“Ideias have consequences” (Richard M. Weaver, 1948, University of Chicago Press)

O Rui Tavares escreve que, na sua opinião, as ideias têm sempre consequências. Para concluir, a dada fase, que “(…) é suposto levar a sério o desprezo dos republicanos pelos “intelectuais” (…)”.

Não deixa de ser divertido ver o Rui Tavares a recorrer ao “Ideias have Consequences”, uma das bíblias do pensamento conservador (o “pai” do “Ideas have Consequences”, uma das obras mais citadas nos EUA, Richard M. Weaver, filósofo da Escola de Chicago, é um dos expoentes máximos do conservadorismo americano), para criticar Palin e os republicanos, e suportar Obama, acrobacia ainda assim apenas possível num jornal português.

Também só por cá se pode acusar os Republicanos de desprezo pelos intelectuais. Na verdade, uma das críticas mais ferozes que tem sido feita, recorrentemente, ao consulado Bush, diz respeito à demasiada “entrada” dada pelo Presidente às ideias dos mais radicais e dogmáticos filósofos e politólogos neoconservadores, que, sobretudo no primeiro mandato, inundaram a Casa Branca. Um dos artigos mais críticos e mordazes lançados contra o movimento neoconservador que dominou o consulado Bush assenta precisamente nesta linha e foi publicado por Lexington, em Setembro de 2004, na “The Economist“:

” (…) ONE of the canonical texts of the American conservative movement is Richard M. Weaver’s “Ideas Have Consequences” (1948). Four years ago, few people expected that ideas would have any consequences for the new Bush administration—particularly neo-conservative ideas. George Bush came across as a genial cowboy with more interest in ranching than reading. And the neo-cons—many of whom are secular Jewish intellectuals—looked like fish out of water in a party dominated by evangelical Christians and hard-headed business people (…) “.

“Ideias have consequences”? Sim, sem dúvida. E gosto de ler o Rui Tavares, na linha de Weaver, a argumentar no quadro mental da mais profunda crítica conservadora americana, na Escola de Chicago que bebe em Leo Strauss.

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25 pensamentos sobre ““Ideias have consequences” (Richard M. Weaver, 1948, University of Chicago Press)

  1. bem, RAF, há pessoas que lêem autores e livros pelo valor do seu conteúdo e não pela gavetinha ideológica onde se encontram. um dos livros mais importantes que já li (e reli) na minha vida chama-se Persecution and the art of writing… de Leo Strauss. Li-o pela primeira vez em 2000, quando George W. Bush ainda era um mero governador do Texas entretido em difamar John McCain nas primárias republicanas, antes do 11 de Setembro e do ascendente neo-con (embora, curiosamente, descobri o livro bem perto das torres gémeas). E não foi o único de Strauss que li, embora seja para mim o melhor.

    e sim: acho que as ideias têm consequências. as ideias boas têm mais probabilidade de ter boas consequências. as más ideias têm más consequências. e o weaver não foi a primeira pessoa a aperceber-se disso.

    quanto ao anti-intelectualismo do partido republicano — não me diga que não assistiu à convenção. eu assisti.

  2. Caro Rui Tavares,

    Não me surpreende que o Rui Tavares, situando-se à esquerda, goste das obras de Weaver e Strauss, que são platonistas (o próprio Weaver teve, julgo, tentações de esquerda), e que têm uma concepção da politica que não foge muito da aristocracia marxista. Já achar que o “Ideas have Consequences” pode ser utilizado para atacar os republicanos e sustentar a Obamamania é que me parece uma tese um bocado para o pioneiro, mas aceito posições diferentes, vivemos na era da criatividade.

    Quanto à sua frase, “bem, RAF, há pessoas que lêem autores e livros pelo valor do seu conteúdo e não pela gavetinha ideológica onde se encontram”, diria que ela tem muito que se lhe diga, mas hoje acho que já o incomodei o suficiente, vou poupá-lo um bocadinho.

    Sempre a considerá-lo,
    RAF

  3. Tem muito que se lhe diga, sim. Há também uma diferença entre gostar de um livro, achá-lo muito importante, e concordar ou discordar dele. É abusivo, por exemplo, inferir que de um tipo de esquerda seja platonista ou, pior ainda, defenda uma concepção aristocrática da acção política (“vanguardista”, no jargão leninista) — que eu, pelo contrário, rejeito. É aliás das principais razões por que não sou marxista e nunca poderia ser neo-conservador. Gosto do Leo Strauss, entre outras razões, porque é um bom historiador da filosofia, porque o Persecution and the Art of Writing é uma belíssima lição de interpretação de textos filosóficos, e até porque o meu trabalho como historiador me leva a reconhecer que o Leo Strauss tem razão “empírica” numa série das suas intuições. Não tenho de concordar com a aplicação contemporânea dos seus textos, com a bondade de usar um sentido esotérico e outro exotérico nos textos, com a sua teoria do conhecimento nos grupos de iniciados… e por aí adiante.

    Quanto à ideia de que “as ideias têm consequências” ela é tão simples que não me parece que tenha grande etiqueta ideológica. É preciso ser conservador ou platonista para perceber que as ideias têm consequências?

  4. CN

    Weaver, tal com o sociólogo conservador Robert Nisbet, e Russel Kirk a última lufada de ar do conservadorismo real american antes de este ser conquistado pelo neo-conservadorismo cuja inspiração sabemos vai de Trotsky a Leo Strauss.

    Por exemplo, Weaver era um hostoriador admirador da cultura sulista e até da causa sulista (pecado absoluto)para o culto de Lincoln praticado por os que vieram depois).

    Citações:

    “One cannot feign surprise, therefore, that thirty years after the great struggle to consolidate and unionize American power, the nation embarked on its career of imperialism. The new nationalism enabled Theodore Roosevelt, than whom there was no more staunch advocate of union, to strut and bluster and intimidate our weaker neighbors. Ultimately it launched American upon its career of world imperialism, whose results are now being seen in indefinite military conscription, mountainous debt, restriction of dissent, and other abridgments of classical liberty.”

    Theo, depois de Lincoln e antes de Wilson, Roosevelt e Truman,faz parte das grandes referências, capazes de praticar a “nobel lie” que Strauss achava fazer parte do arduo dever da política.

    Parece por exemplo que gostava de citar o vice presidente da Confederação:

    “If centralism is ultimately to prevail; if our entire system of free Institutions as established by our common ancestors is to be subverted, and an Empire is to be established in their stead; if that is to be the last scene of the great tragic drama now being enacted: then, be assured, that we of the South will be acquitted, not only in our own consciences, but in the judgment of mankind, of all responsibility for so terrible a catastrophe, and from all guilt of so great a crime against humanity.”

    Weaver, Kirk e Nisbet foram atirados para o esquecimento. “Ideas have consequences” ficou materializado empiricamente na carreira do neo.conservadorismo que começa no pós-WWII.

    Eu fico por Kirk: “ideology is like an inverted religion”

  5. André Azevedo Alves

    Carlos,

    É verdade que foram atirados para o esquecimento, mas, no caso de Kirk, não será uma perda especialmente dramática…

  6. lucklucky

    Como é que um “entire system of free Institutions” deixa existir escravatura que é por definição algo forçado?

  7. CN

    lucklucky

    Você quer deitar a declaração de independência e a constituição americana fora porque os founding fathers tinham escravos?

    Não vou iniciar aqui uma discussão sobre os motivos da Guerra entre Estados e a motivação de Lincoln versus Jefferson Davis

    Mas sempre posso dizer que Marx era a favor do Norte e Hitler elogiou Lincoln no Mein Kampf (a União precede os Estados, etc e tal). Quanto ao Sul tinha Lord Acton e Charles Dickens.

  8. Caro Rui Tavares,

    “Tem muito que se lhe diga, sim. Há também uma diferença entre gostar de um livro, achá-lo muito importante, e concordar ou discordar dele. É abusivo, por exemplo, inferir que de um tipo de esquerda seja platonista ou, pior ainda, defenda uma concepção aristocrática da acção política (”vanguardista”, no jargão leninista) — que eu, pelo contrário, rejeito. É aliás das principais razões por que não sou marxista e nunca poderia ser neo-conservador. Gosto do Leo Strauss, entre outras razões, porque é um bom historiador da filosofia, porque o Persecution and the Art of Writing é uma belíssima lição de interpretação de textos filosóficos, e até porque o meu trabalho como historiador me leva a reconhecer que o Leo Strauss tem razão “empírica” numa série das suas intuições.”

    Concordo. Mas o Rui Tavares é que optou por suportar o seu post numa das ideias centrais de Weaver, precisamente no contexto em que ele é aplicável, o da arena política norte-americana, e ainda por cima para criticar uma ausência de ideias no campo republicano, em favor de Obama, o que por mais Strauss que leia, e mais empirismo que este lhe inspire, é objectivamente um disparate.

    “Quanto à ideia de que “as ideias têm consequências” ela é tão simples que não me parece que tenha grande etiqueta ideológica. É preciso ser conservador ou platonista para perceber que as ideias têm consequências?”

    O “ideas have consequences”, no contexto em que o Rui Tavares o enquadra, não é uma ideia simples: e tem uma etiqueta ideológica, é uma das marcas mais fundamentais do conservadorismo, uma das obras mais citadas no pós segunda guerra, e nos últimos anos tem implícito o platonismo neoconservador. O Rui Tavares, tivesse publicado o seu texto num jornal americano, sob o mesmo tema, para defender Obama, e teria sido trucidado.

    Ab
    RAF

  9. RAF, desculpe lá mas a sua leitura da minha crónica é especialmente confusa. eu não critico os republicanos por ausência de ideias, meu caro, critico-os por ausência de realidade. e o meu “ideias têm consequências” não significa que eu optei “por suportar o [meu] post numa das ideias centrais de Weaver”. já lhe disse que é um argumento elementar, que no caso vinha da crónica anterior e da necessidade de afinar as ideias após a recente crise financeira. a primeira crónica está aqui

    http://5dias.net/2008/09/04/mais-novo-progressismo-e-uma-campanha-pouco-seria/

    e a segunda está aqui:

    http://5dias.net/2008/09/09/uma-coisa-chamada-realidade/

    a ideia de que as “ideias têm consequências”, por si só, pode levar ao solipsismo ideológico. por isso senti necessidade de temperar na segunda com algumas considerações sobre a relação necessária entre ideias e realidade. nem sequer é, nesse início, um ataque contra a direita, mas até contra as tendências solipsistas da esquerda (a começar pelos marxistas) e, num modo geral, contra os excessos da ideologia. bem longe, portanto, de qualquer neoplatonismo. é simples, meu caro.

  10. “e suportar Obama”

    “Support” traduz-se em Português por “apoiar”, e não por “suportar”. Já não é a primeira vez que leio isto, e é por isso que faço o reparo. Andam a ler demasiado Inglês…

  11. HO

    O “Ideas have Consequences” do Prof. Weaver é uma defesa do platonismo; ou, com mais precisão, do realismo (na acepção platónica) contra o nominalismo e o conceptualismo. É neste contexto que a expressão deve ser utilizada – ou que ele a utilizou. Aflige-me sempre vê-la empregue noutros, embora daí não venha grande mal ao mundo. Mas o mote “ideas have consequences” tem, ou pode ter, um significado mais rico e complexo do que uma mera banalidade incontroversa.

    Já agora, não creio que o RAF acerte ao filiar o Prof. Weaver numa “Escola de Chicago”. Essa expressão tem um significado bem preciso, na Economia e meta-economia, na sociologia e até mesmo na filosofia, se quisermos abrigar Strauss/Bloom, Hutchins, Adler e Cª sob o mesmo chapéu. Mas se eu já tenho dificuldades com a corrente entre Strauss, os neo-conservadores de 1ª geração e os neo-conservadores da Administração Bush, não vejo necessidade nenhuma de meter o Weaver ao barulho. Ele deu aulas numa faculdade em Chicago, é certo; mas faria bastante mais sentido filiá-lo numa “Escola de Vanderbilt”. Aliás, aquilo que une Weaver e Strauss – a crítica à modernidade a partir da afirmação dos universais e da norma transcendente e a recusa das tradições num sentido mais burkeano; ou do “conhecimento a partir do individuum” e do “convencionalismo”, como eles diriam -, é ultrapassado pelo que os separa, em particular a concepção radicalmente a-histórica do Strauss e a antinomia que daí nasce. Ou sou eu que sobrestimo esta diferença porque, mesmo não considerando o pensamento de Weaver particularmente poderoso, e achando-o um bocado coxo (falta a síntese), preferir largamente o Tradicionalismo deste a Strauss, embora percebendo pouco o segundo.

    Também é francamente exagerado o estatuto que o RAF dá ao Prof. Weaver e ao Ideas Have Consequences. Não é assim tão citado e, hoje em dia, está longe de ser uma bíblia, se é que alguma vez o foi. E não me parece mal. Se aquilo que o Gerald Baker recentemente rotulou como “Western Conservatism” for bem sucedido (espero que sim, embora as hipóteses sejam poucas), a caução filosófica mais facilmente se encontrará em Kekes do que nas luminárias do costume. Algo ironicamente, a obra do Prof. Weaver pouco significará num mundo em que a conexão entre Federigo Fregoso e Gerald O’Hara não seja referência para ninguém.

    Mas o debate sobre o desprezo do GOP, e do movimento conservador norte-americano, pelos intelectuais deve ser feito dentro de limites mais paroquiais. O cepticismo quanto aos grandes e abstractos sistemas de ideias, pela especulação conceptual, pertence ao código genético do conservadorismo desde Burke. Mas é evidentemente errado entender isto como anti-intelectualismo. Como será errado identificar o anti-intelectualismo com a recusa do racionalismo, do gnosticismo ou da ideologia – para utilizar uma expressão lá da casa, da religião invertida. Ou com o amor à humildade e a recusa do artifício. Estes tipos de anti-intelectualismo têm uma rica tradição intelectual: Montaigne era um feroz anti-intelectual, por exemplo.

    Existe desde sempre uma forte pulsão anti-intelectual na América (Hencken escreveu coisas divertidas sobre isso), provavelmente um legado de Wesley, na perspectiva parcial e discutível de um católico (que também encontra na herança deixada pelos puritanos às sociedades anglo-saxónicas coisas muito positivas). Isso não é necessariamente mau. Pedindo emprestada a imagem utilizada por um intelectual europeu, Hitler não teria muito sucesso em Maycomb, Alabama. É frequentemente saudável e benigna, esta indiferença pelos intelectuais. Quando Buckley afirmou que preferia ser governado pelos “first 100 names in the Boston phone directory than by the entire faculty of Harvard University”, não estava a fazer uma apologia do anti-intelectualismo (Buckley era mais um publicista do que um filósofo, mas não deixava de ser intelectualmente brilhante), mas a demonstrar desprezo pelo establishment académico liberal. Isto também não é anti-intelectualismo, nem é exclusivo dos conservadores: uma progressista como a Paglia (que, estando longe do pináculo da intelectualidade, não é uma anti-intelectual), faz essa mesma crítica. Quanto muito, há um toque de anti-cosmopolitismo; mas esse é bastante mais distintivo em, por exemplo, Weaver: num caso e noutro não tem nada de anti-intelectual.

    Este mito do anti-intelectualismo do movimento conservador americano deve-se essencialmente ao Hofstadter, que traçou um condescendente retrato dos conservadores, e em particular dos conservadores das pequenas comunidades, como uns maluquinhos paranóicos e fanáticos envolvidos num psico-drama sociopatológico. Esta tese continua a prevalecer na Europa e nas redacções e nas universidades norte-americanas. Há ecos disto mesmo nas declarações do Obama em San Francisco sobre a Middle America, por exemplo. Ora, é à reacção a esta condescendência burra, analfabeta e mal-educada que depois chamam “anti-intelectualismo” e desprezo pelos intelectuais. Go figure…

    Antes de morrer, o Hofstadter teve a oportunidade de perceber, verificando-o in loco, que o verdadeiro anti-intelectualismo, na sua forma mais virulenta e perigosa, estava afinal dentro das suas queridas faculdades, motorizado pelas inefáveis elites bem-pensantes da esquerda – por ele próprio, que não viveu o suficiente para ser apodado de anti-intelectual pelos seus antigos aliados. Por aí continua até hoje. Eu tenho dificuldades em conceber algo mais anti-intelectual e deslocado da realidade do que, sei lá, proibir a importação de brinquedos (ou roupas) da China. Não só é anti-intelectual como apela ao pior, ao aspecto mais maligno, daquela pulsão anti-intelectual disseminada pela sociedade norte-americana. Enfim, um caso clássico de projecção…

  12. CN

    HO, obrigado pelo seu comentário onde como sempre, todos aprendemos muito.

    Na direita o que me parece que se passou, foi a repudiação (é mais por de lado) dos conservadores intelectuais (como Nisbet) que dizem coisas como esta (não, não está a falar do – ou apenas – militarismo nazi, mas da crescente militarização “intelectual” americana, da direita, do centro e da esquerda):

    “Between military and civil values there is, and always has been, relentless opposition. Nothing has proved more destructive of kinship, religion, and local patriotisms than has war and the accompanying military mind. Basic social institutions can, on the incontestable record, survive depression, plague, famine, and catastrophe. They have countless times in history. What these and related institutions cannot survive is the transfer of their inherent functions and authorities to a body such as the military….”

    “kinship, religion, and local patriotisms” é coisa que hoje está submergida numa espécie de novo nacionalismo americano e que gosto de classificar como de “extremismo ao centro”.

    A defesa dos valores certinhos (democracia, tolerância ao aborto e fronteiras +/- abertas, os direitos das mulheres, etc) por meios de crescente militarização / política de defensa externa e interna agressiva.

  13. HO

    Caro CN,

    “Na direita o que me parece que se passou, foi a repudiação (é mais por de lado) dos conservadores intelectuais (como Nisbet) que dizem coisas como esta (não, não está a falar do – ou apenas – militarismo nazi, mas da crescente militarização “intelectual” americana, da direita, do centro e da esquerda)”

    Não sei, creio que não. Essa citação do Nisbet poderia ter como autor qualquer outro conservador. Que a guerra e o militarismo são, numa perspectiva histórica, fenómenos perniciosos para as liberdades, tradições e instituições sociais é uma tese relativamente pacífica. Mas o Nisbet ficou por aí? Essa citação é do “Uneasy Cousins”? Ou talvez do “The Present Age”? Isto porque, por exemplo no Uneasy Cousins, o Nisbet afirma isso, mas rapidamente estabelece uma diferença fundamental entre conservadores e libertários nesta matéria – o nacionalismo e a questão da defesa nacional. Ele dedica alguns parágrafos muito recomendáveis ao assunto. O problema estará na tentação de extrair axiomas e dogmas a partir de posições que são prudenciais e não de princípio. Aliás, eu noto em certos círculos uma tendência para fazer o revisionismo das posições de algumas figuras do movimento conservador americano. Kirk, Nisbet… o próprio senador Taft, que queria invadir e bombardear a China e escreveu um livrinho sobre política externa em que enunciava, com umas décadas de antecipação, os princípios do que o CN hoje chamaria “neo-conservadorismo militarista” ou coisa que o valha.

    “A defesa dos valores certinhos”

    Sim, aqui concordo. É o ar dos tempos. Há uma certa tendência para arrumar autores que possam ser percebidos como anacrónicos. Mas, retomando o fio perdido do anti-intelectualismo na sociedade norte-americana, o panorama é bastante mais deprimente na Europa. Ainda se vai falando de Weaver, mas, por exemplo, sobre Ludovici, outro Tradicionalista Agrário (ainda que menos profundo e tendo defendido teses absolutamente detestáveis), é o silêncio total. Não foi um acaso ter sido uma americana a perguntar “Who now reads Macaulay?”.

  14. HO

    “Em reforço à referência do HO à Camille Paglia, o seu (dela) artigo sobre Palin está muito bom”

    Pois está (excepto a parte da Madonna 😉 ). Uma boa demonstração de que, com mais ou menos intelectualidade, o fundamental é a honestidade. Eu discordo da Paglia em quase tudo, mas a honestidade e respeitabilidade intelectual dela é inabalável. Um excelente exemplo de um espírito livre e debatente.

    Compara-se isto:

    “Over the Labor Day weekend, with most of the big enchiladas of the major media on vacation, the vacuum was filled with a hallucinatory hurricane in the leftist blogosphere, which unleashed a grotesquely lurid series of allegations, fantasies, half-truths and outright lies about Palin. What a tacky low in American politics — which has already caused a backlash that could damage Obama’s campaign. When liberals come off as childish, raving loonies, the right wing gains. I am still waiting for substantive evidence that Sarah Palin is a dangerous extremist. I am perfectly willing to be convinced, but right now, she seems to be merely an optimistic pragmatist like Ronald Reagan, someone who pays lip service to religious piety without being in the least wedded to it. I don’t see her arrival as portending the end of civil liberties or life as we know it.”

    com o post do Rui Tavares em que são papagueadas as “allegations, fantasies, half-truths and outright lies about Palin”.

  15. CN

    “Que a guerra e o militarismo são, numa perspectiva histórica, fenómenos perniciosos para as liberdades, tradições e instituições sociais é uma tese relativamente pacífica.”

    HO, se a tese é pacífica não se dá por ela. Só se lembram dela para o aplicar à sua simbologia (Hitler). No espelho não reconhecem nada.

    Não existe revisionismo de Taft, mas não será seguro dizer que seria hoje opositor ao neo-cons., como seria Kirk de forma mais barulhenta (chegou a confidenciar que Bush-pai deveria ser julgado como criminoso por causa do Golfo I) e Nisbet de forma mais intelectual?

    “O problema estará na tentação de extrair axiomas e dogmas a partir de posições que são prudenciais e não de princípio. ”

    Não existem dogmas, mas os tais princípios prudenciais estão completamente ignorados (“we are all georgians?” ou a NATO a meter-se em zonas imemoriavelmente instáveis)?

    PS: Já agora, não costuma/gosta de ler o http://www.takimag.com (a nova casa dos paleos…intelectuais) ?

  16. HO

    “Não existe revisionismo de Taft, mas não será seguro dizer que seria hoje opositor ao neo-cons., como seria Kirk de forma mais barulhenta (chegou a confidenciar que Bush-pai deveria ser julgado como criminoso por causa do Golfo I) e Nisbet de forma mais intelectual?”

    Que neo-cons? Acho que não. O Taft, em particular, defenderia as teses que lhe assegurassem mais votos (na perspectiva dele, nunca foi muito bem sucedido nesse jogo).

    Leia a última página deste ensaio do Nisbet:

    http://www.mmisi.org/ma/24_01/nisbet.pdf

    Creio que é uma aproximação decente à tradição política do consevadorismo (não só, mas essencialmente o norte-americano) neste domínio. É muito diferente de algumas teses defendidos pelos chamados paleocons.

    “Não existem dogmas, mas os tais princípios prudenciais estão completamente ignorados”

    Isso é outra questão. Podem ter sido tomadas decisões erradas. Mas é claro que algumas mundividências políticas são absolutamente dogmáticas. Kirk faz uma excelente descrição disso mesmo num famoso ensaio que certamente conhece.

    “PS: Já agora, não costuma/gosta de ler o http://www.takimag.com (a nova casa dos paleos…intelectuais) ?”

    Sim, embora esteja longe de ser uma prioridade. Mas quando tenho tempo até o Raimondo leio. Naturalmente, discordo de quase tudo.

  17. HO

    “É verdade que foram atirados para o esquecimento, mas, no caso de Kirk, não será uma perda especialmente dramática…”

    Cá está! Mais um exemplo da condescendência do establishment académico face aos conservadores! 😀

  18. André Azevedo Alves

    “Cá está! Mais um exemplo da condescendência do establishment académico face aos conservadores!”

    Ouch! Essa doeu… 😉

  19. CN

    Nisbet: “I believe a state of mind is developing among
    libertarians in which the coercions of family,
    church, local community, and school will
    seem almost as inimical to freedom as those of
    the political government. If so, this will most
    certainly widen the gulf between libertarians
    and conservatives.”

    Acho que Nisbet (com toda a razão e mais alguma) exprime aqui toda a objecção que os paleo-libertarians (incluindo de inspiração em Rothbard) tiveram a partir de certo momento com os left-libertarians (bem representados no Cato).

    Rothbard cortou com o Libertarian Party (que fundou) e com o Cato (que fundou) por causa disso mesmo.

    “Creio que é uma aproximação decente à tradição política do consevadorismo (não só, mas essencialmente o norte-americano) neste domínio. É muito diferente de algumas teses defendidos pelos chamados paleocons.”

    Não acho nada disso, muito pelo contrário. Como diz Hoppe, a conservative must be libertarian, and a libertarian must be a conservative.

  20. CN

    Quanto a Kirk a minha maior objecção é ter negado que o primeiro livro de Edmund Burke foi escrito sinceramente como um “natural-law “anarquista (que Rothbard creio, demonstrou).

    De resto, a classificação de Burke como um conservador deixa muito a desejar.

  21. HO

    CN,

    Por alguma coisa eu referi expressamente a última página. É nela que Nisbet endereça o tópico de que tratamos:

    “War is, above any other force in history, the basis of centralization and collectivization of the social and economic orders. No conservative can relish, much less seek, war and its attendant militarization of social and civil spheres of society. Unfortunately we do not live in a clement world so far as conservative and libertarian ideals are concerned. It is a world in which despotisms as huge and powerful as the Soviet Union and China survive and prosper-at least in political and diplomatic respects. For the United States to ignore or to profess indifference to the aggressive acts of these and many other military, aggressive despotisms would be in time suicidal. As Montesquieu wrote in a different context: it takes a power to check a power. Nothing short of a strong, well armed, alert and active American nation can possibly check the Soviet or Chinese or Cuban nation. (…)

    No conservative to my knowledge has ever renounced or reviled the nation, conceived as a cultural and spiritual, as well as political entity. Burke adored the nation. (…)

    The weakness of American government right now in the world of nations, a weakness that increasingly draws contempt and distrust from nations we desire close cooperation with,and the dearth of leadership in America in whatever sphere, are rooted in a nation that shows increasing signs of moribundity.
    Libertarians, whom I herewith stipulate to be as patriotic and loyal American as any conservatives, do not, in my judgment, see the national and world picture as I have just drawn in. For them the essential picture is not that of a weakened, softened, and endangered nation in a world of Soviet Unions and Chinas and their satellites, but, rather, an American nation swollen from the juices of nationalism, interventionism and militarism that really has little to fear from abroad. (…)

    Conservatives will, or certainly should, also be alert to these dangers and seek with every possible strength to reduce them, all the while the American nation is recovering its lost leadership, in domestic as well as international affairs. But for conservatives the overriding, the supreme danger will be, I
    imagine, and personally hope, the danger posed by current American weakness in a world of dangerously aggressive military despotisms. Nothing at the moment suggests that this consideration will be overriding for libertarians. And it is on this rock above all others I have mentioned that conservatives
    and libertarians will surely break off altogether what has been at least from the start an uneasy relationship.”

    O que o CN fez foi identificar Nisbet com as duas primeiras frases dos trechos citados e obliterar tudo o resto que se segue à palavra “unfortunately” (e, como disse, esta prática é bastante comum entre certos círculos). O contraste que Nisbet traça é fulcral. É a incompreensão disso que, a meu ver, conduz alguns liberais a defenderem causas profundamente anti-liberais: saudarem Khrushchev, festejarem a queda de Saigão ou a tomada do poder por Pol Pot, incensarem Putin ou regojizarem-se pela morte de soldados norte-americanos no Iraque.

    É a luz da tese que Nisbet expõe que deve ser entendida a expressão “questões prudenciais”. O significado actual e corrente de “prudência” é bastante diferente – quase oposto – ao significado clássico (Weaver teria coisas interessantes a dizer sobre isto). Prudência, conforme deve ser entendida, é a arte de decidir bem e adequadamente, com virtude; não cautela (e muito menos indecisão), como é hoje entendida. Recta ratio agibilium, como escreveu Aquino. E esta razão actua sobre coisas concretas, sobre a realidade. É forçoso atender ao real, ao concreto, para se ser prudente, outrossim é necessário agir e decidir.

    Assim, a decisão do estadista prudente pode ser, num instante, o exercício da força militar, mesmo que de forma preemptiva. É a conjuntura que o ditará. Sendo uma arte, é necessariamente precária e incerta. Certamente que não oferecerá sólidas teorias explanativas ou preditivas, plenas de consistência lógica. No entanto, creio que é o melhor que se arranja.

    Um bom exemplo de uma condução prudente e conservadora na política externa é descrita por Kirk no hagiográfico “The Political Principles of Robert A. Taft”. Trata-se de ficção, visto que o que motorizava as posições políticas do Senador eram mais ditames eleitoralistas e não reflexões sérias sobre o interesse nacional americano (et por cause, as suas inconsistências não foram, como as de Burke, virtuosas ou memoráveis). Esquecendo isso, é muito bom.

    Eu creio que a explicação para o esquecimento a que estão votados certos pensadores está muito mais no que o CN chamou “a defesa dos valores certinhos”. As reacções à morte de Soljenitzyne ilustram-o bem: um escritor profundamente ocidental, transformou-se num perigoso anti-ocidental e iliberal. As tradições políticas de Roma e Jerusalém, fontes das tradições liberais do Ocidente, são erradamente assimiladas e logo entendidas como anacrónicas. A defesa da tradição da liberdade faz-se, como diria Tocqueville, “pelos benefícios materiais que ela proporciona” (a liberdade), e não enquanto condição existencial. Essa foi substituída pelo democraticismo. Isto sim, é lamentável e perigoso.

  22. CN

    “alguns liberais a defenderem causas profundamente anti-liberais: saudarem Khrushchev, festejarem a queda de Saigão ou a tomada do poder por Pol Pot, incensarem Putin ou regojizarem-se pela morte de soldados norte-americanos no Iraque.”

    HO neste ponto acho que está intoxicado pelo anti-rothbardianismo de Buckley, feita de acusações avulsas (um pouco para o ridiculas).

    “Assim, a decisão do estadista prudente pode ser, num instante, o exercício da força militar, mesmo que de forma preemptiva”

    Sabe que vamos discordar. Para mim a história do século passado começa na WWI e não na WWII. Dou crédito a Buchanan por ter finalmente lançado a polémica no maistream, algo que era impensável até há pouco. Bom sinal. Abandonei a crença no militarismo necessário olhando para a história na ressaca do fim da guerra fria.Os neo-cons tiraram a conclusão inversa: era preciso ainda mais e sempre e em todo lado porque “Muniche” o prova. Se quer ficar chocado, quanto mais sei sobre Charles Lindberg mais o admiro (e ao pai que já tinha sido o principal crítico da entrada na WWI).

    Voltando a Nisbet, este é um verdadeiro conservador liberal, com o sentido de todo o mal da guerra e do militarismo, incluindo o menos mau. Está nos antipodas da actual esquizofrenia pela Nação-IMpério mais poderosa e geográficamente mais protegida da história. A minha ideia é mais a de um pacifismo armado. Tipo, “Mind your own business” e está tudo bem, se alguém se meter comigo, passo a assassino psicopata em legitima defesa. Tipo Suiça.

    Quero dizer, não pegue em Nisbet e aponte que o facto de não ser pacifista o coloca mais perto daquilo que ele sempre odiou.

  23. André Azevedo Alves

    Uma discussão muito interessante. Inclino-me a concordar com o HO, embora reprove os excessos Buckleyanos (para não falar novamente em Kirk).

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