Humanismo Caviar (II)

Hoje, no Público, o Rui Tavares, na linha do “humanismo caviar“, vem cantarolar que ele é que se preocupa com “as pessoas”. Por contraposição a uma “gente capaz de viver na Idade Média” e defender que “a peste negra era uma coisa óptima”.

Esta vertente “humanista” do Rui Tavares e as suas erradas convicções sobre a natureza de quem defende ideias diferentes das suas não me surpreende. O que espantou foi descobrir que, das duas uma: ou o Rui Tavares investiu em produtos da Lehman, da Merryl Linch ou da Goldman, ou está colectado nos EUA, pois só assim pode afirmar, na primeira pessoa do plural:

“Enganados de novo. Andámos todos estes anos a aturar os consultores da Merryl Linch, os gestores da Lehman Brothers, os génios financeiros da Goldman Sachs – para vermos, numa só semana, que nem da casa deles sabem cuidar”.

Rui Tavares veste, também, a fatiota medieval do cavaleiro do Apocalipse, desenhando o seu raciocínio num panorama de despedimentos em massa, perdas de casa, seguros de saúde e pensões de reforma, que não tem aderência em nenhum cenário real. A situação é de crise, mas o catastrofismo em que labora  o Rui Tavares é patético.

Espanta-me, mais uma vez, ler tudo isto num jornal supostamente moderado, no Público. Depois, senhores da SONAE, que deixam que o seu dinheiro dê voz a radicais, não se queixem, nos momentos da verdade, que o país está enviesado, entregue à extrema esquerda, e que encontram resistência na mentalidade dos portugueses para promover a mudança.

PS: Aos crentes que acham que as recentes dificuldades nos EUA provam que a Segurança Social é melhor gerida no “público” que “pelos privados”, recomendo um exercício: apliquem as (exigentes) regras de supervisão e solvência à Segurança Social, e depois digam-me se ainda são capazes de saltar de alegria. É que a Lehman e a AIG, num contexto normativo e regulatório semelhante ao que se aplica à nossa Segurança Social, no actual momento, estariam a respirar saúde.

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46 pensamentos sobre “Humanismo Caviar (II)

  1. jorg

    Não percebeu que o Rui Tavares só queria mencionar realmente os “génios financeiros da Goldmann Sachs” para ir alfinetando domésticas ‘nemésis’….
    O resto são adereços de prosa, para a coisa não ser demasiado ostensiva…

  2. André Azevedo Alves

    Lá está: é o monopólio do bom coração por parte daqueles sujas ideias mais pobreza, miséria e sofrimento humano geram.

    E o Público continua na linha da frente do patrocínio à propaganda da extrema-esquerda mais anti-capitalista…

  3. JoaoMiranda

    O artigo do Rui Tavares de hoje é particularmente mau. E a razão porque é mau tem pouco a ver com “humanismo caviar”.

  4. Luís Lavoura

    Não entendo o post scriptum. Quer o RAF dizer que o contexto normativo e regulatório da Segurança Social portuguesa é bom? E que esse mesmo contexto normativo e regulatório deveria portanto ser aplicado a quaisquer privados?

  5. Caro Luis Lavoura,

    “Não entendo o post scriptum. Quer o RAF dizer que o contexto normativo e regulatório da Segurança Social portuguesa é bom? E que esse mesmo contexto normativo e regulatório deveria portanto ser aplicado a quaisquer privados?”

    A capacidade que demonstra em concluir exactamente o contrário daquilo que eu quis dizer é extraordinária. Eu gostaria é que a solvabilidade da Segurança Social fosse medida com maior exigência, embora isso fosse desagradável para o gestor público (que teria de declarar falência, e tomar medidas radicais).

  6. “Lá está: é o monopólio do bom coração por parte daqueles sujas ideias mais pobreza, miséria e sofrimento humano geram.”

    Que pobreza, miséria e sofrimento humano as ideias do Rui Tavares (já que é dele que se está a falar) geraram?

  7. “Depois, senhores da SONAE, que deixam que o seu dinheiro dê voz a radicais, não se queixem, nos momentos da verdade, que o país está enviesado, entregue à extrema esquerda, e que encontram resistência na mentalidade dos portugueses para promover a mudança.”

    Há uma teoria de que os “intelectuais de esquerda” mais não são de que os “idiotas úteis” do grande capital. Talvez seja verdade… (afinal, se eu for um idiota útil, por definição não saberia que o era).

  8. José Cidreira

    O Rui Tavares é uma besta, mas o cenário só não é catastrófico porque o Estado (o americano, no caso) interveio. De outra forma era 1929 outra vez.

    Um bocadinho menos de cabeça na areia não vos fazia mal nenhum. Ponderem, ao menos, se a forma insana como defendem os vossos pontos de vista não será o principal obstáculo a que se possa liberalizar um bocadinho mais o nosso país.

  9. Gabriel Silva

    Caro RAF,

    Não abstraindo da essência do teu comentário, discordo deste ponto:

    «Espanta-me, mais uma vez, ler tudo isto num jornal supostamente moderado, no Público. Depois, senhores da SONAE, que deixam que o seu dinheiro dê voz a radicais, não se queixem, nos momentos da verdade, que o país está enviesado, entregue à extrema esquerda, e que encontram resistência na mentalidade dos portugueses para promover a mudança.»

    Em primeiro lugar, ainda bem, para a existência de uma imprensa livre, que os accionistas, ainda que certamente discordando dos cronistas do jornal de que são proprietários, não interferem na sua escolha. Para maus exemplos, basta o sócio único dos meia governamentais.
    Em segundo ainda bem que vozes que consideras «extremistas» (não discuto), se podem expressar livre e abertamente, sem necessidade de terem de recorrer a métodos pouco ortodoxos, tão típicos de sociedades não-abertas. Julgo mesmo que é desejável terem voz, por forma a serem confrontados nos seus argumentos, nas suas teorias, e desmascarados, se for o caso. É que fazes aqui, é o que tantos fazemos.
    Em terceiro, penso exagerado (ou no mínimo hoje ultrapassado) o poder de conformação que atribuis a quem tenha exposição pública, para criar quaisquer estados de alma conformistas e «resistentes á mudança» de que falas.

  10. ferro1

    “Depois, senhores da SONAE, que deixam que o seu dinheiro dê voz a radicais”

    como é que democratas peçam à luz do dia censura e o fim da pluralidade está para além da minha compreensão.

  11. Caro Gabriel, carro ferro 1,

    Numa sociedade livre, nada impede a SONAE de contratar quem quiser. Numa sociedade livre, nada impede que eu diga que a SONAE está a contribuir para dar voz aos que lhes causam as maiores dificuldades. Numa sociedade livre, se a SONAE optasse por ter uma linha editorial distinta, nada impediria que outros capitais lançassem projectos jornalisticos onde o Rui Tavares poderia dizer o que lhe aprouvesse. Espanha é um bom exemplo, onde as linhas editoriais estão mais “arrumadinhas” e há mais coerência de projectos. A mim, o que me custa é ver num jornal supostamente moderado colunas que em Espanha teriam dificuldade em estar no próprio El Pais.

  12. “Numa sociedade livre, se a SONAE optasse por ter uma linha editorial distinta”

    Bem, penso que durante muito tempo, a “linha editorial distinta” da Sonae era exactamente essa – um jornal (mais ou menos) de esquerda, não?

    Se calhar o director e a Helena Matos é que estão a descaracterizar o produto

    (nota: há muito tempo que não leio regularmente o Público – quase só quando meo oferecem na caixa registadora – logo a minha análise da sua lina editorial é de quase 10 anos atrás)

  13. lucklucky

    “como é que democratas peçam à luz do dia censura e o fim da pluralidade está para além da minha compreensão.”

    Censura só existe no espaço público não no espaço privado. Será que posso mandar um texto para o Jornal Avante publicar?

    RAF

    A Sonae defende-se arranjando contactos em todos os sectores, são raros os Grupos Económicos que preferem conflitos a pagarem e seguirem em frente,a ideia de dar de comer ao crocodilo esperando que seja o último a comer-nos é a norma.

  14. Pingback: Menino Pangloss está irritado e exige silêncio at ruitavares.net

  15. Caro Gabriel, caro lucklucky,

    Eu apenas gostaria de poder pegar na última página do meu jornal, e não ter de gramar com textos daqueles, em que não há debates de ideias, mas juizos de intenção e ataques pessoais. Nada contra que o Rui Tavare escreva no 24horas, ou noutro sítio qualquer, dos que eu não leio. Gostava que em Portugal houvesse jornais com linhas editoriais mais claras. Longe de mim querer censura para o Rui Tavares, ou estar a empurrá-lo para a “luta armada” ou de “rua”.

    Agora, tenho o direito de me indignar, quando o Rui Tavares diz que pessoas que pensam na mesma linha que eu podiamos viver na Idade Média e ver méritos na peste negra. Como se sentiria o Rui Tavares se eu fizesse considerações desta natureza por similitude às ideias que ele defende? É este tipo de pensamento ressabiado, moralista e justicialista que a SONAE está a patrocinar. Façam-no, se quiserem, mas depois não se queixem, como se queixam tantas vezes…

  16. “Gostava que em Portugal houvesse jornais com linhas editoriais mais claras.”

    Tempo – falido
    Independente – falido (e, enquanto teve leitores, foi mais como anti-cavaquista do que como conservador)
    O Dia – falido (várias vezes)
    Semanário – zombie

    Diário de Lisboa – falido
    O Jornal – não sei bem o que lhe aconteceu, mas fechou
    O Diário – fechado pelo proprietário

    Parece que não há mercado…

  17. Solar Moon

    Depois do que se leu aqui nesta cx de comentários ficou provado que o RAF cristalizou na Idade Média. Se dúvidas houvesse ficam aqui dissipadas.

  18. Pingback: Mas que grande umbigo! « O Insurgente

  19. Pingback: cinco dias

  20. “nota: há muito tempo que não leio regularmente o Público – quase só quando meo oferecem na caixa registadora – logo a minha análise da sua lina editorial é de quase 10 anos atrás)”

    E não é que hoje ofereceram-me um (como suplemento a 2 quilos de pêssegos)?

  21. a. moura pinto

    As tiradas do RAF são de tal modo extremistas que temo por aquilo que designa por jornal moderado. E tudo indica que moderado, apenas o jornal que ele mesmo moderasse.
    Mas corria o risco de ficar com ele, bastando um exemplar.
    O apelo à censura diz bem da perversidade mental de quem, perante a diferença, opta por abafar quem lhe seja diferente.
    A sugestão é mesmo contrária aos senhores da SONAE, enquanto para eles o Público for um projecto que lhes interesse acautelar. Porque já está suficientemente afunilado pela linha editorial da sua direcção, a começar pelo inefável JMF.
    Por isso, ir pelos conselhos de RAF, só mesmo para fechar, como aconteceu a tantos projectos tão do estimado lado direito de RAF.
    Aquilo lá pela Lehman, AIG e outros correu mal? Pois é, correu mesmo. Rui Tavares só fala disso porque tal aconteceu. Verdade que ele está a exagerar porque ninguém perdeu o emprego, ninguém perdeu a casa, os contribuintes ficaram mais ricos. Tudo isto é muito exagerado.
    E deixo uma dica, para gáudio de RAF: quem inventou o sub-prime foi o Rui Tavares. Isto eu posso garantir.

  22. Nuno

    Apesar da recessão ser um facto da vida neste momento os cenários catastrofistas tanto provocam cepticismo como estimulam o meu fetish escatológico.
    Basicamente adoro filmes de zombies e afins e se o Público decidir que irá publicar crónicas sobre a economia que descrevem um cenário Mad Max já conquistaram um leitor!

  23. Pingback: Esta gente ladra mesmo grosso, chiça! « O Insurgente

  24. Pingback: cinco dias » olhar de lado

  25. Rui

    Oh, o seu dogmazinho de estimação estilhaça-se em milhões de bocados..
    Esse tal de capitalismo nunca fo de fiar..
    Mas giro giro é a sua falta de respeito e opinião pelos outros.
    Não só é um liberalzito mas um anti-democrata..
    Há tantos por ai a fingirem serem democratas e respeitadores dos direitos ásicos de civilização..
    É apenas mais um..

  26. Pingback: O ressentimento da extrema-esquerda caviar instalada nos media (2) « O Insurgente

  27. Pedro

    O RAF não percebe, e creio que nunca perceberá, o quanto de errado existe em indirectamente incitar um proprietário de um jornal a despedir um colaborador, dizendo que este é contra os interesses do patrão. O RAF, ao contrário do que diz, não se limitou a exercer a sua liberdade de opinião; foi muito para além disso e creio não ter necessidade de explicar isso. E mostra claramente não perceber que na nossa sociedade, os donos dos jornais não se imiscuem na direcção editorial de um jornal, o que é muito estranho da parte dele.

  28. jorge

    Só compro o Publico devido às crónicas do Rui Tavares. Se ele deixar de escrever deixo de comprar. A sua teoria está errada dinossauro RAF. Tenha um pouco de calma que só lhe ficará bem.

  29. Pingback: A Imprensa Que Passa ao Lado da Mundo « BLASFÉMIAS

  30. Ritinha

    Onde é que estão os argumentos do RAF contra o artigo em questão?
    O erro de Rui Tavares é que precisava de possuir produtos da Lehman, da Merryl Linch ou da Goldman, e estar colectado nos EUA para poder denunciar que estes nos andaram a enganar?

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