Um artigo de Fernando Gabriel sobre a BD patrocinada pela DGCI que, ao longo de duas semanas, aqui foi publicada em vários posts com o título “Steuerzhalen Macht Frei”
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Agradeço o convite do Miguel Noronha para regressar à página do Insurgente, com algumas considerações sobre a peculiar ideia de ‘educação fiscal’ das crianças.
Quando o Insurgente começou a divulgar a banda desenhada editada pela DGCI para ‘educar fiscalmente’ as crianças portuguesas, pensei tratar-se de uma brincadeira. Não era. Naturalmente admiti que a decisão de distribuir um livro deste teor em escolas –presumo que dos níveis elementares– teria causado alguma indignação, entre políticos, jornalistas ou intelectuais. Afinal, o choque e espanto foram meus, porque ao procurar comentários sobre o assunto, só encontrei silêncio.
Se a ideia de doutrinar as crianças em matéria de obrigações fiscais é má, a forma como foi concretizada consegue ser ainda pior. A narrativa configura uma visão ideológica particular do que devem ser as funções e competências do Estado. Sob o pretexto de combater a evasão fiscal, que, pelos vistos, é um fenómeno de dimensões insuspeitadas e preocupantes entre as criancinhas, o livro passa uma ideia central: a ideia de que uma sociedade bem ordenada (‘harmoniosa’, na linguagem utilizada pelos autores) é uma sociedade organizada de acordo com essa –e apenas essa– visão ideológica particular. Isto é frontalmente contrário ao princípio básico das democracias plurais, da possibilidade de confronto e escolha entre propostas políticas que se distinguem nas finalidades desejáveis, e não apenas nos meios. Importa esclarecer que esta visão da política não é exclusiva de um determinado partido: um dos maiores obstáculos a um reformismo sério em Portugal é justamente a partilha alargada desta visão anti-pluralista, que degenera num culto da autoridade e num exercício tecnocrático do poder.
Resumindo, a pretexto da (literal) ilustração de um princípio cívico —e não sei se para alguns não será mesmo o único princípio cívico, com a cidadania reduzida ao pagamento de impostos— produz-se uma obra de propaganda ideológica, que tende a reforçar a conformidade e cuja distribuição nas escolas tenta impedir de forma objectiva e precoce o desenvolvimento do juízo crítico individual. Como se tudo isto não fosse mais do que suficiente, a linguagem e dispositivo ficcional utilizados na história são, no mínimo, infelizes, como argumento a seguir, num texto publicado hoje como artigo de opinião no Diário Económico.
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Muitas histórias começam com o proverbial era uma vez; algumas são boas, outras nem por isso. A que se segue é especialmente sinistra: ‘era uma vez o Planeta do Respeito por Todos. Os habitantes que tinham essa obrigação pagavam os seus impostos. Assim viviam em harmonia. Infelizmente, os temíveis Inkumpridores, da Galáxia Fraude, queriam conquistar o planeta, transformando-o num mundo criminoso e sem solidariedade’.
Esta dejecção anti-literária, cheia de pormenores ridículos como o ‘k’ em Incumpridores e apartes exclamatórios a indicar ressentimento, é uma banda desenhada com um grafismo medíocre, editada pela Direcção-Geral dos Impostos e distribuída nas escolas, a título de ‘educação fiscal’. Não tomei conhecimento do livro através da imprensa, insusceptível de perturbar a harmonia existente entre a ‘Gente de Bem’ e os seus iluminados governantes. Foi o blogue O Insurgente que divulgou o livro na íntegra: não admira que o rei e os príncipes fiscais deste país se sintam incomodados com a liberdade dos blogues. Embora de forma não intencional, o livrinho é efectivamente instrutivo, ao revelar o maniqueísmo fiscal e persecutório a que está reduzida a governação portuguesa e ao mostrar até que ponto os governantes estão dispostos a levar a sua propaganda, à qual nem as crianças escapam.
Se a incapacidade de distinguir lei e moral é grave, aqui vai-se mais longe: a obediência fiscal é tomada como a única conduta eticamente admissível, com os Contribuintes e os Inkumpridores a personificarem o Bem e o seu oposto dual. Mas os aspectos mais perturbantes são o dispositivo ficcional e a linguagem empregue. O mal é invisível à ‘vista desarmada’ e espalha-se por contaminação; a sociedade necessita de ser purificada, expurgada do mal eliminando os seus portadores através de uma ‘guerra terrível’. Estas ideias têm antecedentes intelectuais como a tese racial de Arthur de Gobineau, um suporte pseudo-científico que pretendia justificar a necessidade de uma purga violenta que terminasse com a miscigenação, supostamente responsável pela decadência da civilização. Como argumentou Daniel J. Goldhagen no excelente Hitler’s Willing Executioners (Abacus, 1996) o mecanismo de identificação do mal com um subgrupo social –no caso os judeus, também eles indistinguíveis dos demais à vista desarmada– animou uma sociedade culturalmente sofisticada a embarcar no horror do extermínio em massa.
Talvez os autores da BD fiscal se revejam noutra referência: os filmes de série B que proliferaram nos anos 50, ficção científica de baixo orçamento, revisitada mais tarde por autores como John Carpenter, em They Live. As histórias mais frequentes eram variações do mesmo tema: extraterrestres infiltravam-se na comunidade humana, tentando passar despercebidos enquanto destruíam a civilização a partir do seu interior. Mas essas histórias eram metáforas da obsessão política da época: o receio americano de uma ‘infiltração comunista’ que corrompesse o American way of life. Quer se trate de judeus ou de comunistas, os Inkumpridores têm a paranóia persecutória como origem histórica.
Por coincidência, soube deste panfleto de propaganda quando lia as Cinq mémoires sur l’instruction publique, de Condorcet. Escrevendo em pleno terror Jacobino, Condorcet teoriza a natureza desejável do moderno ensino republicano e estabelece uma distinção crucial entre instrução pública e educação nacional. Enquanto que a instrução dota os indivíduos das ferramentas necessárias ao exercício da razão crítica, a educação tende a uniformizar, a inculcar valores políticos e predispõe os homens a aceitar a legislação feita. O livro de BD em questão, embora seja especialmente repugnante, é apenas mais um exemplo do potencial destruidor dos projectos de educação nacional. A cada dia que passa aumenta a urgência, mas também a dificuldade, em terminar com essa gigantesca fábrica de conformismo que é o ensino estatal, restringindo-o à sua verdadeira finalidade: a instrução pública.