Ainda sobre Sá Carneiro

A geração que tomou o poder após 1976 é responsável pelo actual atraso do país. Estamos hoje pior, em termos relativos, do que em 1976. Essa geração aproveitou o poder herdado da revolução – e aqui há que considerar uma versão lata de poder que inclua todos os organismos directa ou indirectamente mantidos pelo estado – para benefício próprio. Os três partidos de governo, PS, PSD e CDS, dominam a função pública de topo, trocando lugares entre si. Dominam também o sector empresarial: hoje não há grande empresa que não se extinguisse caso perdesse o grande cliente estado ou as vias verdes burocráticas por ele garantidas. São eles também que alimentam escritores de advogados e consultoras de amigos com pareceres de utilidade duvidosa pagos a preços exorbitantes. O PCP tem nos sindicatos, também eles protegidos e subsidiados pelo estado, a sua fonte de poder e de empregos fáceis.
Desta geração que empobreceu e ainda aprisiona o país há quatro símbolos ligados aos 4 maiores partidos: Mário Soares, Sá Carneiro, Freitas do Amaral e Álvaro Cunhal. Destes, Mário Soares e Freitas do Amaral já foram deixados para trás. De forma mais (PS) ou menos (CDS) inteligente, os dois partidos já fizeram vêr que têm hoje novos símbolos, novas referências políticas. Há dois partidos que hoje insistem em evocar a memória dessa geração: um partido naturalmente avesso à mudança, o PCP, e o PSD. É evidente que o facto de não ter sobrevivido ao teste do tempo favorece a manutenção da memória de Sá Carneiro. Até morrer, Sá Carneiro esteve sempre do lado certo da história, e a sua coragem e determinação terão sido sem dúvida muito úteis no seu desenrolar. Mas haverá motivos para acreditar que teria sido diferente com ele, ou seja, que Sá Carneiro teria sido diferente de todos os seus sucessores no PSD e dos outros políticos que emergiram na mesma época? Só por ingenuidade poderemos julgar que sim. Por muito que magoe a memória histórica, com uma certa dose sebastianismo, daqueles que viveram os tempos pós-revolução e estavam do lado da liberdade, não há muitos motivos para pensar que Sá Carneiro tivesse sido diferente.
O futuro do PSD terá sempre de passar pelo rompimento com essa memória, a memória de um partido assumidamente socialista. Não esquecendo obviamente o papel que Sá Carneiro teve no seu contexto histórico (tal não foi posto em causa em nenhum dos posts anteriores), mas lembrando que os tempos são outros e que as referências políticas têm obviamente que mudar.

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8 pensamentos sobre “Ainda sobre Sá Carneiro

  1. É isso!

    É por isso que o problema hoje de Portugal não se resolve nos ou pelos partidos, mesmo partindo do princípio que quereriam se regenerar (e essa é uma luta votada ao fracasso?!), resolve-se pela assumpção de novas gerações!

    Mas terá haverá dados que nos digam que não serão iguais ou piores que os seus pais?

  2. “Por muito que magoe a memória histórica, com uma certa dose sebastianismo, daqueles que viveram os tempos pós-revolução e estavam do lado da liberdade, não há muitos motivos para pensar que Sá Carneiro tivesse sido diferente.”

    Caro CGP

    O actual regime não começou em 1976, começou em 1982 com a extinção do Conselho da Revolução, assim como o Estado Novo não começou em 1926, mas em 1933.
    Se quer separar os regimes dos respectivos PRECs então sejamos rigorosos.
    Em 1982 já Sá Carneiro tinha morrido dois anos antes.
    Depois o Carlos é o paradigma duma característica tão portuguesa como o Sebastianismo, o Anti-Sebastianismo e igualmente inútil.
    “Se o D. Afonso Henriques não se tivesse revoltado contra a Mãe, hoje estávamos melhor.”
    “Se não fosse o D. João IV hoje pertencíamos a Espanha e estávamos muito melhor”.
    Etc., Etc.
    Um exercício perfeitamente inútil e no caso presente muito pouco exacto.
    E ao contrário do que diz, há mais motivos para pensar que Sá Carneiro seria diferente do que igual aos restantes que menciona.
    Como é que eu provo isso?
    Não preciso, o que ele fez sabe-se e está documentado. O que ele faria não se sabe.
    A menos que o julguemos posteriormente a partir das previsões dum qualquer relatório minoritário.
    Mas insisto isto é um exercício perfeitamente inútil.
    Não é a memória de Sá Carneiro que impede nada no PSD, porque também no PSD, ninguém se arvora em herdeiro dele.
    Aliás, poucos lá estão que pudessem ter esse direito.
    .

  3. Estou com o Mentat, subscrevo.

    Além que dizer que “Estamos hoje pior, em termos relativos, do que em 1976” é extremamente redutor de quem o diz… Um texto de enorme dimensão enunciando a quantidade de pontos em que Portugal evoluiu desde então facilmente refutaria essa tese.

    Cumprimentos

  4. Carlos Guimarães Pinto

    Caro Luís,
    Proponho-lhe que faça então esse texto, tendo como ponto de comparação (daí o relativo) os três países que estavam no mesmo estágio de desenvolvimento que Portugal em 1976: a Espanha, a Irlanda e a Grécia. Para lhe facilitar até pode comparar com uns que estavam abaixo: a Eslovénia, a Checoslováquia, a Polónia…

  5. O Carlos, a meu ver, comete um erro ao querer começar por 1976, uma vez que Portugal só é uma democracia plena a partir de 1982 (extinção do Conselho da Revolução). Logo aí podemos imputar um atraso de 6 anos.
    Mas mais, convém igualmente apontar outro facto: a alteração da constituição de modo a permitir privatizações de empresas nacionalizadas no PREC só foi conseguida no governo de Cavaco Silva (com a revisão de 89 ou de 92, não tenho a certeza qual delas).

    Estes factos são, a meu ver, alguns dos factores que ajudaram ao atraso português. Em países que não sofreram um processo revolucionário de equerda, é óbvio que as coisas correram mais depressa. Pelo menos é a minha maneira de ver as coisas.
    Agora, é óbvio que não é só isto que influenciou o atraso de Portugal.

    O que está em discussão é que não vejo o que é que pode ser imputado a Sá Carneiro pelo atraso português. Principalmente quando foi o governo AD que chefiou que veio “pavimentar” o caminho da democracia plena, num período profundamente revolucionário e pouco democrático.

    Sem falar em termos relativos, é indiscutível que Portugal está melhor em 2008 do que estava em 1976.

    Portanto, para concluir, não sou adepto de enfiar no mesmo “saco” nomes como Sá Carneiro, Freitas do Amaral, Mário Soares e Álvaro Cunhal…
    A Cunhal é preciso reconhecer a importância e a coragem no combate ao Estado Novo.
    A Soares é preciso reconhecer a importante determinação que demonstrou no combate ao Comunismo, apesar de ter tido uma governação francamente fraca.
    A Sá Carneiro e Freitas do Amaral é preciso reconhecer o dificil papel que desempenharam na transformação dum Portugal com uma constituição ao estilo soviético (e que o conselho da revolução recusava permitir alterar) num Portugal de uma Democracia plena, pluralista, ao estilo ocidental.

    Cumprimentos

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