Portugal

Tenho pena do meu país. Gosto disto é o melhor sítio que conheço para viver, pelas pessoas, pelo clima, pela comida, pelas ondas e pelo FCP. Mas tenho pena. É o mesmo país em que o que preocupa os watchdogs (jornalistas) é o que diz o Cardeal Patriarca e chega-se ao absurdo de ver mulheres portuguesas a relativizar e a contextualizar a possibilidade ou não de “as mulheres se emanciparem nessas sociedades”. É tudo a mesma coisa: uma mulher portuguesa casar-se com um muçulmano (do Paquistão, Marrocos, Arábia Saudita, etc), com um angolano, um indiano, um alemão e ir para o país dele? Está tudo louco?

Oiço o deputado Telmo Correia a quase pedir desculpa pelas afirmações do cardeal, o deputado Bernardino “Kim Il-Sung” Soares chateado com a afirmação da dificuldade de diálogo com os muçulmanos. Enlouqueceram, de facto.
Nem se lembram que a separação da Igreja (conceito desconhecido no Islão) e do Estado está na génese do cristianismo. Faz parte, sabiam?

Enquanto isto e enquanto se prepara a alteração do limite de ajuste directo nas compras do Estado*, vamos descobrindo, nós os que não temos essa obrigação, as barbaridades que já vão acontecendo: a CM de Loures compra 652.000 euros de vinho branco e tinto, ou a Câmara de Lagoa a pagar 392.000€ para aquisição de fardamento de fiscalização, etc, etc. Bem sei que algumas daquelas coisas soam a gralha, mas que há ali matéria bem mais interessante que esta estupidez de os muçulmanos portugueses terem ficados surpreendidos e, até, magoados, isso há.

5 pensamentos sobre “Portugal

  1. O facto de a CM de Loures ter comprado 652 000 euros de vinho é por si só uma afronta e desrespeito à comunidade muçulmana, que é contra os “copos”. Ainda pior afronta foi o facto de os deputados que referiu, pelo que suas intervenções indicam, terem ido lá beber dessa pinguça, sendo que ao Kim Il Sung até podia nem ter feito nada mal, mas pelo visto ébrio ou sóbrio o coma alcoólico dele é igual.

  2. maverick47

    “É tudo a mesma coisa: uma mulher portuguesa casar-se com um muçulmano (do Paquistão, Marrocos, Arábia Saudita, etc), com um angolano, um indiano, um alemão e ir para o país dele?”

    Também não é a mesma coisa uma mulher casar-se com um paquistanês com um marroquino, ou com um saudita… O que me parece que ela queria dizer é que se tem de distinguir as dificuldades motivadas pelas diferenças culturais, linguísticas, etc, das que ocorrem pelo tratamento sexista.

    “Nem se lembram que a separação da Igreja (conceito desconhecido no Islão) e do Estado está na génese do cristianismo. Faz parte, sabiam?”

    Olhe que não, olhe que não… (de certeza que não no cristianismo católico).

    PS: Os media têm todo o direito de submeter quem quer que seja a um escrutínio público. É para isso que servem.

  3. Arsénico

    #2

    Por acaso, desde Gelásio I ( ou seja, há mais de mil anos) que tal “separação” é admitida, pelo menos no papel. O problema é, porém, diverso- por cá, já se fez o caminho da secularização ( e é engraçado que o mesmo é aplaudido como sinal de modernidade, umas vezes- retirada dos crucifixos das escolas, em Portugal- outras vezes, e quando dá com muçulmanos – interdição do uso do véu, em França- solta-se logo a “matilha” do costume, que por acaso é ateia, se diz progressista, feminista, em prol dos direitos da comunidade homossexual, da irrestrição ao consumo de brocas e por aí fora). Por lá ( países muçulmanos) é-se lapidado por pôr os cornos, em perfeita aplicação de um conceito de proporcionalidade ( eu achei particularmente interessante um comentário de uma “estudiosa” que apareceu na SIC notícias hoje, asseverando que, afinal, há pouco tempo, também um homem fora morto à pedrada, para ilustrar que, afinal, não havia discriminação…); ainda que se não seja muçulmano e se esteja só se passagem, Deus nos livre de comermos ou bebermos durante o Ramadão; cervejinha dá direito ( nalguns, como a Arábia Saudita ou o Irão) , no mínimo, a uns tempos na prisa, ainda que não sejamos muçulmanos; comer com a mão “errada” é sinal de desconfiança ( no mínimo); estender alimentos a alguém com a mão esquerda torna justificável que o mesmo nos corte a garganta; mulher ao volante igual a ida até à prisa; actos homossexuais são punidos com morte ou ( Irão) mudança compulsiva de sexo, há “telescola” para ensinar como se há-de bater na mulher, e por aí fora. Isto só parece normal, e não censurável, a meia dúzia de palermas( que, aliás, são sempre os mesmos; em especial, aquele do “Arrastão” , com cara de “mulah” barbeado, e a quem o Balsemão deu uma tribuna, infelizmente)

    Na mesma Sic notícias, também ouvi a dita “estudiosa” a referir o argumento do casamento com angolano e outros hirsutos e, a final, com um “alemão”. Aquilo de que o cardeal falou foi de casamentos com muçulmanos, não foi com andorrenhos, bielorrussos ou indianos. O Islão é uma religião, não uma nacionalidade. Mas Freud explica: é o subconsciente e suas formatações; no fim dum grupo de “atrasados”, põe-se um alemão para compor o lote. Perfeito. Perfeita hipocrisia.

  4. Pedro S

    “PS: Os media têm todo o direito de submeter quem quer que seja a um escrutínio público. É para isso que servem.”

    Têm esse direito, mas também têm a obrigação de não manipular o texto (ou o contexto) e de não procurarem empolar situações à custa de “soundbytes”. Acredite que às vezes me parece que certos jornalistas só estão à espera de qualque coisa (por mais inócua ou óbvia que seja) para se atirarem ao seu alvo preferido como uma matilha de cães. A “ditadura do politicamente correcto” é uma séria ameaça à liberdade de expressão: tanto são livres os jornalistas como as outras pessoas, mesmo que digam coisas que os jornalistas ou as “elites” determinem que não são “aceitáveis”.

    PS: Em manifestações anti-israelitas na Holanda e no Canadá têm-se ouvido slogans como “Judeus para a câmara de gás” e “Hitler não fez o trabalho bem feito”. Passaram-se vários dias, e não ouvi nenhuma referência a isso na rádio. Mas ontem às 7h 30m da manhã ouvi as palavras de D. José Policarpo (ditas na véspera). Parece-me indignação selectiva….

  5. maverick47

    Caro Pedro, parece-me que o que o Cardeal disse não é política, mas substancialmente incorrecto. E o que eu tenho visto é um movimento de indignação pelo facto de o Cardeal ter deixado de ser intocável, como se os jornalistas não pudessem publicar assuntos que não são “aceitáveis” ou notícias que são desconfortáveis para certas instituições.

    Concordo com o que diz sobre a manipulação, mas não vejo em que se aplica neste caso. Vi tanto as notícias escritas e televisivas, como os extractos do vídeo do Público online, e não encontrei qualquer distorção ou descontextualização. Se encontrou, gostaria que especificasse.

    De qualquer forma, acho que devíamos discutir se ele tem ou não razão, e não se a imprensa devia ou não ter emitido. Afinal de contas, as suas declarações foram públicas e com o conhecimento de que estava a ser gravado.

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