Anything goes (2)

Comentário de Guilherme Diaz-Bérrio

O problema com Francisco Louçã não é desconhecer a Teoria Económica mais básica. Muito pelo contrário: ele conhece-a muito bem. É verdade que ele é um dos economistas portugueses mais publicados e citados no estrangeiro, mas o que ele escreve enquanto académico e o que ele professa enquanto político estão a milhas de distância.

Tive o prazer de ler as teses de mestrado e doutoramento dele [ele é doutorado em História do Pensamento Económico]. Neles, em especial na tese de doutoramento, Louçã analisa e critica o seguinte: a excessiva matematização da ciência, com base em analogias importadas da Física e modelos demasiado simplificados de um sistema inerentemente complexo. Segundo ele, os economistas “main stream” simplificam demais, assumem demais, fazem contas a mais! Esta critica não é estranha a um “austríaco”: o mercado é demasiado complexo para ser modelado com equações simples. Muitas vezes, damos por nós com “unintended consequences” que não estavam “previstas” no modelo. Normalmente, para um Keynesiano, por exemplo, a culpa é da realidade, e não do modelo.

Num dos seus papers [co-autoria com Tanya Araújo, também professora no ISEG], a determinada altura Louçã elabora o seguinte raciocínio [tenho de encontrar o Paper, já o li à uns anos, ainda era estudante no ISEG]:
A Economia é um sistema com criticalidades auto-organizadas. O que é que isto quer dizer? Em primeiro lugar que se assemelha a uma floresta: auto-organiza-se em clusters auto-sustentáveis. Em segundo lugar, a que, a própria estrutura da mesma é dada a “pontos de criticalidade”, i.e., pontos nos quais uma pequena variação de uma variável induz consequências “catastróficas”, ou seja, grandes mais para serem ou previstas ou controladas. Um exemplo é a água: a 374ºC, tem-se um ponto de criticalidade em que o Estado liquido e gasoso são indestinguiveis, do ponto de vista termodinâmico [a ciência de onde se importa grande parte das analogias económicas]. Qualquer variação no sistema dá origem a uma variação demasiado grande para ser controlada ou prevista. Outro exemplo é uma floresta: uma pequena variação – acender um fosforo e deixa-lo cair – pode provocar uma consequência demasiado grande para ser controlada [e que o modelo não prevê]: a catástrofe de um incêndio que se auto-propaga até consumir a floresta, no limite.

Por analogia, a leitura deste paper levou-me [na altura] a concluir: faz sentido. Mas isso inibe grande parte da acção reguladora do Estado, pois este nunca sabe quando está perante um ponto critico. Por analogia, por exemplo, usar taxas de juro para “regular o ciclo económico”, é o equivalente da Economia a fazer uma queimada com napalm no Pinhal de Leira: os resultados são imprevisíveis.

My point? O Louçã académico e o Louçã político não são a mesma pessoa. Eu considero-o “intelectualmente desonesto”. Do ponto de vista académico professa algo, onde tem pesquisa feita. Da, no campo político, é dos economistas que mais distorce a Teoria de modo a obter vantagens “políticas”. Suportar o argumento dele na convenção, sobre o capital [que não faz qualquer sentido do ponto de vista económico], com base no facto “ter obra publicada no meio cientifico” é ignorar este pequeno [grande] facto.

Leituras complementares: Anything goes; Importa-se de repetir?

16 pensamentos sobre “Anything goes (2)

  1. ” Em segundo lugar, a que, a própria estrutura da mesma é dada a “pontos de criticalidade”, i.e., pontos nos quais uma pequena variação de uma variável induz consequências “catastróficas”, ou seja, grandes mais para serem ou previstas ou controladas. ”

    Esta é a ideia-chave do livro “O cisne negro”, da autoria de Nicholas Nassim Taleb.

    O autor do livro diz-se um céptico, será que Francisco Louçã também o é?

    Marcelo Melo
    http://www.3vial.blogspot.com

  2. OLP

    Estou farto de pedir….
    O Anacleto politico quer me FORNECER dois coelhos.
    O Anacleto economista quer me VENDER dois coelhos.
    Suspeito que vou ficar sem coelhos.

  3. Sim, o conceito de criticalidades é ligeiramente diferente ao conceito estatístico de um “black swan”: O último é um evento de muito baixa probabilidade mas que, a acontecer, tem consequências catastróficas, i.e., high tail risk.

    O ponto de Taleb é diferente: Ao assumir que a distribuição de um mercado é normal, quando na realidade, tem abas mais “gordas”, estamos a subestimar o risco. E ao assumir que todos os dados estão nessa distribuição, não estamos a dar espaço para um evento completamente fora do modelo e de baixíssima probabilidade, negligenciável[Um 11 de Setembro, por exemplo].

    O conceito de criticalidade auto-organizada é ligeiramente diferente: um sistema com criticalidades é um sistema dinâmico caótico. A criticalidade serve como atractor. E eu, enquanto agente externo, não tenho forma de prever as consequências da minha acção no sistema.

    Em linguagem austriaca: um banco central pode tentar fazer o “fine tunning” das taxas de juro, para “compor o crescimento”, mas nunca pode saber quais as consequências, pois estas vão ser, por definição, caóticas (no sentido de, a consequência da pequena variação é desproporcional a essa mesma variação). A seguir a politica activa de juros, segue-se um Boom, que foge de controlo e se torna num Bust que, no limite, pode levar o sistema com ele.

    A única explicação minimamente lógica para o comportamento de Louçã é, para mim, o seguinte: dada esta crença na incapacidade de controlar a economia capitalista, então a solução é simples: em vez de se admitir “não controlamos, não sabemos, deixemos o mercado ajudar na resposta”, acabe-se com o mesmo. É o equivalente a dizer que dado que o sistema de votos é um meio inconsistente de revelação de preferências públicas (e o mercado é um meio muito mais consistente de se chegar ai), então acabe-se com a Democracia!

  4. Talvez a contradição entre o Louçã académico e o Louçã politico não seja tão grande como tudo isso.

    Em primeiro lugar, no que respeita à intervenção do Estado, a tal teoria da “turbulência”, das “criticalidades”, etc., é uma faca de dois gumes:

    – por um lado, significa que mesmo pequenas politicas estatais podem ter consequências tremendas, seja para o pior ou para o melhor

    – por outro lado, significa que é muito dificil (ou impossivel) prever essas consequências e identificar quais são as politicas que podem ter as tais consequencias positivas tremendas

    Em compensação, num mundo neo-clássic, os efeitos das politicas públicas serão menos poderosos, mas mais fáceis de identificar.

    Ou seja, num mundo “turbulento”, os efeitos de se seguir uma boa politica serão muito mais positivos (i.e., “positivos” de acordo com a valoração moral de quem decide essas politicas) do que num mundo “neo-clássico”, mas a probabilidade de se descobrir quais são as tais “boas politicas” muito menor.

    Agora, temos outro ponto: não nos podemos esquecer que Louçã não é, nem um social-democrata, nem um comunista de estilo soviético; é um trotskista, e os trotskistas têm posições muito próprias a respeito do problema da informação dos decisores estatais. Numa versão super-simplificada, a posição trotskista é de que, se o planeamento estatal não fosse feito por “burocratas” mas pelas “massas” funcionaria porque, ao contrário dos “burocratas”, as “massas” supostamente terão a informação toda.

    Ora, se conjugarmos a visão “turbulenta” da economia com a tese trotskista de que basta adoptar uma espécie de democracia directa para resolver o problema da falta de informação dos decisores, efectivamente aí o resultado poderia ser um caso forte para o intervencionismo estatal.

    Note-se que eu não faço ideia se é este o raciocinio de Louçã, estou apenas a especular.

  5. “Ora, se conjugarmos a visão “turbulenta” da economia com a tese trotskista de que basta adoptar uma espécie de democracia directa para resolver o problema da falta de informação dos decisores, efectivamente aí o resultado poderia ser um caso forte para o intervencionismo estatal.”

    MM, como pode o problema da informação ser resolvido se o intervencionismo estatal interferir com o sistema de preços que reflecte as preferências das “massas”?

  6. «MM, como pode o problema da informação ser resolvido se o intervencionismo estatal interferir com o sistema de preços que reflecte as preferências das “massas”?»

    Esclareço que já há vários anos não é essa a minha opinião (eu estava tentando imaginar o que talvez o Louçã pense, não o que eu penso)

    No entanto, pode ser que algum dia eu faça um post a analisar essa questão (até porque acho que já é a segunda vez que deixo o BZ sem resposta a esta questão)

  7. BZ e Miguel,

    julgo que esse problema “estaria resolvido” se no fim da coisa deixasse de existir o Estado, o que (perdoai-me se estiver enganado) é o objectivo final tanto de trotskistas como de qualquer outro tipo de marxistas. Miguel?

  8. Daniel Azevedo

    “… a excessiva matematização da ciência, com base em analogias importadas da Física e modelos demasiado simplificados de um sistema inerentemente complexo. ”

    Eu sou físico e por isso calo-me em questões de economia quando não sei do que falo.
    O Sr. Louça deveria cingir-se à área económica pq quem dá uma bojarda destas não faz ideia do que é que está a falar!
    A simplificação dos modelos (em física) deriva precisamente da complexidade dos problemas.
    E o que é a “excessiva matematização da ciência” ? Eu tb gostava que o mundo se explicasse através de contas de somar/subtrair. Tinha-me poupado muitos anos de faculdade.
    Basta fazer uma pesquisa na net por “problema dos 3 corpos” para se ter uma ideia do que é a “complexidade” a que se refere o economista Louçã, e se ele conseguir fazê-lo sem “excessiva matematização” a comunidade ciêntifica agradece e até lhe dá o Nobel. CAso contrário: cale-se e não diga asneiras!

    Cumprimentos

  9. Daniel Azevedo,

    julgo que o que Louçã critica não é a matematização da ciência ou os modelos da Física, é a sua aplicação à Economia (quem diria, eu a defender o Anacleto Mor. Já vi tudo, posso ir em paz 🙂 ). Nesse sentido a sua crítica falha um bocadinho o alvo.

    Cumprimentos

  10. Já que o Helder “defende” o Louçã, vou eu (para compensar) criticá-lo (diga-se que eu só li umas 3 páginas da tese do Louçã, logo qualquer critica ou elogio que eu lhe faça pouco vale):

    se a física trabalha com modelos complexos, realmente não faz grande sentido dizer “como a economia é complexa, não podemos tratá-la com modelos matemáticos copiados da física” (afinal, se servem para a física complexa, também servirão para a economia complexa, não?)

  11. Daniel Azevedo

    “julgo que o que Louçã critica não é a matematização da ciência ou os modelos da Física, é a sua aplicação à Economia.”
    A matemática utiliza-se em economia e em física (não é uma especial para economia – como já vi alguns livros a apregoar!)
    Um crescimento exponencial é descrito da mesma maneira matemáticamente quer seja o preço de uma acção cotada em bolsa, multiplicação de bactérias ou um decaimento radioactivo.
    Quando me diz que a aplicação de modelos da física à economia conduz a uma “complicação” na matemática eu continuo a responde que isso deriva da complexidade do problema em estudo- quer este seja económico ou quântico.
    Em economia gostam muito de dizer: “considerem a variação da variável P mantendo as outras todas constantes…” Ora isto é uma ultrasimplificação de um dado problema. Uma variável pode ser (e é-o na maior parte do casos) dependente de outras, e estudar um sistema de n-variáveis interdependentes (como é o caso em economia, ou melhor: em qualquer ciência humana) envolve a aplicação de matemática que é complexa (mais para uns que para outros) precisamente pelo facto de a questão em causa ser complexa.

    Dizer que há uma excessiva matematização é, na minha opinião, reflexo de uma profunda ignorância desta realidade simples: O universo é complexo.

    “afinal, se servem para a física complexa, também servirão para a economia complexa, não?”
    E a falta de conhecimentos demonstrada pelo economista da tese de doutoramento é que leva a que este diga que a matemática é excessiva – se calhar pq não lhe deu a prova da teoria marxista.

  12. “Dizer que há uma excessiva matematização é, na minha opinião, reflexo de uma profunda ignorância desta realidade simples: O universo é complexo.”

    Já a mim esta frase parece-me reflexo de uma profunda ignorância sobre epistemologia.

    E por aqui me fico, ou ainda acabo a defender o Louçã…

  13. Daniel Azevedo

    “Já a mim esta frase parece-me reflexo de uma profunda ignorância sobre epistemologia.”

    Se o é ou não não sei pq não sou especialista na coisa. Mas posso discutir consigo física diferencial ou modelação de sistemas complexos, se quiser.
    Agora uma coisa lhe digo, meu caro: tente fazer modelos económicos ou de outras disciplinas com algum rigor (e complexidade) e depois diga-me se o consegue (apenas) com recurso à tabuada e à régua de cálculo.

  14. “Agora uma coisa lhe digo, meu caro: tente fazer modelos económicos ou de outras disciplinas com algum rigor (e complexidade) e depois diga-me se o consegue (apenas) com recurso à tabuada e à régua de cálculo.”

    Penso que a objecção do Louçã (e do AAAlves?) não é a se utilizar matemática complicada em vez de matemática simples. É mesmo ao uso de muita matemática.

    E, pelo que sei da tese de Louçã, o problema dele com os modelos matemáticos é que ele acha que não capturam a complexidade e a não-linearidade da economia real (suspeito que a tese do Louçã mais não é que a teoria do caos aplicada à economia) pelo que imagino que ele se oporia ainda mais ao uso de matemática simples em vez de matemática complexa.

  15. Daniel Azevedo

    Caro Miguel Madeira

    Permita-me que lhe recomende um “livrinho” que discute (muito melhor que eu, infelizmente) a questão que procurei levantar com os meus comentários.
    “Imposturas Intelectuais” por Alan Sokal e Jean Bricmont, Gradiva.
    Acerca do abuso da terminologia da matemática e da física em ciências humanas.

  16. Pingback: O Insurgente

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