Anything goes

Se “um dos economistas portugueses mais publicados e citados no estrangeiro” prefere ignorar um dos conceito básicos da teoria económica, não nos devemos admirar que o primeiro-ministro português afirme convictamente (?) que o “modelo social europeu” deve ter um papel determinante na resolução da actual crise financeira.

6 pensamentos sobre “Anything goes

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  2. O problema com Francisco Louçã não é desconhecer a Teoria Económica mais básica. Muito pelo contrário: ele conhece-a muito bem. É verdade que ele é um dos economistas portugueses mais publicados e citados no estrangeiro, mas o que ele escreve enquanto académico e o que ele professa enquanto político estão a milhas de distância.

    Tive o prazer de ler as teses de mestrado e doutoramento dele [ele é doutorado em História do Pensamento Económico]. Neles, em especial na tese de doutoramento, Louçã analisa e critica o seguinte: a excessiva matematização da ciência, com base em analogias importadas da Física e modelos demasiado simplificados de um sistema inerentemente complexo. Segundo ele, os economistas “main stream” simplificam demais, assumem demais, fazem contas a mais! Esta critica não é estranha a um “austríaco”: o mercado é demasiado complexo para ser modelado com equações simples. Muitas vezes, damos por nós com “unintended consequences” que não estavam “previstas” no modelo. Normalmente, para um Keynesiano, por exemplo, a culpa é da realidade, e não do modelo.

    Num dos seus papers [co-autoria com Tanya Araújo, também professora no ISEG], a determinada altura Louçã elabora o seguinte raciocínio [tenho de encontrar o Paper, já o li à uns anos, ainda era estudante no ISEG]:
    A Economia é um sistema com criticalidades auto-organizadas. O que é que isto quer dizer? Em primeiro lugar que se assemelha a uma floresta: auto-organiza-se em clusters auto-sustentáveis. Em segundo lugar, a que, a própria estrutura da mesma é dada a “pontos de criticalidade”, i.e., pontos nos quais uma pequena variação de uma variável induz consequências “catastróficas”, ou seja, grandes mais para serem ou previstas ou controladas. Um exemplo é a água: a 374ºC, tem-se um ponto de criticalidade em que o Estado liquido e gasoso são indestinguiveis, do ponto de vista termodinâmico [a ciência de onde se importa grande parte das analogias económicas]. Qualquer variação no sistema dá origem a uma variação demasiado grande para ser controlada ou prevista. Outro exemplo é uma floresta: uma pequena variação – acender um fosforo e deixa-lo cair – pode provocar uma consequência demasiado grande para ser controlada [e que o modelo não prevê]: a catástrofe de um incêndio que se auto-propaga até consumir a floresta, no limite.

    Por analogia, a leitura deste paper levou-me [na altura] a concluir: faz sentido. Mas isso inibe grande parte da acção reguladora do Estado, pois este nunca sabe quando está perante um ponto critico. Por analogia, por exemplo, usar taxas de juro para “regular o ciclo económico”, é o equivalente da Economia a fazer uma queimada com napalm no Pinhal de Leira: os resultados são imprevisíveis.

    My point? O Louçã académico e o Louçã político não são a mesma pessoa. Eu considero-o “intelectualmente desonesto”. Do ponto de vista académico professa algo, onde tem pesquisa feita. Da, no campo político, é dos economistas que mais distorce a Teoria de modo a obter vantagens “políticas”. Suportar o argumento dele na convenção, sobre o capital [que não faz qualquer sentido do ponto de vista económico], com base no facto “ter obra publicada no meio cientifico” é ignorar este pequeno [grande] facto.

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  4. “O problema com Francisco Louçã não é desconhecer a Teoria Económica mais básica. Muito pelo contrário: ele conhece-a muito bem. É verdade que ele é um dos economistas portugueses mais publicados e citados no estrangeiro, mas o que ele escreve enquanto académico e o que ele professa enquanto político estão a milhas de distância.”

    Nunca duvidei disso. Como escrevi no post, Francisco Louçã “prefere ignorar um dos conceito básicos da teoria económica”

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