A esquerda, em contrapartida, trata com mimo a liberdade de expressão e os seus protagonistas

Sobre João César das Neves, destaca-se no Renas e Veados:

Boas notícias do TIC: «Segundo um comunicado da Opus Gay, a juíza do Tribunal de Instrução Criminal (TIC) de Lisboa que pronunciou João César das Neves considerou que o professor da Universidade Católica, nos textos publicados no “Diário de Notícias”, “ultrapassa largamente os meros artigos de opinião”.


Sobre João Carlos Espada, escreve Nuno Ramos de Almeida no AspirinaB:

Com efeito, outra aplicação do princípio do “proverbial slippery slope (declive escorregadio)” é que nunca deviam ter estendido a alfabetização aos tontos; estava-se mesmo a ver que ainda íamos dar com eles a encher páginas no Expresso.

Sobre José Manuel Fernandes, escreve Valupi no mesmo AspirinaB:

Há umas semanas, JMF chegou ao ponto de utilizar um editorial para admoestar a sua equipa, a propósito de um erro qualquer. Podemos concluir que o balneário não tem testemunhado recentes competências de comunicação e comando por parte deste treinador. Com quase 10 anos de casa, e erros clamorosos a pulverizarem a confiança dos leitores, faz falta ao Público alguém que recupere a tradição herdada por Vicente Jorge Silva: prévia definição ideológica como condição da isenção jornalística.

Ainda sobre o mesmo JMF, escreve Daniel Oliveira no Arrastão:

Das duas uma: ou José Manuel Fernandes só leu as gordas e ainda assim resolveu escrever sobre elas, e é, como jornalista, um incompetente e um irresponsável. Ou leu e preferiu fingir que não viu. E então é muito pior do que isso.

(…)

José Manuel Fernandes tem todo o direito de criticar um partido. O mesmo, todas as semanas, se assim o entender. No tom que entender, mesmo que se aproxime do hooliganismo. Tem todo o direito de usar um jornal fundado por jornalistas como tribuna das suas campanhas. Enquanto lhe derem esse direito, pode continuar a destruir a reputação daquele que, antes de lhe darem o lugar de director, foi o melhor jornal português. Mas ao deturpar o que lê, seja porque não foi escrupuloso no seu trabalho, seja porque não consegue esconder os seus preconceitos, mente aos seus leitores. E mostra mais uma vez (ver texto a propósito de um editorial sobre o Líbano, em que em cada frase havia uma erro factual ou mesmo uma mentira deliberada) a sua falta de brio profissional. É o que dá quando um activista político se faz passar por jornalista.

A crítica e a reacção inflamada ao facto do RAF, como consumidor pagante do jornal Público, se permitir a si o direito de pedir a demissão de um colunista (independentemente de ter sido isso ou não o que disse) ao proprietário do mesmo, ponderando em alternativa deixar de o comprar, demonstra um equívoco sistemático da Esquerda. O equívoco da isenção jornalística, e da autonomia dos jornalistas perante os proprietários dos órgãos de informação.

Um equívoco que prospera na ficção de que tanto os jornalistas são isentos, como os consumidores de produtos jornalísticos procuram a isenção nos produtos que adquirem. Ora os liberais há muito que estão conscientes quer da inevitabilidade do oposto, quer de que não é pela existência de mecanismos reguladores e sancionatórios – quer sejam ERPs ou comissões de carteira – que se consegue contrariar a natureza das coisas. Antes se conseguem sim desse modo estabelecer mecanismos de cerceamento da liberdade de expressão e de imprensa.

A natureza das coisas é a de que as pessoas não procuram isenção. Antes, valorizam a credibilidade construída por provas dadas e por confrontação das peças jornalísticas com os factos.

O RAF tem todo o direito, naturalmente extensível a todos os leitores do Público, de pedir o despedimento do comentador ou jornalista A, B ou C. Tem todo o direito, até, de constituir um grupo de capitalistas que adquira o jornal e o faça, em última instância. É algo que se remete à pura esfera privada do relacionamento de um consumidor com o produtor de um produto que consome. Se este se degrada e lhe desagrada, ficam as cartas na mesa: ou este muda ou então perde um cliente.

Os mesmos que ficaram tão escandalizados com as afirmações do RAF são porventura os mesmos que enaltecem a cobertura jornalística das eleições americanas de Luis Costa Ribas ou o trabalho de correspondente de António Esteves Martins em Bruxelas ao serviço da RTP. Tudo pérolas de isenção e espírito crítico, em consonância com os estritos padrões morais e jornalísticos que regem por lei a profissão de jornalista. O facto de porventura haver uma partilha ideológica do seu discurso é com certeza irrelevante.

A liberdade de imprensa não se faz contra o direito dos donos dos media e dos seus consumidores terem a palavra final em relação ao que é publicado. Faz-se sim eliminando entraves puramente burocráticos e de contorno censório e licencioso à criação de novas publicações, e de acesso à profissão de jornalista. Faz-se sem discursos autorizados ou negados de gosto e de moral estabelecida, e não impondo por via coerciva um discurso proselitista do politicamente correcto e tolerável.

O RAF é, em contrapartida, uma das pessoas do único grupo que tem o direito de fazer aos proprietários do Público as reivindicações que bem entende: a dos seus clientes que pagam ao fim do mês o salário dos seus jornalistas e proprietários. Quais são as reivindicações atendidas ou não, tal é um problema de gestão do jornal.

12 pensamentos sobre “A esquerda, em contrapartida, trata com mimo a liberdade de expressão e os seus protagonistas

  1. Enquanto lhe derem esse direito, pode continuar a destruir a reputação daquele que, antes de lhe darem o lugar de director, foi o melhor jornal português.”

    “E mostra mais uma vez (…) a sua falta de brio profissional.”

    Caro Daniel Oliveira,

    É tudo uma questão de retórica…

    Felizmente (pelo menos para mim), o RAF é mais directo.

  2. Jason Statham

    ahahahahahaahhaah

    BRUTAL! O feitiço contra o feiticeiro! Brutal! Grande post

    Genial também a (falsa) candura do Daniel. Enternecedora mesmo.

  3. João

    Não se compreende esta reacção do ex-assessor de imprensa do bloco de extrema-esquerda.

    O actual colunista do Expresso (Grupo Balsemão) tentou fazer exactamente o mesmo com o Baptista Fernandes quando este começou a escrever no DN.

    Só houve uma diferença: o comentador da SIC Radical (Grupo Balsemão) tentou sanear o Baptista Fernandes ainda antes de ele ter escrito uma linha que fosse no DN .

    Actualmente, o domínio do bloco nos jornais é avassalador. E o grande problema nem é ao nível das páginas de opinião…

    Longe vão os tempos em que o louçã defendia publicamente que a exposição dos partidos nos media deveria ser proporcional à votação de cada partido (Entrevista ao DN em 99).

  4. Daniel,

    “Onde é que exactamente alguém pede a intervenção de Belmiro de Azevedo?”

    Para que conste, eu não pedi a intervenção específica do Engenheiro Belmiro, mas dos responsáveis da SONAE, que são muitos. Aliás, só accionistas são uns milhares.

    E o que é que isso tem a ver com o assunto? Eu achar que dono deve tutelar o seu investimento é proibido, mas o Daniel exigir limpezas de balneário, já é permitido?

    Explique-se lá, que eu não percebi.

  5. Estou perfeitamente à vontade: não só nunca pedi o despedimento do João César das Neves, como fui eu que decidi convidá-lo para vir à livraria Pó dos Livros conversar comigo sobre a crise financeira, hoje a partir das 21h30. Os insurgentes também estão convidados a aparecer e intervir. Pluralismo, e de graça.

  6. JLP,
    1. Acontece que a escolha do director, e apenas isso, é competência exclusiva dos proprietários do jornal, que no restante delegam poderes no director e na redacção, não interferindo nas opções editoriais. O problema, já percebi, é desconhecerem a orgânica e o funcionamento dos órgãos de comunicação social. A administração não pode escolher os colunistas mas tem de escolher o director. Ainda assim, nunca referi a administração, porque espero um dia uma posição dos jornalistas (através do Conselho de Redacção, que é quem tem esse poder) sobre o director e o seu trabalho.
    2. Comentei o trabalho de um jornalista, que está obrigado a cumprir determinadas regras. Ainda mais se for director. Ora, como já percebi também aqui, há uma certa confusão entre jornalista e colunista (RAF chamou ao Rui “jornalista/colunista” queando ele é “historiador/colunista”. O Rui Tavares não é jornalista e por isso a avaliação do seu trabalho no jornal é feita exclusivamente pela sua opinião. Não tem qualquer responsabilidade no conjunto das opções do jornal. Exactamente ao contrário do que sucede com JMF.

  7. Pingback: Ainda há pluralismo de graça at ruitavares.net

  8. “Ora os liberais há muito que estão conscientes quer da inevitabilidade do oposto, quer de que não é pela existência de mecanismos reguladores e sancionatórios – quer sejam ERPs ou comissões de carteira – que se consegue contrariar a natureza das coisas.”

    Caro Daniel Oliveira,

    “Acontece que a escolha do director, e apenas isso, é competência exclusiva dos proprietários do jornal, que no restante delegam poderes no director e na redacção, não interferindo nas opções editoriais. O problema, já percebi, é desconhecerem a orgânica e o funcionamento dos órgãos de comunicação social.”

    Não, o mal é exactamente existirem coisas como o estabelecimento imperativo dessa orgânica e dessas relações funcionais.

    Eu falo do “devia ser”, e o DO vem-me falar do que “é”. Não era isso que eu pretendia discutir. Eu estou muito bem ciente dos entraves orgânicos, administrativos e funcionais dos orgãos de comunicação social, mas não é disso que falo. Parece é confirmar-se a pertençado DO ao grupo dos iludidos que referi cima no artigo…

    Além disso, se o DO está convencido que a SONAE não consegue de facto afastar um colunista se o quiser, mesmo com essa orgânica e limitações, acho que tem que tomar umas doses de realidade.

    “Comentei o trabalho de um jornalista, que está obrigado a cumprir determinadas regras.”

    Não foi bem isso. Como reforcei acima, referiu-se quer ao facto de “ainda” lhe permitirem exercer as suas funções (e enquanto o fizerem), quer ao seu brio profissional, o que me parece estar bem para lá de um mero “comentário ao trabalho”.

  9. “Estou perfeitamente à vontade: não só nunca pedi o despedimento do João César das Neves”

    Caro Rui Tavares,

    Nem tal facto lhe foi imputado. A menos que queira ser o arauto das “dores” de toda a Esquerda.

    “Os insurgentes também estão convidados a aparecer e intervir.”

    Da minha parte agradeço o convite, mas é um pouco complicado para o núcleo insurgente do Norte…

  10. Tudo isto faz-me lembrar a crónica do João Carreira Bom que, há uns bons anos, lhe custou o fim da relação escrita com o Expresso. Se bem se lembram, João Carreira Bom criticou Pinto Balsemão e a sua posição monopolista na imprensa portuguesa. E por aí ficaram as suas crónicas.

    Pelo que percebi, há pessoas por aí (e neste blogue, pelos vistos), que defendem que, se um cronista sequer chegar perto de discordar da opinião do patrão (o dono do jornal), este deve despedi-lo? Não percebo, expliquem-me. Um jornal é o lugar em que se reporta e se discute a atualidade, ou é a newsletter da empresa?

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