O nariz do pai, os olhos da mãe, a dívida do país

(publicado também aqui)

A notícia de que a agência Standard&Poor vai baixar a cotação da divída pública portuguesa (o que significa que esta ficará cada vez mais cara para o contribuinte português, à medida que os eventuais credores exigem maiores contrapartidas para o risco maior que correm) é mais uma prova de que este (e o endividamento privado) é o grande problema do país para os próximos anos, e precisamente aquele que o Governo mais tem agravado desde que tomou posse. Curiosamente, é também aquele que tem sido motivo dos mais insistentes avisos, quer de comentadores como Medina Carreira, quer de líderes da oposição como Manuela Ferreira Leite. No entanto, fica no ar a ideia de que o cidadão comum pouco ou nada se preocupa com a questão, e que até aplaude as medidas governamentais que, na ânsia de “reanimar” a economia portuguesa, apenas a aproximam do coma alcoólico que a bebedeira de endividamento se arrisca provocar.

No Reino Unido, o Partido Conservador de David Cameron tem feito da gigantesca expansão da divída pública, levada a cabo por Gordon Brown, o tema central da sua oposição ao Governo do Labour. E, num esforço para convencer a opinião pública da importância do tema, lançou ontem uma campanha, inteligentemente concebida para mostrar às pessoas como as suas vidas são directamente afectadas (e prejudicadas) por uma divída pública cada vez maior e mais cara, e como este não é um mero problema de “contabilistas”, como notam Fraser Nelson e Peter Hoskin.

Se Manuela Ferreira Leite quiser realmente “passar a mensagem” do problema português do endividamento, se quiser que os cidadãos percebem como essa questão afecta as suas vidas (e as dos seus filhos), terá de fazer algo como o que David Cameron fez agora. Mais, poderia até melhorar, se tivesse em atenção a crítica que Hoskin faz à campanha: esta não se dirige a um grupo de pessoas que será dos mais afectados pelo problema, a geração de pessoas nos “vinte e tais” anos (como este vosso rapaz), que ainda não têm filhos (e por isso, talvez não se deixem impressionar pelo argumento de que um determinada política afecta as gerações futuras), mas que, com dificuldades em arranjar emprego, obrigados (no caso português) a endividarem-se para toda a vida para comprarem casa, e condenados a pagarem cada vez mais em impostos para alimentarem um “modelo social” de que nunca beneficiarão, poderiam ser dos principais interessados em votar num partido que fizesse algo para resolver o problema, desde que essa alternativa lhes seja oferecida, e os seus méritos devidamente ilustrados.

9 pensamentos sobre “O nariz do pai, os olhos da mãe, a dívida do país

  1. Com esta comunicação social que faz os alinhamentos das notícias a seu bel prazer e não pela relevância das mesmas, é difícil tornar isso “mediático”…
    Só no discurso de Ano Novo de Cavaco ( tb era demais…) é que o assunto da dívida do Estado e da dívida ao exterior foi falado.

  2. lucklucky

    Não sei porque é que há ainda quem pense que Cameron significa alguma coisa. Ele já deu mostras que em primeiro lugar é no mínimo esquizofrénico:

    http://news.bbc.co.uk/2/hi/uk_news/politics/7822854.stm

    …Mr Cameron said he would increase government spending from £620bn this year to £645bn next year – rather than the £650bn proposed by ministers.
    He warned voters not to expect an incoming Tory administration to slash public spending and cut taxes, saying: “That’s not what they should be thinking.
    “They should be thinking this would be a responsible government that would make government live within its means, that would relieve some of the debt burden being piled up on our children.”…

  3. lucklucky

    “Há que reconhecer que o video é positivo.”

    Para quê? sem um minímo de consequência e honestidade só serve para destruir esse argumento. É o mesmo doubletalk de Bush, Sarkozy & Co, já nem é dizerem uma coisa e depois fazem outra, nem dizerem uma coisa num lado e outra completamente diferente noutro, é como a citação acima testemunha contradizerem-se num simples parágrafo.

    A propósito dos EUA e do desastre Californiano. A seguir virá o Texas? (ler comentários).

    http://chicagoboyz.net/archives/6616.html

  4. “Para quê? sem um minímo de consequência e honestidade só serve para destruir esse argumento.”

    Não creio que o video em si destrua o argumento, mas concordo quanto ao doubletalk. E concordo que é bem possível que isso aconteça com Cameron.

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