Tratar da cirrose de um alcoólico com mais uma garrafa de vinho

Ameaça ou oportunidade? Por Paulo Baldaia.

É até muito estranho que pelo Mundo fora se tente ultrapassar a crise injectando riqueza que não produzimos. Tendo em conta que a gravidade desta crise tem muito a ver com o facto de milhões terem andado a gastar o que não tinham, a sensação que fica é que estão a tratar da cirrose de um alcoólico com mais uma garrafa de vinho e outra de uísque.

Milhões atrás de milhões despejados nas economias não se têm revelado suficientes, porque o que é preciso é pagar tudo o que gastamos sem produzir, o que quer dizer que durante muito tempo vamos ter de trabalhar mais e viver com menos. Ser realista não é dizer que não se sabe mais o que fazer. Ser realista é afastar o medo e assumir a coragem de falar às pessoas com verdade. Chegámos aqui altamente endividados e queremos resolver o problema chutando para as gerações futuras uma dívida incomparavelmente maior. E isso significa que a próxima crise será também de dimensões muito superiores.

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7 thoughts on “Tratar da cirrose de um alcoólico com mais uma garrafa de vinho

  1. “porque o que é preciso é pagar tudo o que gastamos sem produzir, o que quer dizer que durante muito tempo vamos ter de trabalhar mais e viver com menos.”

    Duvido que “tenhamos” (em termos globais) gasto sem produzir, pelo simples facto que tal é objectivamente impossível (para alguém ter gasto sem produzir, alguém tem que ter produzido sem gastar).

  2. para alguém ter gasto sem produzir, alguém tem que ter produzido sem gastar
    Se percebo bem Miguel, e esse é exactamente o problema: gastou-se produção =>poupança que não existiu. O CN explica melhor o problema.

  3. “Se percebo bem Miguel, e esse é exactamente o problema: gastou-se produção =>poupança que não existiu.”

    Como disse, eu duvido que isso seja objectivamente possível (para a economia no seu todo) e um dia destes se calhar hei-de escrever um post sobre o assunto (na série “discussão sobre os ciclos economicos/expansão monetária/etc.”)

  4. Miguel, e eu estou a tentar perceber a ideia mas não consigo. Tendo em conta a criação monetária tanto pelos B centrais como pelos bancos comerciais, os rácios, etc Dá para especificar um pouco melhor?

  5. Isto não é um jogo de soma nula. Quando a produção é maior que o consumo, acumula-se capital. Quando o consumo é maior que a produção, consome-se (ou destroi-se) capital.

    O uso de crédito não suportado em poupanças (excessivo, portanto, o que diminui o custo do capital) tem maior risco de ser mal investido. Logo, maior risco de destruição de capital. Ou seja, quem consome sem produzir hoje acaba por fazê-lo à custa de quem produziu e não consumiu ontem. Sem lhe pedir. É lixado.

  6. “Tendo em conta a criação monetária tanto pelos B centrais como pelos bancos comerciais, os rácios, etc Dá para especificar um pouco melhor?”

    Tal como duas notas, para se reproduzirem, têm que ser previamente trocadas por um casal heterossexual de coelhos (ou coisa parecida), a moeda gerada pelo banco central ou pela reserva fracionárias, para ser utilizada, tem que ser trocada por bens reais (sejam eles bens de consumo ou de investimento). Desta forma, o consumo+investimento não pode ser (mesmo a curto prazo) maior que a produção de bens reais – as notas não se convertem (mesmo temporariamente) em bens gerados a partir do nada*

    Assim, mesmo que a impressora do BCE comece a produzir notas a dizer “10^10 euros”, “10^20 euros” e “10^1000 euros” não nos permitirá consumir (mesmo que apenas durante alguns meses) bens que não tenham sido produzidos.

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