continuamos sem perceber

Continuamos sem perceber, caro João, como se preenche o hiato entre o “indivíduo sem vontade”, essa tal “Vontade” que é uma “invenção cristã” para “ilibar Deus da sua responsabilidade”, e o homem social, o homem que vive e contacta com o outro. Até agora, mesmo sem meter o Zaratustra de Nietszche ao barulho (o que até considero que seria indesejável), parece-me que continua alguma coisa a falhar. Erro meu, certamente.

2 pensamentos sobre “continuamos sem perceber

  1. Rui,

    onde é que eu falei de um indivíduo sem vontade? Mais, dizer que é uma invenção cristã não é uma crítica nem pretende desvalorizar a vontade. O que eu digo é que, ao contrário do que o Rui e o RAF parecem defender, a vontade não pode ser entendida como uma espécie de poder causal, algo originário e fundador. Parte da filosofia moderna baseia-se nessa noção, certamente. Mas tal viola o entendimento critã que lhe deu origem, sobretudo quando ela aparece desligada da narrativa paraiso-queda-salvação que lhe dá inteligibilidade. O que eu escrevi no primeiro post foi algo diferente, pois um entendimento narrativo não é o mesmo que um causal. O segundo tem origem num certo atomismo que surgiu depois de Descartes, foi apropriado por Hobbes e constitui um dos fundamentos (senão mesmo o principal) da tradição liberal

    O meu principal problema com uma certa tradição liberal (a que charles taylor chama de liberal proceduralism) é a sua concepção da agência humana, entendida como algo explicável através do poder causalda vontade do agente, como se esta fosse algo que explica e precede o acto. Um dos problemas disto é que a identidade do agente torna-se algo sem história, sem narrativa. Assim não podemos tornar inteligiveis um conjunto de realidades: que o individuo se forma ao longo da sua vida (noção de individuo enquanto projecto temporal que se auto-realiza, que não é algo dado), que se apropria de tradições e as transforma.

    A noção de vontade enquanto poder causal institui uma dicotomia: ou o individuo é totalmente ocndicionado pela tradição ou entao é um poder absoluto, espontaneamente criativo e absolutamente original. Eu quero afirmar esses dois extremos: o individuo é simultaneamente produto e produtor, livre e condicionado, dependente e independente. Ora para tal torna-se necessário abandonar noções de causalidade. Daí Hegel ter procurado uma noção de razão dialéctica, a única que permite afirmar dois extremos aparentemente contraditórios…

  2. ruialbuquerque

    João,

    Eu também não tenho simpatia excessiva pelo voluntarismo e reconheço que boa parte do pensamento da Rand (não lhe chamemos filosofia) se baseia no voluntarismo, aproximando-se, até, de certos momentos de Nietszche. Quando eu assinalei, no meu post sobre o individualismo, que “o mundo de Rand é um mundo imaginado, povoado por figuras e arquétipos inexistentes”, eu referia-me, embora sem qualquer desenvolvimento, a esse excesso de voluntarismo que caracteriza o seu objectivismo e, sobretudo, as suas figuras romanceadas, de que o Howard Roak é, a meu ver, o expoente máximo.

    Esta visão das coisas, excessiva como tudo o que era próprio da Rand, não invalida o valor do individualismo como pedra de toque da filosofia liberal. Se vc. for ao Hayek, de quem parece gostar pouco, encontrará um individualismo que é a antítese do voluntarismo racionalista de Rand. Ele costumava dizer, aliás, que “as coisas e as instituições são mais o produto dos nossos actos do que da nossa vontade”. Eu aproximo-me muito mais do liberalismo de Hayek do que do objectivismo de Rand. E julgo que a tradição liberal deve mais ao primeiro do que à última. Penso, aliás, como assinalei no referido post, tratar do assunto num próximo texto, assim tenha tempo para o fazer.

    Saudações,

    RA

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.