A escolha de Sarah Palin mostra o que McCain deseja fazer na Casa Branca

(publicado há dias aqui e no site brasileiro VIDE)

Quando John McCain disse que Sarah Palin “é exactamente quem eu preciso, exactamente quem este país precisa”, já os jornalistas da CNN (a televisão através da qual acompanhei o anúncio da escolha de McCain para o lugar de vice-presidente) haviam começado a dar a conhecer a biografia da escolhida: nascida no estado do Idaho, cresceu na pequena cidade de Wasilla, no Alaska, da qual viria mais tarde a ser mayor, antes de há dois anos ter sido eleita governadora do Estado (tendo trabalhado como jornalista desportiva e sendo uma ex-miss, certamente que será alvo da já habitual arrogância “europeia” que gosta de acusar os políticos americanos de serem “burros”. Como é costume, ainda vão ter uma surpresa desagradável). Mas quando o nome de Palin começou a ser apontado como o que seria anunciado por McCain, os jornalistas da CNN (e presumo que de muitos outros canais e jornais) pareciam ter sido apanhados completamente de surpresa, sem saberem muito acerca de Palin.

Essa foi uma das razões pela qual a escolha de Palin foi uma excelente jogada de propaganda. Depois do discurso de Obama na noite anterior, McCain teria de captar as atenções das televisões, para que o seu adversário não conseguisse impor a sua “narrativa” antes da Convenção Republicana da próxima semana. Só pelo facto de Palin ser uma mulher, a escolha de McCain atrairia as atenções dos media. Mas por ela ser uma quase desconhecida, estes tiverem de passar horas e horas a tentarem descobrir algo acerca dela, desviando por completo as suas atenções (e as da opinião pública) do que Obama dissera na noite anterior.

Karl Rove, o “arquitecto” das vitórias eleitorais de George W. Bush, disse que ao escolher Palin, McCain tentava apelar às eleitoras de Hillary Clinton que parecem não ter seduzidas por Obama, e esse é um comentário que fez algum sucesso. Mas vários outros factores fazem de Palin uma escolha aparentemente vantajosa para John McCain: ela apela à “base” eleitoral conservadora do partida Republicano (anti-aborto, membro do NRA, mãe de 5 filhos, um deles prestes a servir no Iraque), sem no entanto deixar de ter outras posições mais “abertas” e apelativas a sectores mais “independentes” (por exemplo, apesar de ser contra o “casamento gay”, vetou, enquanto governadora do Alaska, uma lei que visava impedir o Estado de atribuir a casais homossexuais “benefits” estatais), e parece ter colaborado bem como os Democratas do seu estado (o que será claramente uma vantagem caso ocupe a vice-presidência se, como é expectável, os Democratas mantiverem o controlo do Congresso).

O seu principal handicap é a sua “falta de experiência”. A candidatura de Obama já começou a dizer que ao escolher Palin, McCain perde toda a legitimidade para acusar o seu adversário de inexperiência. Sinceramente, não sei se esse será um problema tão grande: em primeiro lugar, porque Obama não deverá estar muito interessado em fazer da “inexperiência” de Palin um tema de campanha, pois de cada vez que isso for mencionado, apenas chamará a atenção para a sua própria falta de experiência. Em segundo lugar, o facto de Joe Biden ser mais experiente não permite a Obama ultrapassar essa sua fragilidade, pois no seu “ticket”, o inexperiente é o próprio candidato a Presidente, não o subalterno. No “ticket” McCain-Palin, o próprio McCain traz a “experiência”: enquanto Obama (a “cara fresca”) escolheu Biden (o “experiente” senador) para o “complementar”, McCain optou por alguém que crê ser diferente dele apenas na idade e no sexo; Obama escolheu alguém que parece vir para ocupar um vazio (a experiência em política externa) na sua candidatura, enquanto McCain escolhe alguém que reforça a sua própria imagem, uma “maverick” mais jovem que enquanto Governadora não teve medo de enfrentar o “establishment” e o seu próprio partido, ao lado do velho “maverick” que no Senado nunca hesitou fazer o que lhe passava pela cabeça.

Este passado de “maverick” no Alaska é a terceira razão pela qual a campanha de Obama certamente hesitará em apostar na carta da inexperiência de Palin: na realidade, ela tem uma experiência (se bem que curta) que nenhum dos outros três candidatos (Obama, Biden e McCain) tem, a de exercício do poder executivo, enquanto governadora do seu Estado. Ao contrário do “inexperiente” Obama ou dos “experientes” Biden ou McCain, Palin sabe o que é comandar um Governo, lidar com um aparelho burocrático e, como a equipa de McCain disse, “enfrentar um sistema corrupto”. Ao contrário de Obama, “que passou os últimos dois anos dos seus quatro no Senado a candidatar-se a Presidente”, Palin passou-os a preencher “um registo de reforma e bipartidarismo de que outros apenas podem falar”.

É também por isto que a escolha de Sarah Palin mostra o que McCain deseja de uma sua eventual Presidência: ao escolher alguém que, nessa sua experiência de exercício do poder executivo, foi capaz de cortar despesas orçamentais no seu estado e que impediu a construção (e gasto de dinheiro federal) na famosa “Bridge to Nowhere” de que McCain constantemente fala como exemplo do delírio despesista e eleitoralista do Congresso nos últimos anos, McCain mostra que quer seguir uma política que visa inverter o caminho dos anos recentes.

Dificilmente haverá quem precise de maior “inversão” que o partido Republicano (e digo o partido Republicano por me estar a referir aos congressistas republicanos, e não a George Bush). Em 2004, aquando da reeleição de Bush, ninguém esperaria uma derrota como a que os republicanos sofreram nas eleições para o Congresso de 2006. Em 2004, Rove e Bush falavam do “realignment” que sonhavam fazer no panorama eleitoral americano, na construção de uma “permanente coligação de votos” em torno do partido Republicano e da sua agenda, como Roosevelt conseguira em 1932: depois das medidas para a educação do “No Child Left Behind”, da “faith-based initiative” para as políticas sociais, e o aumento da despesa em programas como o Medicare e o Medicaid, Bush e Rove pretendiam promover uma reforma da Segurança Social e uma abertura da lei de imigração (a primeira visando conquistar a classe média branca, a segunda a crescente massa de eleitores hispânicos). Para seu azar, a política de Bush apenas conseguiu destruir a coligação de votos que o trouxera para o poder, e não a construção de outra: os cortes de impostos agradaram aos sectores libertários do partido, mas alienaram os “fiscal conservatives” preocupados com o simultâneo aumento da despesa federal; esses aumentos de despesa, por sua vez, agradaram à “base” evangélica que via os seus programas de assistência social ganharem apoio federal, mas desagradou não só a esses “fiscal conservatives” como aos mais libertários; e se estes últimos apoiavam a nova lei de imigração, esses conservadores sociais não a conseguiam aceitar; algo semelhante aconteceu com a política externa, que agradava aos “falcões”, mas que desagradou a isolacionistas preocupados com o nível de despesa que ela acarretava.

A derrota da reforma da Segurança Social marcou o colapso dessa “coligação” republicana de libertários, “conservadores fiscais”, conservadores sociais e “falcões”. Quando Bush não a conseguiu ver aprovada no Congresso, rejeitada (também) pelo seu próprio partido, a sua autoridade ficou claramente fragilizada. Com eleições em 2006, os congressistas republicanos não estavam tão dispostos quanto Bush (que não precisava de se preocupar com uma reeleição à qual não poderia concorrer) a fazer passar medidas eventualmente impopulares. Assim, não foi de espantar que a lei de imigração (essencial no projecto de “realignment” de Bush e Rove) não passasse, e que o Congresso seguisse no seu delírio despesista, que por entrar em contradição com aquilo que o partido Republicano se comprometera a fazer no “Contract with America” de 1994, destruí a sua credibilidade e fez perder a base eleitoral de apoio.

Ao escolher alguém que enquanto governadora do Alaska foi capaz de cortar a despesa, alguém com posições socialmente conservadoras, e que tem um filho prestes a partir para o Iraque, McCain parece querer reconstruir essa “coligação” de libertários, “conservadores fiscais”, conservadores sociais e “falcões”, que constituía a base de apoio do partido Republicano, e que se desintegrou nos últimos anos. Mas ao mesmo tempo, escolhe alguém que, enquanto governadora do Alaska, foi capaz enfrentar não só o Congresso federal americano como o seu próprio partido, uma “maverick” como McCain gosta de se ver a si próprio, o que mostra que candidato republicano parece estar disposto a, caso venha a ocupar a Casa Branca, ir contra os interesses imediatos dos congressistas à procura de reeleição em 2010.

Em suma, a escolha de Sarah Palin tem razões para satisfazer não só os republicanos, como os americanos em geral: ao escolher alguém com o perfil e o passado de Sarah Palin, McCain mostra estar disposto a conquistar não só os “fiéis”, como também os “independentes” necessários aos republicanos para reconquistarem o poder; e mostra também que tem a vontade de, caso venha a ser eleito, promover a política reformista de que os EUA há muito necessitam.

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10 thoughts on “A escolha de Sarah Palin mostra o que McCain deseja fazer na Casa Branca

  1. “Quando John McCain disse que Sarah Palin “é exactamente quem eu preciso, exactamente quem este país precisa”

    É uma boa bibelot… lá isso é. E o pior é que não esconde…

    “O seu principal handicap é a sua “falta de experiência”.”

    Não se trata de um problema só de falta de experiência, é um problema de falta de conhecimento sobre as matérias em questão.

    “Ao contrário do “inexperiente” Obama ou dos “experientes” Biden ou McCain, Palin sabe o que é comandar um Governo, lidar com um aparelho burocrático e, como a equipa de McCain disse, “enfrentar um sistema corrupto”. Ao contrário de Obama, “que passou os últimos dois anos dos seus quatro no Senado a candidatar-se a Presidente”, Palin passou-os a preencher “um registo de reforma e bipartidarismo de que outros apenas podem falar”.”

    O caro Bruno faz de conta que os últimos dois anos a candidatar-se a Presidente de Obama não lhe trouxeram experiência nenhuma – quer a comandar equipas, quer a gerir dinheiro, quer no conhecimento dos assuntos que se imponhem a um presidente.

    “É também por isto que a escolha de Sarah Palin mostra o que McCain deseja de uma sua eventual Presidência: ao escolher alguém que, nessa sua experiência de exercício do poder executivo, foi capaz de cortar despesas orçamentais no seu estado e que impediu a construção (e gasto de dinheiro federal) na famosa “Bridge to Nowhere” de que McCain constantemente fala como exemplo do delírio despesista e eleitoralista do Congresso nos últimos anos, McCain mostra que quer seguir uma política que visa inverter o caminho dos anos recentes.”

    Então leia isto: http://www.adn.com/sarahpalin/story/511471.html

  2. Nuno

    Mais uma vez dizem que ela não é homofóbica porque vetou uma lei que o Bush, esse amigo da tolerância, também vetou. Desde quando é que vetar é igual votar contra?

    A quantidade de pessoas que procuram inventar disparates contra Palin só é comparável á quantidade de pessoas que defende os disparates que representa…

  3. Para os meus caros insurgentes:

    American Girl on Fox News: “I was running from Georgian troops, I want to thank the Russian troops”

    I don’t think Fox News was expecting this, so they cut them off:

    For a little bit of truth (in this blog)

  4. CN

    Foi uma boa escolha no que respeita a assuntos internos. Bem melhor que o VP de Obama que é o típico insider, parte da máquina. Mas faz sentido a escolha de uma outsider e um insider para um e outro.

  5. Bruno

    Mantém a opinião depois dos últimos dias e do que se vai sabendo de Palin? Eu acho que você desperdiçou uma tarde genial de sol quando lhe deu para escrever isto.

  6. Bruno

    “A escolha de Sarah Palin mostra o que McCain deseja fazer na Casa Branca”

    Tomar decisões do nada baseado no facto de Palin ser mulher? Corrijo: tomar decisões baseado num único encontro com Palin e no facto de Palin poder ser eleitoralmente vantajosa?

  7. Pingback: Ainda sobre McCain e Sarah Palin « O Insurgente

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