Imaginemos um país, a Leitónia, onde existe um mercado importante de leite. Por simplicidade, assumamos que neste país, por quaisquer razões, não é viável importar ou exportar leite. Adicionalmente, a capacidade de aumentar a produção é limitada, pois não há mais espaço para ter muito mais vacas. O mercado está equilibrado: Os produtores produzem uma quantidade Q1, que através de um sistema de retalho é vendido aos consumidores leitões ao preço P1.
Um bem intencionado político decide que para promover a qualidade de vida dos leitões, o preço do leite devia baixar, para um preço P2<P1. Para tal ser viável a quantidade de leite vendida teria de ser Q2>Q1. Infelizmente, dadas as restrições na produção, não é possível produzir essa quantidade, pelo que o mercado continua a funcionar no equilíbrio P1/Q1.
Mas isto não detém o nosso idealista. Num gesto magnânimo e progressista, para garantir o acesso democrático ao leite, ele nacionaliza a sua produção. Mas só a produção. Defensor de uma economia mista, regulada, e onde o estado apenas é proprietário de sectores críticos para o interesse nacional, o nosso amigo mantém um sistema de retalho competitivo privado, que garante que para o preço P2 pretendido, de venda ao público, as condições serão tais que permitirão ao produtor estatal (chamemos-lhe Centralact) vender a grosso a um preço que apenas assegure um retorno de capital normal aos retalhistas (em “economês”: sem rendas económicas).
O novo preço P2<P1 tem como resultado um aumento da procura de leite. Quando maior a baixa de preço mais criativos se tornam os leitões na utilização do produto. Batidos, molhos, gelados e outras sobremesas lácteas passam a fazer parte dos seus hábitos diários. Durante algum tempo todos andam felizes e contentes. Um dia começa a haver falhas de fornecimento. Surgem prateleiras vazias. Não há produção que chegue.
Com a finalidade de impedir uma ruptura dos novos mercados de batidos, gelados, etc, o estado leitão autoriza os retalhistas a diluir ligeiramente o leite com água para aumentar o volume. Praticamente não se nota a descida de qualidade. Durante algum tempo a coisa fica estabilizada. Às tantas, a pressão dos retalhistas sobre a Centralact faz com que a última comece ela própria a juntar água ao leite antes de o vender à distribuição. A quantidade de leite disponível aumenta novamente. Alguns consumidores começam a aperceber-se da inferior qualidade.
Colocadas as coisas nestes termos, julgo que a maior parte das pessoas entende a razão pela qual a fixação de preços está errada. Não é preciso ser um liberal “absolutista” ou “purista” para perceber que preços mantidos artificialmente baixos distorcem o mercado; mesmo que esteja por trás a melhor das intenções políticas. No entanto, se substituirmos “leite” por “moeda”, “Centralact” por “Banco Central” e “retalhistas” por “bancos”, a opinião das pessoas é radicalmente diferente. Já acham que o mercado monetário é um exemplo de capitalismo desenfreado, dogma de mercado e falta de regulação.
Letónia, leite, leitões. Obrigado pelo momento de boa disposição.
O «começam a haver» também não está nada mal.
Só uma reparo: diz-e nas aldeias leiteiras que o que desdobra bem o leite é a urina, não a água…
🙂
««Alguns consumidores começam a aperceber-se da inferior qualidade.»»
Isto é excelente para a indústria de concentração de leite. Sugiro uma nova versão em que para alem da industria de gelados apareça também a industria de concentração de leite que visa compensar a diluição de leite.
Já agora, muita da actividade do sector financeiro visa contrariar os efeito da inflação da moeda. As casas financeiras prestam serviços deflatórios a quem, noutras circunstâncias, lhe bastaria meter dinheiro debaixo do colchão para obter o mesmo efeito.
-Post brilhante, dos melhores, mais divertidos, mas também didácticos que li esta semana. O socialismo é sempre caro, sob a forma de preço ou qualidade, saimos sempre a perder onde ele existe.
«Só uma reparo»
Isto também não está nada mal. Este rainha é outro tiaguinho mendes, um triste.
Já agora, pronto, LETÕES.
Pois… mas a estória está mal contada se falarmos de combustíveis… ai fingiram privatizar mas continuaram a segurar “pelos tomates” (leia-se golden share), para além de taxarem absurdamente…
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Jason Statham,
Sem querer defender ninguém apontar erros desse género é tão picuinhas que mete dó.
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