Sobre a natureza dos mercados e das novas economias

Concordo com o Pedro Arroja e com o “anti-comuna”, quando afirmam que há um grande desconhecimento sobre a forma como estão construídos os mercados. Julgo até que esse véu existe, também, em relação ao modo como funcionam as diversas economias e o mundo globalizado. “Liberalismo” e “Socialismo” são hoje conceitos de manual. Os livros são úteis – para mim, essenciais – pois ajudam-nos a interpretar a realidade, e podem ser muletas interessantes no momento em que é preciso tomar decisões e compreender o mundo. Agora, para perceber o que se tem passado, porém, não bastam os conceitos clássicos É preciso saber, na linha de Kirzner, navegar no meio do ruído.

A generalidade dos países, hoje, segue aquilo que genericamente definimos como sendo economias de mercado. Não temos, com excepções marginais, paises verdadeiramente socialistas, nem mercados auto-regulados. Cada espaço geográfico, cada jusrisdição, representa uma síntese, é o fruto da sua História, o resultado da interacção entre indivíduos, sociedade civil, os diversos interesses pontuais e conjunturais manifestados de um modo mais formal ou difuso, o produto acabado saído do laboratório de ensaio das inúmeras experiências governativas, tantas vezes incongruentes e de sinal contrário, (des)inspiradas nas mais distintas correntes ideológicas: esta dialéctica, não historicista, abre um espaço em aberto, recheado de incerteza e, porque ocupado por homens, fértil em imperfeições: cada país, cada jurisdição, cada espaço económico, apresenta as suas especificidades, por vezes dão maior margem para a liberdade individual, noutras situações, existe uma tutela mais forte da acção Estatal, em alguns casos, o Estado é a locomotiva e o dínamo, em redor do qual gravitam os vários interesses, por vezes encontramos tudo isto no mesmo país; agora, hoje, o modelo dominante é o que se sintetiza no que genericamente definimos como “sociedades de mercado”.

Isso significa que a actual crise sinaliza a falência da ordenação expontânea, tal como Hayek a construiu? Temos nas intervenções da FED a comprovação que os mercados não sobrevivem sem o regaço do Estado? Diria que esta conclusão é manifestamente exagerada. Desde logo, porque, como se viu, não há “ordenação espontânea” dos interesses, na medida em que, todos sabemos, as decisões são tomadas num contexto, sempre, de maior ou menor condicionamento. Continuo a achar, como escrevia em tempos idos o Tiago Mendes numa interessante discussão multifacetada, que, como apresentava Adam Smith,  o interesse próprio pode ser um poderoso factor de cooperação social. Agora, e como bem referia o André Azevedo Alves, no quadro da mesma troca de impressões, uma boa cooperação social depende, todavia, de um contexto institucional que enquadre devidamente o interesse próprio. Daí a importância das estruturas sociais e políticas e dos incentivos que se geram. Assim, é difícil ver nas dificuldades da Fannie e da Freddie “falhas de mercado”, quando constatamos hoje que as mesmas representavam verdadeiras aberrações, actuando sob aval do Estado, e com a prerrogativa de se poderem alavancar infinitamente (o seu nivel de alavancagem é de sessenta e cinco vezes o seu capital próprio!). Também não vejo como podemos assumir que a auto-regulação falha, quando aceitamos que a moeda, que circula na base da sua confiança e na sua aceitação como intermediário nas trocas, é emitida exclusivamente pelos Estados, segundo critérios que são, sempre, bastante “humanos” e fundados tantas vezes no seu interesse “próprio”. Tão pouco me parece compreensivel falar em falência na auto-regulação, quando assumimos o risco de autorizar (com maior ou menos latitude, consoante as jurisdições) que com a concessão de crédito os bancos criem moeda. 

Quanto à AIG, ML e BS, ficaremos sempre por saber se o seu resgate não obecede a critérios políticos e eleitorais: no curto prazo, é mais fácil diluir as perdas no contribuinte americano, do que deixar os mercados fazer a sua dolorsa sangria.

Agora, o falhanço de algumas empresas no mercado americano (lendo este texto podemos eventualmente perceber a raíz da crise), não significa, porém, que em termos globais não haja vencedores. E talvez tenha sido essa a razão para que os EUA optem por injectar “dinheiro fresco” nos bolsos dos obrigacionistas, para animar as trocas, eventualmente para limitar as pretensões de fundos soberanos de países emergentes que se preparam para tomar posições em empresas relevantes, e para dar um sinal de confiança os investidores, que poderiam ter a tentação de fugir para outras Praças. Há aqui uma tutela do interesse americano, e questões que são de natureza claramente política (e geopolítica). Só por pragmatismo se explica que, da noite para o dia, haja uma limitação na regras do jogo (como a suspensão do short-selling), e uma injecção paliativa de cash, por assumpção forçada de perdas privadas por parte dos contribuintes.

Mais do que saber se estamos perante soluções “liberais” ou “socialistas”, se esta crise prova a falência do “liberalismo radical” ou nos mostra que a interferência estatal impede que haja uma melhor combinação dos interesses, essencial a uma adequada cooperação social, o que resulta das intervenções da FED é que, no fim da linha, há sempre que enquadrar nas decisões (e ponderar nas nossas análises) as razões de natureza política, e a forma como os poderes públicos se relacionam com os principais poderes económicos.

No plano concreto, esta crise mostra também que o mundo está em ebulição, em transição para uma nova ordem mundial, multipolar, onde há muitos poderes pulverizados, jogando-se parte da nova configuração nos tabuleiros da economia e do poder de mercado.

Finalmente, a crise americana mais uma vez demonstra que na abordagem dos mercados financeiros vale bem a pena seguir os ensinamentos de Kirzner, cujo pensamento valoriza não tanto os fins mas o processo, assenta na miopia do decisor, alerta para a imperfeição dos mercados e para a necessidade de perceber que, no processo de decisão, há sempre risco, desde logo porque se actua num contexto de assimetria de informação. Ler Kirzner ajuda a perceber o que se está a passar. E Kirzner, de certeza, ainda não atirou Hayek pela janela, nem está a tremer agarrado ao Tocqueville.

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8 thoughts on “Sobre a natureza dos mercados e das novas economias

  1. Caro TAF,

    O agregado M3 não inclui acções, mas apenas divida de curto prazo (de prazo inferior a 1 ano). Se tivesse lido o texto que te enviei (http://www.fep.up.pt/docentes/joao/material/macro2/macro2_texto_moeda.pdf), tinhas logo essa referência. Mas como preferes escrever a “tua teoria”, em vez de ir ver o que escreve quem percebe do assunto, depois dá nisto. Em qualquer caso, junto a parte relevante para este caso:

    “Finalmente, o agregado M3 inclui o M2 e outros activos financeiros de elevada liquidez
    que podem não ser emitidos pelas Instituições Financeiras Monetárias (IFM).

    M3 = M2 + títulos de dívida de curto prazo.

    O Banco Central Europeu usa o M3 como agregado de referência, dada a instabilidade da
    procura por M1 e M2.”

    Tudo o resto que escreves como “teoria”, em cima deste erro, não tem relevância. Os “especialistas” que tanto criticas, alguns deles com vidas inteiras dedicadas ao assunto, e vários prémios nobel, disseram o suficiente para se perceber esta crise, não é preciso novas “teorias”. Pareces aqueles gajos de Vilar de Perdizes, que dizem que os médicos são uns burlões, e que na ciência alternativa é que está a cura…

    O problema está identificado: empresas que se desvalorizaram, e um crédito que deu lugar a emissão de moeda, que vai ser objecto de write-off; os EUA vai ter moeda a mesma moeda, para activos que valem menos: a economia americana fica a valer menos, e o dólar, unitariamente, também.

    Ab
    RAF

  2. Caro RAF, de facto o M3 não inclui as acções. Contudo isso em nada altera o meu raciocínio pois não sendo efectivamente moeda, o valor das acções pode ser facilmente convertido em cash através de empréstimos bancários garantidos por essas acções (mesmo que não a 100%). Atendendo a que os bancos, eles sim, criam moeda (como tu finalmente já percebeste 😉 ), é como se ela “virtualmente” já existisse. Vou corrigir o texto para incluir essa explicação.

    Quanto aos especialistas que defendes, registo o facto de darem os prognósticos no fim do jogo. 🙂
    Eu não tenho o teu grau de conhecimento de Vilar de Perdizes. O que prefiro é tratar-me com um médico prudente e sensato, que tem o visão geral do funcionamento do corpo humano, em vez de consultar um especialista em doping e altas performances que depois encontra muito boas razões para explicar a morte do atleta. São gostos…

  3. Caro TAF,

    A preocupação de Buffet foi a de muita gente, que optou por não se “esticar” nos derivados, conscientes dos seus riscos. Desde 1998, ano que comecei a trabalhar, que li textos vários onde de expressam receios em relação aos riscos de alavancagem com derivados.

    Concordo também com os riscos do mark-to-market; infelizmente, desde 2005, que as regras da contabilidade foram mais além neste critério, e temos outras realidades – que não apenas os derivados – a serem reavaliados anualmente, contribuindo para o resultado mais e menos valias apenas potenciais.

    Não há nada de novo no texto de Buffet, que não o facto do risco potencial ter explodido em alguns balanços.

  4. “Não há nada de novo no texto de Buffet”

    Pois precisamente isso é que faz impressão! Ele não se limitou a falar em “time bombs” e em “financial weapons of mass destruction”, explicou também tudo muito bem explicadinho, com exemplos. O texto teve grande divulgação na altura. Como foi possivel que os especialistas tivessem deixado chegar as situação a este ponto? Onde estavam as autoridades e os reguladores?

    É que há inúmeras maneiras de ver que a coisa ia dar para o torto. Eu, com a emissão pirata de moeda (presumo que já concordes com a análise 😉 ), analiso a realidade por um dos vários pontos de vista complementares que existem. Se até eu, que não sou da área, consigo entender o buraco em que o sistema se meteu, o que se passou com quem é profissional do ramo? Deixou andar? Ou pura e simplesmente não percebeu a realidade onde estava inserido?

  5. Pingback: O mito do “sistema totalmente liberalizado” (2) « O Insurgente

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