O PSD apresentou hoje o site do Instituto Sá Carneiro. Se for bem usado, ele poderá representar uma excelente oportunidade para o partido laranja divulgar as suas ideias. Hoje em dia, os políticos vivem num ambiente mediático que vive exclusivamente do soundbyte, sendo muito pouco convidativo à argumentação séria e à análise ponderada de propostas. Mais grave ainda, os políticos têm de viver nesse ambiente mediático, pois fora dele não existem. O problema está em que as reformas de que o país necessita, por implicarem uma alteração profunda do estado de coisas, precisam de ser muito bem explicadas a um eleitorado que estará pouco receptivo a perder o pouco que já tem. Assim, o que o político tem de fazer para ter sucesso eleitoral (dominar a agenda mediática) é o que faz com que tenha pouco sucesso como reformador (pois, ao limitar-se ao soundbyte, não consegue convencer o eleitorado da real necessidade dos sacrifícios, e enfrenta a mais forte oposição mesmo nas mais fracas “reformas”).
A única forma de um político ou de um partido escaparem a este ciclo vicioso de degradação do debate democrático é “passar por cima” do ambiente mediático que os aprisiona. E a melhor forma de o fazer hoje em dia, será através dos blogs: A população de leitores de blogs pode ser limitada, mas o que hoje é dito nos blogs chega rapidamente aos jornais, rádios e televisões. Com este site, o Instituto Sá Carneiro (e por associação, o PSD) terá a oportunidade de o fazer: se não se limitar a estar aberto a umas simples “sugestões” que os visitantes deixem nas caixas de comentários, mas se efectivamente se dirigir aos blogues, pedindo-lhes comentários (favoráveis ou críticos), e se efectivamente entrar em diálogo com eles (procurando responder a esses comentários, enviando-lhes as propostas que vier a apresentar, ou os vídeos das pessoas que nele colaborem), poderá encontrar uma série de gente que estará bem mais disposta a discutir as suas propostas com base no que elas de facto contêm, pessoas que estarão realmente interessadas em discutir se determinada proposta terá bons ou maus resultados, e não apenas se o político A ou B “passa melhor” em televisão, ou se “está silencioso” ou comete “gaffes”. Dará trabalho e implicará uma enorme resistência à crítica, mas se o PSD e o Instituto querem que este sirva como uma plataforma de discussão política eficaz, será a única maneira de o conseguirem.
Uma coisa não impede a outra. Existe normalmente reflexão, e bem profunda, pensamento, construção de ideias, estratégias, rumos e, concomitantemente, exposição mediática. Basta pensar nas eleições norte-americanas. Ou vai dizer-me que a equipa de Obama não pensou?
Implica, a meu ver, uma nova forma de estar na política, de a viver. Implica o cidadão comum, a sua participação e responsabilização. No PSD, o maior obstáculo actual é a necessidade de afirmação pessoal de alguns e pouco sentido do bem comum. Concordo que muito do debate mais profundo já habita nos blogues. Como fonte de ideias e possíveis caminhos, acho que podem ser úteis. Mas a participação do cidadão comum tem de ser mais activa. Necessariamente. O lider que entender isto e apelar à participação e responsabilização do cidadão, terá a oportunidade de fazer as reformas necessárias. (A propósito, detesto já esta palavra, “reformas”, assim como outra, “as boas práticas”). Cumprimentos. Ana