves, termos deixado que a esquerda nos roubasse o monopólio da solidariedade. E o seu post demonstra-o excelentemente. Parabéns.”

    O post é do André Amaral. Mas ficam reenviados os parabéns… 🙂

  31. “Muito interessante a discussão entre o NB e o CN. Devia ir para o blogue da Causa…”

    Como para a Causa entram apenas os argumentos de feição à dita, os outros são persona non grata. Aliás chamar discussão à troca de argumentos sobre questões de semântica é um pouco exagerado.
    Cada vez mais compreendo mais o número de bloggers que estão a pôr a andar…

  32. CN

    “Não sou perito em leis mas sei que existe uma cadeira de “Direito Internacional” que presumo tenha alguma aplicação prática. Existem organizações supra-nacionais (quer concordemos com elas ou não) que impõem regras. Só por não haver um super-governo mundial não quer dizer que estejamos em anarquia.”

    Caro Nuno, o que você acaba de concluir é que:

    – não existe monopólio da violência territorial no planeta
    – e curiosamente, não estamos em anarquia (no sentido de anomia).

    Ou seja, parece que tenho razão. A ausência de um monopólio da violência consegue produzir uma certa Ordem.

  33. CN, eu confesso que não percebi nada dessa conclusão nem o que é que isso tem a ver para o caso. Eu disse que o capitalismo não funcionava na anarquia, não disse que a ausência de anarquia resultava em capitalismo.

    O comunismo tem ordem e não deixa de ser abominável por isso.

  34. CN

    Nuno

    Repare que diz que sem um Estado (monopólio territorial da violência) só pode resultar a desordem, e depois reconhece que não existe um Estado mundial (monopólio mundial da violência) reconhece que existe ordem?

    PS: A teoria anarco-capitalista a única coisa que postula é que todos os serviços incluindo o a segurança e protecção e os de arbitragem (tribunais) devem ser contratados (diga-se que ambos estão em crescimento exponencial, sobretudo os da arbitragem privada, dada lentidão dos tribunais públicos).

  35. “Como para a Causa entram apenas os argumentos de feição à dita, os outros são persona non grata. Aliás chamar discussão à troca de argumentos sobre questões de semântica é um pouco exagerado.
    Cada vez mais compreendo mais o número de bloggers que estão a pôr a andar…”

    PF,

    Não percebi. A Causa Liberal está com (muito) pouca actividade pública mas tirando isso não percebo a que se refere o comentário. Ou tinha em mente outra Causa?

  36. CN, está explicada a confusão toda e tem a ver com conceitos. É a mesma coisa que o post original dizer que há politicas sociais sem prejuizo para o trabalhador mas depois não diz quem as paga (como é que quem não trabalha as poderá pagar?)

    E com o CN é a mesma coisa. Uma anarquia é algo sem um poder central. Se não há poder central quem é que garante “todos os serviços incluindo o a segurança e protecção e os de arbitragem” ? Juntas associtiavas criadas no calor do momento?

    Os serviços que descreves são os serviços de um sistema político capitalista e não de uma anarquia. Associar o termo anarquia a um sistema político como o capitalismo é um disserviço que se presta ao capitalismo e aos direitos da liberdade humana. Em que beneficia o capitalismo em ser associado com um termo em que alguns dicionários vem descrito como o período de tempo entre o fim da monarquia francesa e a ascenção de Napoleão.

    E é também que critiquei o texto original do André. De que serve andar a propagandear o liberalismo porque tem um “bom modelo social”? Parece que andamos a defender a liberdade individual apenas para que nos possamos todos dedicar ao bem de outros. A liberdade deve ser sempre o valor mais alto, se a riqueza não pode ser multiplicada através da sua divisão e se o capitalismo é a melhor forma de criar riqueza para todos então ainda melhor, mas não é esse o esplendor da liberdade. O esplendor é EU fazer o que EU quero com o produto do meu trabalho.

    Já agora CN, e para que fique claro que estamos em sintonia apesar de detestar completamente as palavras e o seu significado que associas ao sistema politico em causa, fica aqui o link para o artigo “Sou Capitalista”, curiosamente escrito apenas um dia antes do André ter escrito este texto que agora discutimos: http://inflaccionista.blogspot.com/2009/02/sou-capitalista.html

  37. «Se não há poder central quem é que garante “todos os serviços incluindo o a segurança e protecção e os de arbitragem” ? Juntas associtiavas criadas no calor do momento?»

    Repetindo o que o CN tem dito, qual é a autridade central no planeta que garante o respeito pelas fronteiras, tratados, etc.?

    Sim, é verdade que às vezes os Estados entram em guerra, mas também é verdade que até são muito mais frequentes as guerras dentro de um Estado do que guerras entre vários Estados (o que indica que a existencia de uma autoridade central não garante nenhuma “ordem”, pelos vistos muito pelo contrário).

  38. São autoridades locais com poder sobre certo território? Eu não sei o que estás a implicar, se abolíssemos o Governo e déssemos poderes ás câmeras municipais isto era uma anarquia? Eu realmente não consigo entender o vosso conceito de anarquia, só pode ser falha minha.

  39. “Não percebi. A Causa Liberal está com (muito) pouca actividade pública mas tirando isso não percebo a que se refere o comentário. Ou tinha em mente outra Causa?”

    André, passo a explicar: eu acho que até ao momento do seu comentário, entre o CN e o Nuno a discussão (se é que lhe podemos chamar tal nome) centrava-se apenas em aspectos formalísticos. Mais precisamente da semântica. Mais precisamente sobre o conceito de anarquia. Porque em termos ideológicos, sabe o André melhor do que eu que Nuno e CN andam muito próximos, tendo em comum aversão a qualquer conceito de Estado e intervenção económico-social deste. Logo, eu não vislumbro o interesse de algo a que se possa chamar de discussão para a Causa (vossa) Liberal algo que ande apenas à volta de conceitos. Ao passo que houve mais intervenientes, eu incluído, que apresentaram mais razões válidas para um debate/discussão ideológico. A selecção do André neste caso, pareceu-me muito cirteriosa e cirúrgica e daí o meu desapontamento. Escusado será dizer que para a Causa, vocês chamam o “debate” que quiserem.

    Fiquem com Deus
    Pedro

  40. Luís Barata

    Os senhores distinguem entre liberalismo e capitalismo? Faço-lhe esta pergunta porque quase ninguém que eu conheço distingue entre os dois. Não só não distinguem como confundem um e outro. E é precisamente nesta distinção, que é dificil e envolve a filosofia do direito e o conceito de propriedade, que reside o cerne de todas as perplexidades económicas actuais…
    Não sei se o assunto lhes interessa…

  41. “Os senhores distinguem entre liberalismo e capitalismo? Faço-lhe esta pergunta porque quase ninguém que eu conheço distingue entre os dois. Não só não distinguem como confundem um e outro. ”

    O problema é que o significado da palavra “capitalismo” não é muito claro. O que quer dizer “capitalismo”?

    – um sistema em que um individuo pode usar o seu dinheiro para ganhar mais dinheiro?

    – um sistema em que, nos locais de trabalho, os trabalhadores trabalham sobre a direcção hierárquica dos proprietários do capital (ou dos seus represetantes)?

    – um sistema assente no respeito pelos direitos de propriedade privada?

    Desses aspectos, acho que o que é mais fiel ao étimo da palavra (“capitalismo”) é o primeiro; o que será sinónimo (ou quase) de “liberalismo” é o terceiro; o que é criticado por muitos “anti-capitalistas” é o segundo…

    O que complica é que as sociedades históricamente existentes a que se convencionou chamar “capitalismo” têm, basicamente, os 3 aspectos, pelo que é dificil dizer qual deles é o que verdadeiramente define o capitalismo.

  42. Luís Barata

    Sr. Miguel Madeira,

    Para mim o capitalismo é uma consequência da ciência moderna. Foi, aliás, assim que nasceu, quando o capital começou, devido à própria ciência moderna, a ter um valor e uma importância muito maiores do que a terra.
    Para uma introdução entre capitalismo, socialismo e liberalismo pode ver no meu blog artedeserportugues.blog.pt uns pequenos textos antigos que transcrevi da revista escola formal.

  43. vivi

    O problema desta questão toda é que pelos vistos há pessoas que pensam que a vantagem do liberalismo ou capitalismo é o seu modelo social. Isso é claramente falso. A vantagem do capitalismo é a liberdade individual, que isso forneça à humanidade o sistema de melhor progresso humano e de riqueza disponível pode ser considerado como uma feliz consequência. O valor principal não é a criação de riqueza mas sim a liberdade individual.

    Como homens que são ideologicamente manipulados e resignados a uma vida de exploração, pode pensar em liberdade individual? Isso é realmente coisa para “inglês vê”

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s