A escolha de Pedro Santana Lopes

(publicado aqui)

Pedro Santana Lopes foi confirmado como o candidato do PSD à Câmara Municipal de Lisboa. Quando primeiro se falou da hipótese, escrevi aqui que “dar o seu apoio a uma candidatura de Pedro Santana Lopes seria o maior erro que Manuela Ferreira Leite poderia cometer”. Desde então, não mudei de opinião.

Tenho retratado o confito que divide o PSD como um conflito entre um grupo de pessoas que, apesar das suas diferenças, vê o PSD como uma alternativa de governo ao PS, e um outro grupo de pessoas, cujo objectivo é, acima de tudo, defender os seus feudos autárquicos, não tendo qualquer problema em que o PS ganhe as eleições legislativas. Antes pelo contrário: o “partido autárquico” até agradece que seja o PS a ter de tomar medidas impopulares a nível governamental, para que o descontentamento popuilar com as ditas lhe renda mais alguns votos de protesto nas autárquicas.

Pedro Santana Lopes, por muitos defeitos que tenha, pertence ao “partido nacional”. É verdade que foi Presidente de Câmara por duas vezes, mas não é propriamente detentor de um feudo autárquico, e toda a sua acção política sempre visou a liderança do partido ou a Presidência da República, ou seja, objectivos de âmbito nacional. Até sempre falou de Lisboa como uma forma de mostrar que o PSD poderia governar bem o país. Com isto, quero dizer que, “tudo o resto constante” (como dizem os economistas), Santana Lopes até poderia ser, nesta conjuntura, um importante aliado de ferreira leite contra o partido autárquico. O problema está em que “tudo o resto” não é “constante”. O problema está em que Pedro Santana Lopes foi primeiro-ministro de um Governo cujo único resultado que conseguiu obter foi a total descredibilização do PSD.

Ao dar a sua caução a uma candidatura de Santana à capital, Ferreira Leite está a fazer o PSD recuar aos tempos pré-Marques Mendes, está a deitar abaixo o trabalho por este realizado após ter percebido que, para tornar o partido numa alternativa credível a nível nacional, poderia ser necessário sacrificar as perspectivas eleitorais a nível autárquico. Em Lisboa, Mendes deixou cair Santana e depois Carmona por essa razão, e ir resgatar Santana é não perceber o que se passou no partido nos últimos anos. E isto é ainda mais grave por ninguém ter votado em Ferreira Leite para ter Santana Lopes: quem o quisesse teria no votado no homem (e muitos fizeram-no, vá-se lá saber porquê). Ferreira Leite aparecia como a candidata de ruptura com o passado mais recente do PSD, a pessoa que havia estado contra a cedência do poder a Santana aquando da saída de Durão, a pessoa que esteve contra Menezes, e que, ao contrário de Passos Coelho, não se aliou a nenhum destes nas directas deste ano.

Os mais “conspirativos” certamente conseguirão encontrar razões para justificar a escolha, mas nenhuma aguenta a mínima reflexão: muitos poderão argumentar que um partido como o PSD tem de ganhar Lisboa, e um político “ganhador” como Santana é ideal para o conseguir. Esqueçamos o brilhante resultado que este “ganhador” conseguiu em 2005: mesmo que o mito do “Santana imbatível em eleições” seja verdadeiro, e ele ganhe Lisboa para o PSD, o PSD terá o problema de ter Lisboa nas mãos de Santana, mãos essas que trarão consigo as confusões que ele gosta de arranjar. Os “conspirativos” dirão que essa é a ideia de Ferreira Leite. Dar a Santana a oportunidade de se auto-destruir. O problema é que oportunidades dessas não têm faltado ao “guerreiro menino”, e ele acaba sempre por arrastar alguém consigo: se Ferreira Leite der o seu aval à candidatura de Santana, toda e qualquer asneira que vier daquela cabecinha pouco ajuízada irá colar-se à líder laranja como queijo quente ao céu da boca. E acredite, caro leitor, que este queijo em particular costuma queimar.

Há ainda a mensagem que Manuela Ferreira Leite estaria a enviar aos eleitores. Numa conjuntura em que a actividade política está cada vez mais descredibilizada junto dos eleitores, a única forma que Ferreira Leite terá de conquistar a sua confiança será comportar-se de uma forma “diferente” daquela que as pessoas costumam associar aos “políticos”. Depois de se ter oposto a Santana, depois de ter estado contra Menezes, depois de ter sido a mandatária de Fernando Negrão em Lisboa (ou seja, depois de ter dado a sua caução à estratégia de Marques Mendes na capital), depois de falar da necessidade de credibilizar o partido depois das aventuras destas duas personagens, se Ferreira Leite apoiar uma candidatura de Santana, os eleitores só poderão pensar que ela o faz por uma qualquer razão obscura, seja por considerações eleitorais (por esperar que Santana “ganhe”) ou internas (para manter o “inimigo” perto, para o “queimar”, ou para apaziguar a oposição interna). Ou seja, só poderão pensar que Ferreira Leite apoia Santana por “politiquice”. E qualquer político que siga critérios de “politiquice” será penalizado: mesmo que ganhe as legislativas de 2009, e consiga o poder, será alvo da desconfiança dos eleitores, desconfiança essa que a impedirá de levar a cabo a política reformista que só o PSD poderia promover.

14 pensamentos sobre “A escolha de Pedro Santana Lopes

  1. “Ou seja, só poderão pensar que Ferreira Leite apoia Santana por “politiquice”. E qualquer político que siga critérios de “politiquice” será penalizado: mesmo que ganhe as legislativas de 2009, e consiga o poder, será alvo da desconfiança dos eleitores, desconfiança essa que a impedirá de levar a cabo a política reformista que só o PSD poderia promover.”

    Os eleitores pensarão o que quiserem e não os que “inteligentes” lhe dizem para “pensar”.
    E talvez “pensem” que é melhor ter um “Scolari” que ganhe efectivamente do que um qualquer que ganhe “moralmente”.
    Foi assim que Isaltino foi eleito e é assim que as coisas funcionam.
    Talvez MFL finalmente tenha começado mesmo a “pensar”.
    E se MFL ganhar as eleições de 2009, não será a “desconfiança sobre a sua politiquice” que a impedirá de coisa nenhuma.
    Se ganhar, ganhou, ponto final.
    Portugal só não se reformará porque eventualmente é irreformável sem ser em estado de excepção.
    E já agora, que confusões é que Santana arranjou na Câmara de Lisboa ?
    .

  2. Bruno Alves

    Parque Mayer, Túnel do Marquês. Independentemente dos méritos das propostas em si, tudo deu em confusão, faz/não faz, vem o gehry/não vem o gehry, há casino/não há casino. por muito injusto que possa ser para o homem, não há bada que ele faça que não dê em peixeirada, e ´que não acabe por minar a imagem do PSD por arrasto…

  3. PaiNatal

    Tão óbvio como isto: qualquer partido quer ganhar a câmara de Lisboa.

    O resto são as teorias da consipiração do Patacôncio!

  4. Caro Bruno Alves

    A sua resposta é sintomática da maneira como se “pensa” em Portugal.
    Menciona exclusivamente dois assuntos, os quais foram aliás excelentes ideias.
    Uma das quais ele conseguiu concretizar apesar dos “empatas” e já se comprovou ser uma excelente solução.
    A outra teria tido ainda ainda melhor e está bem longe de se provar, pelo contrário, que se não avançou, isso seja da responsabilidade dele (PSL).
    Por isso repito a pergunta:

    “Que confusões é que Santana arranjou na Câmara de Lisboa ?”

    .

  5. PSL tem uma caracteristica que irrita sobremaneira muita gente.
    Tem ideias e capacidade de realização.
    Para quem se esqueceu ou não tem idade para isso, foi graças a ele que o Centro Cultural de Belém acabou a tempo e se o orçamento derrapou, só não chegou à estratosfera graças a ele.
    E isso é uma dúvida que me acompanha há muitos anos.
    Não será que PSL pisou demasiados pés ao longo destes anos, não tendo deixado “pontas” por onde lhe pegarem?
    .

  6. Depois a aura de seriedade e rigor de MFL irrita-me a mim sobremaneira.
    Não foi ela que, quando ministra da educação, escolheu para secretário do ensino superior aquele Jorge Coelho que nunca conseguiu acabar um curso superior e que era o moço de fretes do Carlos Pimenta?
    .

  7. Diogo Agostinho

    Caro Bruno,

    Meu ilustre colega. Não concordo obviamente com a tua análise, porém irei apenas comentar os casos que mencionaste.

    Túnel do Marquês é de longe uma obra que evidencia a visão para uma cidade fechada entre as suas colinas. Hoje, libertar o trânsito do centro foi uma das obras que mais afectou, para bem, os lisboetas. É uma grande obra, e sim deu confusão porque o grande Zé Sá Fernandes precisava de palco e de se mostrar para ser vereador. E o que custou a intervenção dele? Milhares de Euros gastos em máquinas paradas durante perto de 2 anos. Brilhante não foi? Não alterou o projecto em um mílimetro, mas a confusão é de quem o planeou.

    Parque Mayer

    Bem, meu caro, se preferes como está hoje, em que chove lá dentro e tem ratos, estamos conversados. Um casino lá e sobretudo desenhado por Gehry teria sido a salvação daquela zona. Frank Gehry era caro? Não! O investimento era mais que certo que iría atrair turismo, e sobretudo dinamizava, bem como o Casino iria pagar toda a obra. Mas não, hoje temos um Casino na mesma e o Parque Mayer num óptimo estado.

    “PSL tem uma caracteristica que irrita sobremaneira muita gente.
    Tem ideias e capacidade de realização.”

    Não poderia estar mais de acordo.

    Um abraço colega

  8. Mas afinal quem é o mais Popularucho de todos na CML
    Costa, Flopes, o Motoqueiro, Roseta ou o Zé ?
    Quem era um completo desconhecido e se tornou numa superstar da aljazeera ?
    Quem foi aquele que conseguiu com uma providencia cautelar parar uma obrar que afinal não é tão má e provocar um prejuizo enorme aos cofres da CML?
    Quem queria vender marisco do Tejo e por Turbo Ventoinhas no telhados de Lisboa;
    Quem apoia a contrução do novo terminal de contentores de Alcantara, pouco se importanto com os Lisboetas;
    Quem mandou os seu socios co-demagogos à fava e agora virou-se para o PS ?

    Acertaram amigos, é o Zé.

    Ao pé do Zé o FLopes é um santinho.

    P.S. Alguem que pergunte à Helena Roseta onde vai convocar a manif contra o FLopes !

  9. A candidatura de Pedro Santana Lopes à CML encerra definitivamente o paradigma da reabilitação do PSD, que visava, mais do que construir uma verdadeira alternativa governamental, repor a credibilidade e doutrina que havia sido tão maltratada pelos seus anteriores lideres. Manuela Ferreira Leite assume, com esta nomeação, a sua incapacidade de cumprir a sua principal missão no partido.
    Refém do poder instalado, o seu mandato ficará marcado pelo fim dos barões, das elites e o fracasso na procura da tão almejada “reserva moral”. O PSD é hoje, sob a sua liderança, o mesmo partido contra o qual tanto combateu e criticou.

  10. ALberto

    O povo começa a aperceber-se das mentiras que lhe venderam. Em 2004/05 pintaram o diabo sobre PSL.. Hoje, as pessoas começam a perceber a cabala montada contra PSL.

    E os exemplos que dá no seu post, são excelentes exemplos.
    A trapalhada do Túnel do Marquês, Parque Mayer, etc, afinal foram trapalhadas de outros contra PSL. E quem pagou, paga, e irá continuar a pagar durante muitos anos essa factura, são os contribuintes!

    A minha pergunta, é a mesma à vários anos.. Afinal que poderes instalados incomoda tanto PSL ?

    Nota: entre outros assuntos, lembram-se da “Operação Furacão”? Que tanta força demonstrava à uns anos, e que entretanto a PJ foi afastada, e já altas figuras da justiça vem preparando a Opinião Pública para que não espere dali grande coisa? Pois.. se calhar poderia ser um início para encontra-los, não?

  11. Pingback: A escolha de Pedro Santana Lopes «

  12. PSL tem sido alvo de invejas sórdidas e actos de pura demagogia, sou do porto mas interesso-me pela capital:

    Em pouco tempo PSL : Revitalização de zonas verdes (arco do Cego, Monsanto….)
    Túneis
    projectos excelentes em diferentes áreas
    Foi alvo de entraves mesquinhos e incomprensíveis.

    Deixem-se de tretas e vamos apoiar o melhor candidato à gestão da Capital?!Informem-se sem complexos e libertos das tiradas invejosas de muitas personalidaes que deviam era estar caladinhas!!

  13. João Carrazedo

    Como reacção à atitude prometida e mesquinha de Pacheco Pereira – saída de Lisboa para não votar em PSL – há umas centenas de votantes no Porto que estão dispostos a fazer o caminho inverso – votar e apoiar PSL em Lisboa.
    Não o farão por desrespeito ou falta de lealdade ou consideração por Rui Rio; mas sim por se sentirem vocacionados pra os combates mais difíceis, ou para lutar por sonhos sérios embora quase impossíveis! Essa capacidade de lutar, de sonhar, de querer e de perseverança, esgrimindo a arma doos valores e dos projectos é que nos atrai no programa de PSL para Lisboa.
    Bom Natal a todos.

    João Carrazedo

  14. Realmente, parece-me que tudo gira à volta da desresponsabilização total!A crise é da responsabilidade dos trabalahdores, dos iletrados, dos pobre, dos fracos , em suma dos que não têm voz nos debates, nos jornais…..Os Senhores advogados da alta élite que sempre influenciaram as decisões do poder, fazendo questão, alguns, de estar sempre com o poder, mesmo quando é necessário renegar conceitos, ideologias, companheiros, partidos ( antigo bastonário…)è pewcsai ter lata!! A culpa não será de quem estado no poder? Nos últimos quinze anos quem esteve no poder! Quem pecou por omissão ou por erros gravse nas decisões? cvaco Silva, Guteresse, Durão, Santa , Sócrtaes e todas as élites que os acompanharam.
    Santana só alguns parcos meses em circunstânicas dificílimas.Mesmo assim querem – algumas elites- que assuma a responsabilidade de todos os males. Só falta culpá-lo de ter retirado a tampa da caixa de pandora…..Por acaso dizem os cla´sssicos gregos que foi uma mulher………os males espalharam-se pelo mundo..ficou a esperança….tenhamos esperabnça que o povo repita o grito de Ipiranga que faça pagr com estev no poder e as elites que os condicionaram nas decisões para pagarem as favas…quase todos os que se servel dos media para terecr considerações sobre a crise! Tenhamos um pingo de vergonha!!!!
    Vamos apostar nos que possuem a areté( qualidade superior descrtaita pelos clássicos gregos) …que pode traduzir-se em disponibilade para o serviço público, mesmo qundo o resultado possa ser a derrota!!!!Em detrimento dos taticistas que só arrisacm quando vislumbram vitória, lucro, poder….

    Saudaçõescom muita esperança e determinação

    João Carrazedo

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