Estímulos arriscados

Na passada semana, a Casa dos Representantes aprovou o plano de estímulo económico do Presidente Obama. Trata-se de uma forte aposta no aumento da despesa pública, como forma de incentivar a economia e levar à criação de emprego. À partida, parece tudo bem, até porque não tem sido de bom tom (pelo menos, por cá) duvidar das boas intenções do Presidente Obama. O homem é o máximo e tudo vai correr pelo melhor.

Mas há problemas e dúvidas.

O primeiro deles é o risco que resulta da obrigatoriedade do poder público, nos seus investimentos, ser obrigado a escolher produtos norte-americanos em detrimento dos importados. No fundo, uma forma escamoteada de proteccionismo económico que nos poderá conduzir, à semelhança do que aconteceu nas décadas de 20 e 30 do século passado, para situações algo complicadas. Nos últimos dias, têm sido recordados os resultados do Smoot-Hawley Tariff Act, legislação aprovada em 1930 e que impôs, nos EUA, tarifas alfandegárias aos produtos provenientes do estrangeiro. As consequências foram terríveis, com o Canadá a ser o primeiro a retaliar, subindo as suas tarifas sobre os produtos norte-americanos, sendo seguido por inúmeros países europeus. É bom lembrar estes exemplos até porque os indícios estão aí: O ex-presidente do México, Ernesto Zedillo, já alertou para o perigo que é o endividamento excessivo dos EUA.

Aquilo a que assistimos com esta prática é à escolha deliberada, por parte do poder público, à custa do dinheiro dos contribuintes, de certos e determinados produtos, independentemente da sua qualidade, independentemente de seus preços e apesar de, tantas vezes, ser a pior escolha. Além de um incentivo

às más práticas empresariais, trata-se de punir (indirectamente) aqueles que vendem mais barato e onerar os cidadãos que, na falta de alternativa, se vêem forçados a comprar produtos de pior qualidade, a preços mais altos. Produtos que, numa situação normal não adquiririam. A prática proteccionista cria condições ainda para que outros países façam o mesmo. O resultado será, como é fácil de imaginar, uma forte quebra das transacções internacionais, com a queda abrupta da actividade económica e uma forte depressão económica.

Outro receio é o desconhecimento quanto à forma como os EUA pagarão este plano de estímulo económico. Caso não recorra ao aumento de impostos, o endividamento exagerado do Estado parece inevitável e, obrigando à emissão de nota, conduzirá à inflação, depreciação abrupta do dólar e ao fim dessa moeda como reserva mundial. Junte-se aos receios, a incerteza, pois, mesmo com todas as ajudas, ninguém consegue dizer que o resultado será positivo. Tanto dinheiro gasto, tantos riscos que se correm e podemos, não só não melhorar, como ficar pior. Com uma pesada factura para pagar no futuro.

Ao contrário do que nos têm querido fazer crer, muitas das soluções keynesianas adoptadas são pouco imaginativas e não divergem por aí além das adaptadas no New Deal. Proceder à injecção maciça de dinheiro em vários sectores, de forma indiscriminada e através de critérios dúbios, não soa apenas a um certo desespero, mas a algo grave que é a necessidade do poder fazer alguma coisa. Quanto mais não seja, complicar.

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14 thoughts on “Estímulos arriscados

  1. “Outro receio é o desconhecimento quanto à forma como os EUA pagarão este plano de estímulo económico. Caso não recorra ao aumento de impostos, o endividamento exagerado do Estado parece inevitável e, obrigando à emissão de nota”

    Porque é que o “endividamento exagerado do Estado” obriga à emissão de moeda?

  2. “Ao contrário do que nos têm querido fazer crer, muitas das soluções keynesianas adoptadas são pouco imaginativas e não divergem por aí além das adaptadas no New Deal.”

    Exacto! Still waiting for “Change”…

  3. “Porque é que o “endividamento exagerado do Estado” obriga à emissão de moeda?”

    MM, “Caso não recorra ao aumento de impostos”… 😉

  4. Luís Lavoura

    O endividamento do Estado não obriga à emissão de moeda. Há muita poupança neste mundo, sobretudo nos países árabes e do Extremo Oriente. Se essa poupança quiser, compra títulos do tesouro norte-americano e não é necessária qualquer emissão de moeda.

    Aliás esse “papão” da emissão de moeda não tem, no mundo atual, qualquer realidade. No mundo atual há muita poupança e, quando os Estados precisam de dinheiro, pedem-no emprestado.

  5. “(…) quando os Estados precisam de dinheiro, pedem-no emprestado.”

    E como o vão, depois, pagar? Maiores impostos ou emissão de moeda?

  6. Eu interpretei “aumento de impostos” como “aumento imediato de impostos” (de qualquer forma, um plano de estimulo económico em que o aumento da despesa fosse contrabalançado por um aumento de impostos seria quase inutil).

    Seja como for, creio que os titulos do tesouro norte-americano estão a ser transacionados a um valor em que o seu juro real está muito próximo do zero, logo o Estado norte-americano pode endividar-se sem grandes problemas.

  7. A dívida pública norte americana pode ser um problema do pacote de estímulos. Mas isso já tinha deixado discutido em http://ovalordasideias.blogspot.com/2009/02/davos-e-obama-eua-china-india-e-as.html. O pagamento da dívida por recurso à emissão monetária não é possível hoje em dia.
    Quanto aos méritos ou deméritos do investimento público. Recordo que a situação é de armadilha de liquidez. E que o consenso entre a grande maioria dos especialistas é que desde 16 de Dezembro, quando a federal funds rate desceu a 0%, não há política monetária eficaz nos EUA: porque acham que o BCE não reduziu hoje a taxa?
    Nota final para o Miguel Madeira: se os títulos não valem nada porque continua a China a detê-los? A geopolítica e a economia não podem ser separadas assim.

  8. Luís Lavoura

    BZ, não é preciso pagar a dívida pública de volta. De dez em dez anos, quando ela vence, os Estados credores (China, etc) voltam a comprá-la. Tem sido sempre assim. Eles voltam a comprá-la porque, pura e simplesmente, nada têm de melhor (mais líquido) em que investir as suas poupanças.

    O que é preciso é, ano após ano, pagar os juros dessa dívida pública.

  9. “Nota final para o Miguel Madeira: se os títulos não valem nada porque continua a China a detê-los? A geopolítica e a economia não podem ser separadas assim.”

    eu não disse que os titulos não valiam nada – muito pelo contrário: se o seu juro está quase em 0%, isso até quer dizer que o seu valor nominal está bastante alto.

  10. Mentat

    “…logo o Estado norte-americano pode endividar-se sem grandes problemas…”

    Miguel Madeira

    Isso deve ser a quadratura do círculo.
    Os EUA endividam-se vendendo títulos à China (ou a terceiros), para gastar em obras em que não podem consumir produtos importados da China (ou de terceiros).
    Vou gostar de ver isso …
    Eu, se fosse chinês, dizia-lhes o que é que eles podiam fazer com os títulos…
    .

  11. Pingback: Estímulos arriscados - II « O Insurgente

  12. Luís Lavoura

    “Eu, se fosse chinês, dizia-lhes o que é que eles podiam fazer com os títulos…”

    Concordo. No entanto, infelizmente, parece que os chineses são totalmente de outra opinião… Continuam gostosamente a investir as suas poupanças em títulos de dívida pública dos EUA. E, desde que a crise rebentou, ainda mais…

    O problema é um problema de excesso de poupança por parte dos Estados (não de particulares! A poupança é sobremaneira efetuada por Estados) do Extremo Oriente e também árabes. Esses Estados querem investir essa poupança excessiva (que talvez fizessem melhor em dar de volta aos seus povos) em qualquer coisa que seja líquida, isto é, que seja segura e tenha muito mercado. Os títulos de dívida pública dos EUA são a coisa mais líquida que há – ao contrário de, por exemplo, os títulos de dívida pública da Hungria, para os quais uma pessoa pode não encontrar compradores quando quiser reaver o seu dinheiro.

  13. “BZ, não é preciso pagar a dívida pública de volta. De dez em dez anos, quando ela vence, os Estados credores (China, etc) voltam a comprá-la.”

    Entretanto pagam-se os juros. Só com a Dívida Pública portuguesa o Estado paga, em juros, mais de 4 biliões de euros…

  14. Pingback: Alvíssaras « O Insurgente

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