Se queremos seguir o “exemplo” sueco, temos de segui-lo até ao fim

Na The Economist, a coluna Bagehot nota como o famoso “plano Brown” de resposta à crise financeira mais não é que uma “cópia” do que a Suécia fez em 1992, quando o país foi afectado por uma crise no seu sistema financeiro. Este pormenor havia já sido notado por Johan Norberg, e tem sido abundamentemente mencionado. Menos atenção tem sido prestada, no entanto, ao que aconteceu na Suécia depois da crise e do plano, quando isse é talvez o que de mais relevante ocorreu, e cuja lição mais deveríamos seguir.

Como explica o New York Times, “Sweden did not just bail out its financial institutions by having the government take over the bad debts. It extracted pounds of flesh from bank shareholders before writing checks. Banks had to write down losses and issue warrants to the government(…) Sweden spent 4 percent of its gross domestic product, or 65 billion kronor, the equivalent of $11.7 billion at the time, or $18.3 billion in today’s dollars, to rescue ailing banks. That is slightly less, proportionate to the national economy, than the $700 billion, or roughly 5 percent of gross domestic product, that the Bush administration estimates its own move will cost in the United States.”

Como em tempos escreveu o Luciano Amaral, esses anos foram palco da “mais brusca quebra do rendimento per capita na Europa desde os anos 30, se exceptuarmos os antigos países socialistas”, “obrigando” a Suécia a “deixar de ser” a “social-democracia não-reformada” dos sonhos dos socialistas portugueses. Segundo Mauricio Rojas, “public spending skyrocketed and hit a record high of 72.8 % of GDP in 1993, while the tax burden, which was shouldered by the active population, could not be increased any further due to the already extreme levels it had reached before the crisis. The public deficit consequently exploded and was at 12.3% of GDP in 1993, triggering a growing need for public debt as well as a loss of confidence in the Swedish economy, evident in vigorous speculation against the Swedish krona. The fixed exchange rate policy was abandoned in 1992, days after the National Bank of Sweden desperately increased the interest rates to 500 %”. Privatizaçõessistemáticas, quebras substanciais da despesa pública e dos impostos, e equilíbrio orçamental, tornaram-se inevitáveis.

Mais, a Suécia pôs em prática uma profunda reforma do seu “modelo social”. Os seus esquemas de protecção social, por exemplo, geralmente tidos como generosos, funcionam precisamente por serem tudo menos isso: os valores oferecidos podem ser altos, mas as condições para a sua obtenção não são propriamente brandas. Por exemplo, exigem que os que dele beneficiem encontrem emprego “rapidamente”, e que estejam dispostos a empregarem-se numa actividade diferente da que ocupavam anteriormente, mesmo que venham a ganhar menos. Isto reduz o tempo em que eles podem ficar desempregados, e portanto, o volume de despesa pública nessa protecção.

Serviços sociais como a Saúde, por exemplo, foram sendo progressivamente privatizados, desde que a “transição de Estocolmo” foi iniciada pelas autoridades locais: o modelo de financiamento dos hospitais foi, numa primeira fase, alterado (tornando-o dependente da productividade de cada hospital), e mais tarde, alguns deles foram mesmo vendidos a empresas privadas. Os resultados foram imediatos: a produtividade aumentou, e as listas de espera baixaram. Ao mesmo tempo, os ordenados dos funcionários dos hospitais privatizados aumentaram, enquanto a despesa pública desceu.

O sistema de pensões, por sua vez, passou a prever que cada indivíduo fosse detentor de um fundo de pensão (em vez do velho sistema de “pay as you go”), cujo fornecedor poderá escolher livremente. Serviços como os transportes, telecomunicações ou energia foram também privatizados, introduzido competição que trouxe melhores serviços para as pessoas ao mesmo tempo que os cofres do Estado foram aliviados.

Na educação, a política da “escola livre” foi extraordinariamente bem sucedida. O Governo comprometeu-se a financiar qualquer nova escola que um grupo de pais ou professores quisesse estabelecer, e esta ficaria livre da direcção das autoridades locais. E estas novas escolas acabaram mesmo por aparecer, ameaçando retirar alunos às escolas estatais que, perante nova competição de qualidade, tiveram de melhorar para sobreviver. O mesmo princípio foi aplicado aos cuidados prestados aos idosos ou às crianças, com a introdução de escolha no sistema, através de um “voucher” de dinheiro público, dando escolha às pessoas e obrigando os prestadores desses cuidados a competir pelo seu favor.

Estas reformas poderão não ir tão longe como seria aconselhável: a despesa pública sueca continua a ser elevada, e como tal, a carga fiscal também o é, o que coloca barreiras à melhoria da prestação dos cuidados de saúde, por exemplo (se estes continuam a depender muito do dinheiro público, e a obtenção de novas receitas é difícil tendo em conta o carácter já elevado da carga fiscal actual, será complicado acompanhar a subida dos custos desses mesmos cuidados), mas são um bom exemplo de como esta crise, longe de indicar o fim do “neo-liberalismo”, veio apenas acelerar a insustentabilidade do “modelo social europeu”.

Tal como uma Suécia com um “modelo social” já pouco sustentável optou, em 1992, por empregar dinheiros públicos na salvação dos seus bancos, Estados já muito endividados optaram agora por endividarem-se ainda mais para “salvar” o sistema financeiro internacional. Esta dívida ou é paga com subidas de impostos intoleráveis para populações que já entregam metade do seu rendimento ao Estado, ou com dinheiro que “cresça nas árvores” (mas que irá valer cada vez menos), ou seja, ou perderemos qualidade de vida por sermos sobrecarregados com impostos ainda mais elevados, ou por termos de lidar com a inflação a que uma expansão monetária nos condenaria. A alternativa a estes dois tristes cenários é apenas uma: enfrentar a realidade da insustentabilidade do nosso querido “modelo social europeu”, eliminando os sorvedores de dinheiros públicos que põem em causa o nosso futuro.

A “inteligência” pátria, sempre pronta a seguir o que lê “em estrangeiro”, não se cansou de elogiar Brown por seguir o “exemplo” sueco de 1992. Infelizmente, presta pouca atenção ao resto desse “exemplo”: as reformas do Estado social a que a Suécia foi obrigada depois da crise. Se seguirmos o “exemplo” apenas pela metade, iremos acabar por ter de lidar com o empobrecimento generalizado das populações. Se, no entanto, prestarmos atenção ao que a Suécia fez, não apenas em 1992, mas ao longo de todos os anos 90, talvez tenhamos uma oportunidade de escapar a esse fim.

9 pensamentos sobre “Se queremos seguir o “exemplo” sueco, temos de segui-lo até ao fim

  1. Pingback: Leitura recomendada « BLASFÉMIAS

  2. Luís Lavoura

    O ódio à reforma ortográfica é tal, que agora até se põem a adicionar cs onde eles nunca existiram. São os “contractos”, é a “productividade”, etc.

    Ou então é de lerem tanto em inglês, que agora querem que o português se passe a escrever como o inglês.

  3. Ainda ficou um “produtividade” mal escrito.

    Quanto à afirmação do Luís Lavoura de que aquelas palavras nunca levaram c, não tenho essa certeza. Você tem, caro Luís? É que desapareceram muitas consoantes mudas no passado, como em prompto, assumpto, rhetorica, só para dizer algumas de memória.

    E sim, parece-me influência das leituras em Inglês… 🙂

  4. Pingback: Para além da “nacionalização” do BPN « O Insurgente

  5. António

    Aparentemente, isto tem mais professores de português, escritores e extremistas da língua portuguesa do que pessoas interessadas nos verdadeiros problemas do país.

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