Crises e auto-regulação no mercado

“Este episódio traz, porém, ao debate, a antiga questão dos méritos do mercado e a ideia hayekiana de ordem espontânea. Na opinião de Hayek, se cada homem for deixado livre para prosseguir os seus próprios interesses, dentro das regras da moral e do direito, o sistema social daí resulante é o melhor de todos os sistemas possíveis, no sentido em que ele maximiza as probabilidades de cada homem atingir os fins que ele próprio se propõe na vida. O sistema de liberdade individual, em Hayek, gera uma ordem espontânea contendo os seus próprios mecanismos de auto-correcção.
A crise financeira agora à vista veio questionar as capacidades de auto-regulação da ordem espontânea do mercado.”

Pedro Arroja, no Portugal Contemporâneo

Defender a capacidade de auto-regulação do mercado não é o mesmo que defender que não podem acontecer crises. Defender a capacidade de auto-regulação do mercado é aceitar que os agentes de mercado podem cometer erros, por vezes até os podem cometer em massa e ao mesmo tempo, mas que aprendem com esses erros. Defender a capacidade de auto-regulação dos mercados é aceitar que o facto de as consequências desses erros serem suportadas por quem os cometeu, é o que vai fazer com que os erros não sejam repetidos. Quanto mais desresponsabilizadas forem as pessoas que cometem os erros, quantos mais bail-outs forem dados, maior a probabilidade de o erro voltar a ser cometido no futuro próximo.
A ocorrência de crises não prova a ineficácia da auto-regulação do mercado. O único sistema protegido de crises, ou talvez aquele que está sempre em crise, é o socialismo.

52 pensamentos sobre “Crises e auto-regulação no mercado

  1. Carlos Duarte

    Caro CGP,

    Pois não prova nem é a essência do post do Pedro Arroja. O que prova é a insuficiência para, em certas circunstâncias, resolver de forma adequada essas crises. E a alternativa não é o socialismo, mas sim os sistemas mistos. O problema – e novamente concordo em absoluto com o PA – é encontrar o ponto de equílibrio.

    Para usar a analogia dele com o corpo humano – que é bastante boa – não convém nem morrer da doença nem da cura.

  2. Luís Lavoura

    Parece-me que o CGP não entendeu bem aquilo que Pedro Arroja escreveu.

    O que Pedro Arroja escreveu não foi sobre “crises”. Foi sobre a “ordem espontânea” que Hayek postulou. Pedro Arroja diz que não concorda e que certos sistemas, quando deixados em interação livre, geram espontaneamente uma situação de DESORDEM, e não de ordem.

    Para mim isto é uma evidência diária, cá em Portugal. Deixados em interação livre ente si, os portugueses geram um sistema de desordem, um sistema em que cada um faz o que quer, um sistema de desrespeito sistemático de uns para com os outros.

    Pelo que, para mim é claro como água que Hayek não tem razão. Não se gera, em geral (pode gerar-se em certos casos), uma ordem espontânea quando os homens interagem livremente entre si.

  3. JoaoMiranda

    ««O que prova é a insuficiência para, em certas circunstâncias, resolver de forma adequada essas crises. E a alternativa não é o socialismo, mas sim os sistemas mistos»»

    E onde é que está a prova que os sistemas mistos são melhores que a auto-regulação. Aliás, até poderíamos alegar que a actual crise ocorreu num sistema misto (o Carlos Duarte sabia que os mercados financeiros americanos já são regulados há dezenas de anos?).

  4. Carlos Guimarães Pinto

    “E onde é que está a prova que os sistemas mistos são melhores que a auto-regulação. Aliás, até poderíamos alegar que a actual crise ocorreu num sistema misto (o Carlos Duarte sabia que os mercados financeiros americanos já são regulados há dezenas de anos?).”

    A existência de crises demonstra que os sistemas já mistos têm que andar mais para um lado. E, de crise em crise, vão-se aproximando mais desse lado. Até que chegamos a um sistema sem crises…

  5. Pedro Arroja

    João Miranda,

    Não é demonstrável intelectualmente por argumento a priori. Tal como o cirurgião não pode demonstrar ao doente que o vai salvar. Às vezes, o doente morre durante ou após a operação.

    Existe uma situação de crise e existem instituições na sociedade – uma delas é o Estado – que podem ajudar a resolver a situação.

    O que fazer, ficamos parados?

    Acho que não. A atitude é: vamos utilizá-las para procurar resolver o assunto e não há mais conversa.

  6. Pedro Arroja

    João Miranda,

    isto significa que há um limite à utilização da razão (implícito no meu já proverbial “e não há mais conversa”, e que você parece não reconhecer) e que esse limite é a fé.

    No fim, em situação de doença grave, eu ponho-me nas nãos do cirurgião e digo para mim: “Seja o que Deus quiser”.

    O mesmo com a crise financeira, em que o Estado ocupa agora o lugar do cirurgião.

  7. PA

    Pedro Arroja

    Suponho que foi essa resignação que levou os alemães a porem-se nas mãos de Hitler no período de hiper-inflação que destruiu por completo a fibra social da alemanha civilizada.

    Algo de semelhante (com outros contornos, a história repete-se mas por caminhos inesperados) poderá acontecer no caso de colapso económico dado que a solução das elites é sempre: mais inflação monetária para curar as consequências da inflação monetária.

    Mas um intelectual tem o dever especial, o de inquirir as causas e a cura, por mais impopular que o seja.

    È um pena que alguém do seu calibre se resigne. É um péssimo sinal.

  8. CN

    nota: Não sei o que aconteceu ao meu comentário antes do 7 que por engano tinha ficado com PA, razão porque depois coloquei o 7.

    Bem, vou tentar repeti-lo a seguir.

  9. André Azevedo Alves

    “Aliás, até poderíamos alegar que a actual crise ocorreu num sistema misto”

    Claro que ocorreu num sistema misto. Isso e ignorar que o socialismo monetário está na base das bolhas das últimas décadas são os dois erros mais graves que vão sendo repetidos nesta discussão.

    Infelizmente, como a ignorância é (quase) geral, a tendência será para o intervencionismo aumentar ainda mais.

  10. André Azevedo Alves

    “Caro CN, por qualquer motivo o seu comentário aparece marcado como spam.”

    Já o aprovei.

  11. Pedro Arroja

    CN,

    vamos lá ver. O primeiro comentador interpretou-me bem.

    Eu não advoguei, como princípio, que se socialize o sistema financeiro, como não advogo cirurgias a quem não está doente.

    Advoguei que o governo americano faz bem em intervir tentando solucionar a crise ( e você nunca me respondeu à questão que lhe coloquei no PC – o que faria se tivesse responsabilidades no governo?), para evitar um mal que seria muito maior.

  12. Carlos Duarte

    Caro João Miranda,

    Continuando com a analogia do “paciente” e do “médico”, o problema não está em ter sido ministrada uma cura, mas ter sido ministrada a cura errada, i.e., o problema não foi excesso ou falta de regulação “pura”, foi antes de regulação errada, feita às três pancadas e feita de forma demasiado focalizada.

    Um sistema puramente liberal NUNCA funcionará porque será sempre socialmente insustentável. Concordo que um sistema maioritariamente liberal, com pouca regulação, seja provavelmente o melhor, mas EXIGE sempre ALGUMA regulação.

    De igual forma, a melhor maneira de manter a sua saúde é tomar poucos medicamentos e só quando necessário. Enxarcar-se de medicamentos muitas das vezes é pior do que não tomar nenhum.

    Caro AAA,

    Agradecia que explicasse como é que as bolhas têm origem nos sistemas mistos.

  13. JoaoMiranda

    ««o problema não foi excesso ou falta de regulação “pura”, foi antes de regulação errada,»»

    Isso parece-me um argumento a favor da tese de que a auto-regulação é uma solução melhor que a regulação estatal.

  14. JoaoMiranda

    ««O que fazer, ficamos parados?»»

    Pedro Arroja,

    É um mau princípio fazer alguma coisa porque não podemos ficar sem fazer nada. Este parece-me ser um dos principais problemas das actuais intervenções.

  15. André Azevedo Alves

    “Agradecia que explicasse como é que as bolhas têm origem nos sistemas mistos.”

    Caro Carlos Duarte,

    As bolhas que temos resultam em larga medida das distorções induzidas pela manipulação da massa monetária pelos bancos centrais.

    O sistema é misto na medida em que apesar das muitas intervenções não é (ainda) totalmente socialista.

  16. André Azevedo Alves

    “É um mau princípio fazer alguma coisa porque não podemos ficar sem fazer nada.”

    A melhor “cirurgia” seria abolir o fiat money e (re-)instituir o padrão ouro ou um sistema de livre concorrência monetária.

  17. CN

    “Agradecia que explicasse como é que as bolhas têm origem nos sistemas mistos.”

    È mais complicado.

    Já existiam bolhas antes de existirem Bancos Centrais. Embora fossem mais localizadas e de reajustamento rápido.

    O problema está na capacidade de criação de moeda. Os Bancos privados já o faziam porque emitam mais notas do que moedas de ouro detidas. O credor depois gastava o dinheiro na economia como se ouro tratasse.

    Com isso o banco passava a ter mais recibos que diziam “vale uma moeda de ouro” do que ouro realmente detido em cofres.

    Aqui existe mão do Estado, no sentido de que um direito independente, dificilmente pode conceder que um recibo possa dizer uma coisa e o contratante fazer outra.

    Para ser legal a nota deveria dizer qualquer coisa como “Vale uma reclamação de moeda de ouro dependendo recebr ou não conforme os anteriores levantamentos não tenham esgotado as reservas”.

    Este é um caso interessante. Um em que o intervencionismo começa por ser na interpretação de uma norma de direito civil mas que conduzia a um resultado já em si de bolhas que rebentavam , levando o Banco à falência.

    CN

  18. CN

    “sistema de livre concorrência monetária.”

    Sim, isso levaria naturalmente ao padrão-ouro-prata e a reservas pelo menos perto de 100%.

    Quanto a viver com o actual sistema:

    Pelo menos temos de pedir um comportamento muito ortodoxo por parte do BC, como manter sempre taxas de juro reais que serão as normais, tipo, 2%.(embora, ninguém saiba qual a certa,da mesma forma que ninguém sabe qual o preço do pão mesmo que indexado e custos de matérias , etc)

    O que levaria a taxas de &% a 7% na Europa e EUA.

  19. Pedro Arroja

    João Miranda,

    Quando a alternativa é a morte, fazer alguma coisa é um imperativo ético – o de lutar pela vida.

  20. CN

    Bem, suponho que foi isso que levou a aceitar o New deal (o que incluiu nacionalizar, e proibir a sua posse sob pena de prisão), que não fez mais do que espalhar ainda mais a miséria e prologá-la. Chegaram até a destruir colheitas em massa porque pensava Roosevelt que era preciso impedir os preços de baixar (assim como os salários).

    Sempre que penso na miséria produzida pelas elites que dirigem o Estado cura-me logo de qualquer resignaçao.

  21. CN

    PA

    As falências deviam operar.

    Não operando, a próxima vez que estivermos a falar sobre outra crise no futuro, será a do colapso do sistema, dado que as causas foram reforçadas e a percepção é que o problema é outro.

    Suponho que iremos então todos resignarmo-nos com a realidade. Quando todas as moedas cairem em valor para zero, óbviamente apenas o ouro/prata valerão como bem de troca.

  22. André Azevedo Alves

    “È mais complicado.

    Já existiam bolhas antes de existirem Bancos Centrais. Embora fossem mais localizadas e de reajustamento rápido.”

    Carlos,

    O que eu escrevi foi: “As bolhas que temos…”.

    Mesmo com padrões metálicos pode haver (e houve) bolhas. Em parte induzidas por manipulação da cunhagem (veja-se por exemplo o Tratado de Juan de Mariana) e em parte por grandes acréscimos repentinos no stock.

    Mas a questão dos Carlos Duarte era sobre as bolhas que temos hoje. E as que temos hoje resultam da acção dos Bancos Centrais.

  23. André Azevedo Alves

    “Não operando, a próxima vez que estivermos a falar sobre outra crise no futuro, será a do colapso do sistema, dado que as causas foram reforçadas e a percepção é que o problema é outro.”

    Não digo que seja a próxima, mas à medida que cada vez se monetiza lixo com mais facilidade para responder à pressão dos operadores financeiros, vamos aumentando as hipóteses de um colapso.

    Entretanto, pagam os contribuintes, e especialmente os aforradores…

  24. André Azevedo Alves

    “Quanto a viver com o actual sistema:

    Pelo menos temos de pedir um comportamento muito ortodoxo por parte do BC, como manter sempre taxas de juro reais que serão as normais, tipo, 2%.(embora, ninguém saiba qual a certa,da mesma forma que ninguém sabe qual o preço do pão mesmo que indexado e custos de matérias , etc)”

    Correcto (embora o 2% seja – necessariamente – guesswork).

  25. Carlos Duarte

    Caro AAA,

    Obrigado pela explicação. A minha questão não era sobre as bolhas que tinhamos hoje especificamente, era sobre a “mentalidade humana” 🙂 Passo a explicar:

    – A ideia de um sistema que se auto-regule parte sempre da acepção que a quebra de regras estabelecidas (tacitamente ou não) acarreta um prejuízo maior do que o seu não cumprimento.

    – O problema é que se isso fosse verdade, não existiria crime, pois em teoria este acarretará sempre um prejuízo maior que o eventual benefício.

    – Na realidade, e como não somos omniscientes ou omnipotentes, existe sempre uma probabilidade de alguém conseguir quebrar regras e “safar-se”.

    O “existir” de um padrão é irrelevante. O tipo de operações que levaram a esta confusão continuariam a acontecer mesmo com ouro – bastava “assinar” papéis em que prometia pagar x quilos de ouro “a pedido”. E como nestes casos, basta alguém se assustar e resolver fazer valer os papéis para se descobrir que, afinal, não existia tanto ouro como se pensava. Apenas promessas…

    Existe obviamente a alternativa de obrigar os bancos a apenas “passar promissórias” de ouro que efectivamente possuem… mas pode-se fazer exactamente agora o mesmo, bastanto acabar com o “leveraging”. E em ambos os casos são “regulações” externas ao mercado.

    O meu ponto continua o mesmo: TEM de existir regulação EXTERNA ao mercado, que não pode ser nem excessiva nem diminuta. Tem é de ser adequada.

  26. Carlos Duarte

    (Peço desculpa, carreguei no enviar por engano)

    O problema, AAA, é que o que os bancos fazem agora e dão nomes “complicados”, é o que os taverneiros faziam quando misturavam água com vinho, os padeiros quando cortavam à farinha, os ourives “misturavam” o ouro e por aí fora. E se o fizessem com cuidado, nem sequer era ilegal. Imoral era sempre, como foram muitas das operações que por aí andaram.

    Mas vou-lhe contar uma história:

    Havia um homem – originalmente dizia-se cigano, mas agora não se pode 😉 – que comprou um burro velho, quase morto, para vender a um cliente que lhe tinha perguntado se lhe arranjava um burro bom e forte. Escovou-o, pintou-lhe o focinho, pôs-lhe cal nos dentes e enfardou-o de palha. Foi à feira e vendeu-o por 10 vezes do que tinha comprado. O comprador nem chegou a casa, o burro morreu pelo caminho. Foi então reclamar com o homem, que lhe disse: “O Sr. queria um burro, eu fui, comprei e paguei. Peguei no burro, vendi e arrecebi. A partir daí, se ele morreu não é nada comigo.”

    Substítua burro por empréstimo e, já agora, retire inteligência ao vendedor, que acaba por comprar o burro que ele próprio vendeu por mais dinheiro do que recebeu por ele e veja aonde chega…

  27. CN

    ” E em ambos os casos são “regulações” externas ao mercado.”

    Está enganado.

    o contrato de depósito civil é apenas um contrato, não umj regulação.

    Pelo contrário, foi legislação externa que impôs que o contrato de depósito se transformasse em operação de crédito, ainda por cima sujeito a diluição dada a capacidade de criarem moeda.

    Ao menos podiam ter mudado o nome de depósito para outra coisa.

    E assim, o que resulta do livre contrato não é regulamentação exterior.

    Normalmente, o que a regulação faz é proibir a contratação livre, embora comece muitaz vezes apenas pro querer tipificar contratos e impor essas tipificações.

  28. CN

    E ainda mais quanto à regulamentação externa.

    Não acha estranho que tenha sido precisamente o “regulador” a regular que os Bancos passavam a ter apenas 2% – 5% da moeda que a totalidade dos detentores de moeda depositada pensam que têm?

    Aliás, não é estranho que ninguém tenha falado em aumentar as reservas , mesmo depois de falências bancárias (isto é, de bancos com depósitos) de grande dimensão?

    E isso não seria regulação..isto é, aumentar. Isso seria aproximar ou desfazer um bocadinho a imposição de regulação que passou a permitir as reservas parciais, que em si, representou um decaimento do “contrato civil de depósito”.

  29. Carlos Duarte

    Caro CN,

    Claro que é um contrato entre as partes, mas quem proíbe que os contraente mintam? Pois… Ao exigir que o banco tenha em reserva ouro para dar de volta a quem aceita a promissória, está a efectuar uma regulação.

    E que eu saiba, os reguladores exigem que o bancos tenham NO MÍNIMO 2-5% da moeda correspondente à soma dos depósitos. Não exige que o MÁXIMO seja esse valor… e se não regulassem, pode ter a certeza que existiriam muitos bancos com 0% ou perto disso… que iriam acabar por estourar e deixar muita gente na miséria… mas que, no fim, ninguém seria responsável e os “admnistradores” desses bancos (sim, porque responsabilidade individual foi uma coisa que foi janela fora de há uns tempos para cá) continuariam com as balanças bem pesadas!

  30. André Azevedo Alves

    “O problema, AAA, é que o que os bancos fazem agora e dão nomes “complicados”, é o que os taverneiros faziam quando misturavam água com vinho, os padeiros quando cortavam à farinha, os ourives “misturavam” o ouro e por aí fora. E se o fizessem com cuidado, nem sequer era ilegal. Imoral era sempre, como foram muitas das operações que por aí andaram.”

    Carlos Duarte,

    Se quer chamar “regulamentação externa” a obrigar as partes a fazer respeitar os contratos e combater a fraude, estamos de acordo e a discussão é só sobre a designação.

  31. JoaoMiranda

    ««Se quer chamar “regulamentação externa” a obrigar as partes a fazer respeitar os contratos e combater a fraude,»»

    Claro que em Portugal quando se fala em regulação não se está a falar disso. Está-se a falar na direcção do sistema financeiro pelos burocratas.

  32. Carlos Duarte

    Caros AAA,

    O problema é que muitas vezes a “fraude” não é ilegal. Fraude ilegal implica dolo, mas não é líquido que impeça “manobragem”. Nos exemplos que dei acima, qualquer um deles é muito “cinzento”: o taverneiro pode chamar ao vinho “vinho especial” (pois… com água), o padeiro continua a vender pão (pão é pão, independente do peso) e o ourives pode dizer que é uma joía de ouro (que não implica 100% ouro). Em ambos os casos a coisa resolveu-se com regulamentação externa, i.e., foi proibido cortar o vinho (tinha que se chamar outra coisa à mistura), o pão tinha de ter peso mínimo e o ouro tinha de ser contrastado. Ou seja, aumentou-se o nível de garantias sem prejuízo “real” do mercado.

    Trata-se pura e simplesmente de “nivelar” o terreno. É absolutamente extraordináro que esta crise resulte de bancos “livrarem-se” das suas dívidas – imunizando-se assim dos riscos – para as comprar de volta sob a forma de produtos financeiros “opacos”. Pensaram estar a atirar um pau para longe e o pau era um bruto de um boomerang. O problema aqui é apenas a opacidade das operações, “repackaging” e por aí fora.

  33. André Azevedo Alves

    “Claro que em Portugal quando se fala em regulação não se está a falar disso. Está-se a falar na direcção do sistema financeiro pelos burocratas.”

    Bem sei João. Em Portugal e não só…

  34. André Azevedo Alves

    “O problema aqui é apenas a opacidade das operações, “repackaging” e por aí fora.”

    Não Carlos, não é. Tal como na bolha das dotcom o problema não foi *apenas* o hype em torno da Internet.

    Aliás, tanto o hype em torno das dotcom como a epidemia do subprime foram mais sintomas do que causas.

  35. JoaoMiranda

    ««Nos exemplos que dei acima, qualquer um deles é muito “cinzento”: o taverneiro pode chamar ao vinho “vinho especial” (pois… com água), o padeiro continua a vender pão (pão é pão, independente do peso) e o ourives pode dizer que é uma joía de ouro (que não implica 100% ouro). Em ambos os casos a coisa resolveu-se com regulamentação externa, i.e., foi proibido cortar o vinho (tinha que se chamar outra coisa à mistura), o pão tinha de ter peso mínimo e o ouro tinha de ser contrastado. Ou seja, aumentou-se o nível de garantias sem prejuízo “real” do mercado.»»

    Gostava de saber como é que isso se faz no mercado de produtos financeiros em que os produtos não têm características objectivas.

  36. JoaoMiranda

    ««O problema aqui é apenas a opacidade das operações, “repackaging” e por aí fora.»»

    Como é que o regulador pode controlar todos as operações e todos os produtos possíveis? Vai eliminar a liberdade contratual nos mercados financeiros e reduzir tudo a produtos e operações tipificadas?

  37. Carlos Duarte

    Caro JM,

    Como se faz exactamente, não sei… pode eventualmente passar pela tipificação dos produtos, apesar de me parecer excessivo. Pode sim, impor um limite máximo a operações complexas (i.e. cujos constituintes não são facilmente conhecidos e em que o risco não é facilmente balizavel), de forma a garantir um módico de estabilidade.

    Caro AAA,

    Agradecia que explicasse como esta crise (ou a das dot-com) foram um sintoma e não uma causa.

  38. JoaoMiranda

    ««Pode sim, impor um limite máximo a operações complexas (i.e. cujos constituintes não são facilmente conhecidos e em que o risco não é facilmente balizavel), de forma a garantir um módico de estabilidade.»»

    Isso implica que acima desse volume todos os contratos entre instituições financeiras têm que ser escrutinados para se determinar a complexidade da operação. Implica também que as instituições não podem transferir para o mercado a avaliação de riscos pouco conhecidos. Implica uma redução significativa da inovação financeira. A actividade financeira deixa de ser uma actividade criativa para ser uma actividade semi-morta. Implica a criação de uma série de práticas que visem contornar essa nova regra. Muitos dos produtos financeiros estranhos são instrumentos que servem para contornar a regulamentação já existente. Existindo uma grande diversidade de instrumentos financeiros é sempre possível contornar as proibições dos reguladores através de uma conjugação equivalente de outros instrumentos.

  39. CN

    “Agradecia que explicasse como esta crise (ou a das dot-com) foram um sintoma e não uma causa.”

    Uma bolha como todas as outras na história fomentada pela expansão de crédito por criação monetária, o que confere a ilusão à economia que existe a poupança para sustentar tais investimentos a longo prazo.

    Se quiser ver isso pela óptica das taxas de juro, estas são artificialmente baixas o que dá a impressão que muitos projectos de investimento são sustentáveies e rentáveis por ul mado, e pelo outro lado, desencorajam a poupança. É fácil de perceber que mais tarde ou mais cedo, a expansão tem de parar e a bolha rebentar.

    Expansão de crédito por criação monetária cuja intensidade é possível dado a presença dos regulador Bancos Central.

  40. Manel

    Já agora uma curiosidade:

    Hoje é o aniversário da data (1931) em que o Banco de Inglaterra abandonou o gold standard:

    “The Bank of England dropped the gold standard, and the pound sterling promptly lost 28 percent of its value, undermining the solvency of countries in eastern Europe and South America.”

    via Britannica

  41. CN

    “Abandonar” é um eufemismo próprio (para Roubo) de tudo que tem origem no poder unilateral de decidir o que é Direito.

    As pessoas têm notas que dizem “vale uma moeda de ouro”, depois vem alguém e diz que “abandonou o padrão ouro”.

    Vou montar um negócio de depósito de jóias, passando recibos desses depósitos, depois vender esses recibos com se de jóias tratassem (slogan: “Ofereça certificados de depósito de jóias, muito mais conveniência e segurança”) e depois, um dia que tenha muita gente a querer levantar as mesmas jóias vou proclamar: “abandonei o padrão joias”.

    É esta a história da banca e dos bancos centrais.

  42. Carlos Duarte

    Caro JM,

    E depois? Sinceramente se há coisa que NÃO me preocupa é que a actividade bancária deixe de ser “criativa”. A “creatividade” é que nos põe nestes arranjos. A actividade bancária é um mal necessário, NÃO um bem. Se for exercida com honradez, é uma necessidade de qualquer economia que benefícia todos os intervenientes. Se apenas for um “esquema” para gerar dinheiro do nada (como tem sido), então eu dispenso bem…

    Caro CN,

    Tudo bem, estamos de acordo… o que isso tem a ver com regulação? Sinceramente, eu percebo a ideia dos bancos centrais como mecanismos para “amortecer” choques sociais, um bocado na linha do Bundesbank e NÃO na linha do FED.

  43. André Azevedo Alves

    “Sinceramente, eu percebo a ideia dos bancos centrais como mecanismos para “amortecer” choques sociais”

    Como é que uma entidade que potencia a criação de ciclos económicos e redistribui arbitrariamente riqueza via inflação “amortece” choques sociais?

    Eu percebo a ideia dos bancos centrais independentes se a ideia for limitar o potencial de apropriação de recursos por via inflacionista, mas “amortecer” choques sociais, sinceramente não vejo como…

  44. André Azevedo Alves

    “um bocado na linha do Bundesbank e NÃO na linha do FED”

    Na prática, as diferenças são muito reduzidas (presumo que tivesse em mente o BCE e o Fed).

  45. Carlos Duarte

    Caro AAA,

    Por ordem das perguntas:

    – Os bancos não acrescentam valor a nenhum produto. O seu papel é (apenas) de simplificar as transações comerciais (por um lado) e servir de repositório “seguro” para essas mesmas transações. Dentro de alguns limites, até admito que sirvão de catalisador para as transações (via empréstimos). Em qualquer um dos casos, estes representam um custo face a um sistema teórico ideal. Mas como o sistema não é ideal são, efectivamente, um mal necessário.

    – Em relação ao papel dos bancos centrais, é exactamente isso. Controlar a massa monetária para evitar espirais inflacionistas que resultam SEMPRE em choques sociais.

    – Quanto à última questão, eu referia-me efectivamente ao Bundesbank. O BCE tem demasiada influência francesa (“dinamizar a economia”) para o meu gosto.

  46. JoaoMiranda

    ««Os bancos não acrescentam valor a nenhum produto.»»

    Se não acrescentam valor, deviam ser eliminados.

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