O objectivo da gestão

Diz o Carlos Duarte, em comentários a este post do Miguel, o seguinte:

Gestão NÃO implica SÓ a maximização dos lucros (e muito menos a prazos rídiculos de 3 meses!)… é SEMPRE um equílibrio entre a maximização dos lucros e a sustentabilidade do negócio.

Um gestor deve SEMPRE preocupar-se com a sustentabilidade, MESMO que tenha as costas quentes. A partir do momento em que as pessoas se preocuparam com o lucro e não com a empresa (em boa verdade, muito culpa de accionistas também) a coisa descambou. O problema que se vive não é financeiro, nem económico, é acima de tudo moral. Exacerbou-se para além de toda a razoabilidade a ganância com virtude e deu neste lindo resultado. Como a “honra” não vale nada – nem sei se o conceito existe – o que contam são as notas… ora gaita para isto tudo!

Não consigo concordar com a principal ideia defendida. A sustentabilidade do negócio NUNCA deverá ser um objectivo em si. Ela deverá ser perseguida, na medida em que contribua para aumentar o valor da empresa. Mais nada.

O Carlos Duarte tem razão (na minha modesta opinião) apenas quando se insurge contra a procura obsessiva do lucro de curto prazo. Aí concordo consigo a 100%. O que interessa é o valor actual dos lucros futuros, todos os lucros futuros e não apenas os dos próximos meses.

Mas mantenho, o objectivo único de um gestor deverá ser o aumento do valor da empresa que gere e, em consequência, da riqueza do accionista. Se a empresa tem mais valor “vivendo” apenas mais 1 ano do que “sobrevivendo” durante 5 anos, ela deverá viver apenas o tal ano.

Por muito que custe a muito boa gente, o objectivo último de uma empresa é dar lucro aos seus accionistas. Não é servir de centro de emprego nem tão pouco é ter preocupações sociais. Deixem isso para os accionistas. A sério. Ele até há países onde os muito ricos dão grande parte das suas extensas fortunas a fundações para que, estas sim, possam utilizar o dinheiro com fins sociais. Não compete a um bom gestor gastar dinheiro da empresa que dirige para fins sociais. Que utilize do seu próprio dinheiro se tem essa vontade.

A quem acha o contrário deixo uma singela sugestão: vão criar empresas vossas… é que nessas podem, à vossa vontade, estar preocupados com a empresa em si, com a honra, com a responsabilidade social, etc. Tudo menos o lucro. Veremos quanto tempo durarão tais empresas…

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6 pensamentos sobre “O objectivo da gestão

  1. Esta questão da sustentabilidade é de certa forma a diferença entre a corrente defendida por Tom Peters, que advoga que o mais importante é a rentabilidade e ponto, e a defendida por Jim Collins que escreveu o livro “Built to Last”.
    .
    A verdade é que as empresas mais duradouras geram normalmente rentabilidades mais baixas.
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    IMHO o grande problema é que com a entrada de uma empresa na bolsa há uma lógica medonha que Christensen tão bem retrata no livro “The Innovator’s Solution:
    .
    “When a company’s revenues are denominated in millions of dollars, the amount of new business that managers need in order to close the growth gap – new revenues and profits from unknown and yet-to-be-discounted sources – also is denominated in the millions of dollars.
    .
    But as a company’s revenues grows into the billions, the size threshold of new business that is required to sustain its growth rate, let alone exceed investor’s expectations, gets bigger and bigger and bigger. At some point the company will report slower growth than investors had discounted, and its stock price will take a hit as investors realize that they had overestimated the company’s growth prospects.
    .
    To get the stock price moving again, senior management announces a targeted growth rate that is significantly higher than the realistic underlying growth rate of the core businesses. This creates a growth gap even larger than the company has ever faced before – a gap that must be filled by new-growth products and businesses that the company has yet to conceive. Announcing an unrealistic growth rate is the only viable course of action. Executives who refuse to play this game will be replaced by managers who are willing to try. And companies that do not attempt to grow will see their market capitalization decline until they get acquired by companies that are eager to play.”

    “When confronted with a large growth gap, the corporation’s values, or the criteria that are used to approve projects in the resource allocation process, will change. Anything that cannot promise to close the growth gap by becoming very big very fast cannot get through the resource allocation gate in the strategy process. This is where the process of creating new-growth businesses comes off the rails. When the corporation’s investment capital becomes impatient for growth, good money becomes bad money because it triggers a subsequent cascade of inevitable incorrect decisions.”

  2. Quanto ao tema “o objectivo último de uma empresa é dar lucro aos seus accionistas” pessoalmente nem preciso de entrar por aí, basta-me pensar em criação de valor e boa aplicação dos recursos da sociedade.
    .
    Uma empresa que não gera lucro está a desperdiçar riqueza da sociedade, e por isso, essa riqueza devia ser rapidamente canalizada para outro investimento.
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    O problema das bolsas é que desviam acabam por desviar as empresas do objectivo lucro e concentrá-las no objectivo volume, e:
    “Volume is vanity, profit is sanity”
    .
    ccz

  3. Carlos Duarte

    Caro LT,

    Se ler o meu comentário, eu nunca disse que as empresas deviam ser geridas apenas para se manterem “vivas” (mesmo em estado vegetativo). Disse antes que a gestão de uma empresa é um equilíbrio entre a sustentabilidade e o lucro, ou seja, um desequílibrio para qualquer um dos lados acaba por ser negativo. O desequílibrio para o lado da sustentabilidade torna as empresas “lentas” e acomodadas e muito vulneráveis ao aparecimento de concorrentes mais dinâmicos. Por outro lado, o desequílibrio para o lado do lucro leva – normalmente a curto prazo – à insustentabilidade da empresa, devido a delapidação da mesma (seja em termos de património, no caso das empresas extractivas, seja em termos de mercado, para as outras).

    Acho piada quando fala de accionistas, porque uma estrutura atomizada de accionistas não-especialistas – que é tradicional nos dias que correm – não me parece que seja a organização ideal. Como estes não “percebem” do negócio e em muitos casos nem querem perceber, têm tendência para forçar as empresas a serem geridas tendo em vista o maior lucro no menor espaço de tempo, o que tende a aumentar o valor “aparente” das mesmas – e atente-se ao aparente -, que resulta na entrada de mais accionistas ou fortalecimentos dos existentes, que por usa vez exigem outra vez mais lucros. A espiral que daí resulta acaba por destruir a empresa no médio prazo, como aliás esta crise bem demonstra com o sector financeiro.

    As estruturas “originais” das empresas, em que os donos (muitas das vezes gerentes, mas nem sempre) se confundiam com a empresa levava a que estas fossem mais sólidas e crescecem de uma forma orgânica e (para usar o chavão) sustentável. E mesmo quando estas fechavam, fechavam de forma digna, não deixando dívidas nem misérias para trás.

    O problema da sua afirmação e cito: “Se a empresa tem mais valor “vivendo” apenas mais 1 ano do que “sobrevivendo” durante 5 anos, ela deverá viver apenas o tal ano.”, depende muito do que acontece depois daquele “ano” ou daqueles 5 anos. Se ao fim de um ano a empresa “estoura”, então é mau. Se ao fim de um ano, a empresa fecha – de forma natural – então concordo. O problema é que essas empresas “dinâmicas” tendem a estourar. As empresas que fecham costumam ser velhas e sólidas.

  4. Carlos Duarte

    Caro LT,

    Uma adenda:

    Não tinha reparado na sua última frase:

    “A quem acha o contrário deixo uma singela sugestão: vão criar empresas vossas… é que nessas podem, à vossa vontade, estar preocupados com a empresa em si, com a honra, com a responsabilidade social, etc. Tudo menos o lucro. Veremos quanto tempo durarão tais empresas…”

    Não é tudo MENOS o lucro… é noutras coisas PARA ALÉM do lucro. E acredite – e isto é por experiência – uma empresa que só se preocupa com o lucro arde forte mas apaga-se depressa. As outras cá continuam e, quando acabarem, terão brilhado consideravelmente mais. Das primeiras ninguem se lembrará, as outras ainda por cá andam.

  5. Carlos Duarte,

    às vezes parece-me que estas coisas são mais semântica que outra coisa. Nenhuma empresa sobrevive se se preocupar com outras coisas para lá do lucro. Do que você (aparente/) fala é dos meios. Por exempo: é óbvio que preocupar-me com as condições em que trabalham as pessoas na minha empresa faz parte dos meios para obter lucro/ criar valor. Se me estiver nas tintas para as pessoas, é óbvio que não terei lucros nenhuns. Empresas com preocupações muito “sociais” mas com prejuízos adiantam a quem? O lucro, a criação de valor para o accionista/proprietário é só o que justifica a existência das empresas. Sem lucro são sorvedouros de recursos.

  6. Carlos Duarte

    Caro Helder,

    Mais uma vez, é uma questão de equílibrio e de prazos. Quando eu falo em equilíbrio entre lucro e sustatentabilidade, estou a falar de prazos (operacionais) relativamente curtos: trimestres, semestres ou anos.

    O grande problema – e a minha (passo o termo) insurgência contra – está na tendência de maximizar o lucro (ou valor) de curto prazo, que se reflete no aumento sempre sucessivo de lucros todos os trimestes e a valorização bolsista galopante, sacrificando o médio (já nem digo o longo!!!) prazo. O que, obviamente, resulta no colapso dessas mesmas empresas por sobre-exploração.

    É absolutamente aflitivo (e eu que o diga!) falar com empresas / empresários, que se recusam a fazer investimentos de médio prazo, metendo “remendos” de curto e que depois, passado 2-3 anos, quando NÃO têm dinheiro (porque o mercado complicou) e TÊM de fazer os investimentos anteriores (exigências do mercado / regulamentares) ficam com a corda na garganta!!! Mas antes, fizeram muito dinheiro e compraram Mercedes e Quintas e férias nos Alpes Franceses…

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