«Ora foi este ordenamento que viu nascer Israel, no seguimento de uma decisão soberana de quem detinha essa soberania sobre os territórios afectados, nomeadamente o Reino Unido no seguimento do Mandado da Palestina. Sobram assim para mim poucas reticências na aceitação à luz do ordenamento vigente de Israel como um país soberano de pleno direito.»
A aceitação de Israel como um país soberano, na minha opinião, advém do reconhecimento internacional que este estado tem, dos “factos-no-terreno” (um termo muito usado pelos próprios), e de um princípio moral que me parece importante: Two wrongs don’t make a right. A génese do estado, no entanto, padece de uma espécie de “pecado original” que é ainda hoje a razão pela qual o conflito israelo-árabe é de tão fugidia resolução. Houve uma inegável violação de direitos de propriedade, previstos nas leis praticadas no território pela anterior potência administrativa. Basta ver o survey, realizado pela ONU na Palestina durante o processo que culminou na proposta de partição, que mostra que a grande maioria da terra era propriedade de habitantes de origem árabe. Não existia um único distrito na Palestina em que a maioria da terra pertencesse a habitantes de origem judaica (ver imagem acima, onde a verde está a percentagem de terras de árabes e a vermelho a percentagem de terras de judeus; a reduzida expressão das “fatias” transparentes demostra o pouco peso de terras fora da posse destes dois grupos, excepto o sul, essencialmente desabitado).
Acresce a este facto, que a potência administrativa (não uso colonial, porque formalmente os “mandados” ou “mandatos” não eram colónias, mas antes um subterfúgio da França e da Grã-Bretanha para disfarçar a sua colonização do antigo Império Otomano) lavou as suas mãos do processo, revertendo a questão para a recém-formada ONU. Isto claro depois de ter prometido este mundo e o outro a ambos os lados. Desde a declaração Balfour, a comissão Peel, a comissão Woodhead mais uma série de comunicações ad-hoc num sentido ou noutro, mas sempre, na essência, invertebradas e looking for trouble. Na Índia não foi melhor. O resultado, no caso da Palestina, foi uma proposta da ONU que um lado aceitou de imediato e o outro não. Vendo o mapa acima, da posse das terras, mais o gráfico abaixo, com as populações, é fácil de ver porquê. O plano de partição da ONU favorecia inequivocamente o lado judeu.
De igual modo, se observarmos a impressionante evolução da percentagem de população de origem judaica entre 1931 e 1945, é imediatamente notório que, enquanto potência administrativa, a Grã-Bretanha permitiu imigração em massa para a Palestina. Uma decisão que não ajudou ao problema. E que em bom estilo britânico, dava uma no cravo e outra na ferradura: Às vezes permitia (e encorajava) essa imigração, às vezes restringia, conforme a maré. Como comentei aqui, há muita culpa para distribuir por todos os lados que agiram mal. Infelizmente isso não contribui nem um pouco para uma solução.