O “silêncio” de Ferreira Leite

Augusto Santos Silva, Ministro dos Assuntos Parlamentares, respondeu a um artigo de Manuela Ferreira Leite no Expresso, no qual a líder do PSD criticava o “inaceitável silêncio” do Governo acerca do “alarmante aumento da criminalidade” em Portugal. Santos Silva diz que esta afirmação da líder laranja “encerra uma ironia singular porque se aplica que nem uma luva à sua própria atitude”. Se não fosse pelo tom exagaderamente pomposo das palavras de Santos Silva, eu sentir-me-ia tentado a dizer que se há afirmação que “encerra uma ironia singular”, é a do ministro socialista: Santos Silva respondeu a um artigo de Ferreira Leite no Expresso. Ferreira Leite escreve uma coluna regular nesse jornal. Ora, se o que ela lá escreve é, para Santos Silva, merecedor de resposta, é porque constitui uma tomada de posição da líder laranja. Assim, a coluna de Ferreira Leite no Expresso, que desde que ela se tornou líder ainda não foi interrompida, “conta” enquanto veículo de afirmação das suas opiniões políticas. Ao longo de todos estes meses, Manuela Ferreira Leite manteve-se tudo menos “silenciosa”, e a própria existência das declarações de Santos Silva são uma prova de que esse é um mito que não corresponde à realidade.

Para além dessa coluna no Expresso, na qual já por várias vezes defendeu uma redefinição das funções do Estado, Ferreira Leite já fez várias intervenções públicas, com entrevistas e conferências de imprensa, quando julgou necessário e importante fazê-las. E já vários dos membros da sua direcção (os jornalistas esquecem-se que o PSD não é o CDS e Ferreira Leite não é Portas, existe mais gente no partido e Ferreira Leite parece querer que essas pessoas sejam tão visíveis como ela) vieram a público com declarações sobre qual deverá ser o rumo do partido nos próximos tempos. Percebe-se por que razão Santos Silva ou Menezes insistem em afirmar algo que não corresponde à realidade: interessa-lhes danificar a percepção pública de Ferreira Leite. Mais estranha é a insistência com que os jornalistas se referem ao tal “silêncio”. Claro que os jornalistas dirão que as colunas do Expresso não “contam”, que as entrevistas e conferências de imprensa foram “poucas”, e que declarações de subalternos não têm o mesmo “impacto”. Mas é aqui que fica evidente o que incomoda os senhores jornalistas no suposto “silêncio” de Ferreira Leite: não é o facto de ela não “falar”, mas o facto de ela falar quando ela quer, como ela quer e onde ela quer, e não se sujeitar ao “calendário mediático” que os senhores jornalistas gostariam de lhe impôr, e ao qual todos os outros políticos (talvez à excepção de Jerónimo de Sousa) se submetem sem pestanejar. 

No entanto, Manuela Ferreira Leite tem de ter cuidado com a forma como esta “narrativa” do seu suposto “silêncio” se está a propagar na comunicação social. Porque “propagar” é o termo certo: alguém começou por fazer referências ao “silêncio”, e como uma gripe, essa ideia “pegou-se” à comunicação social em geral. O perigo para Ferreira Leite é que a “epidemia” alastre à opinião pública em geral, afectando a confiança dos eleitores na sua pessoa. Porque o facto de essa “narrativa” não corresponder à realidade não impede que ela se torne um problema. Ferreira Leite poderá conseguir “dar-lhe a volta”: pode ser que os eleitores, mesmo acreditando nessa falsa “narrativa” do “silêncio” de Ferreira Leite, depositem a sua confiança nela, se o “silêncio” for algo que valorizem (fartos de assistirem a políticos que “só sabem dizer mal”, podem sentir-se atraídos por um político acerca de quem tenham a percepção de que não tem esse comportamento); ou pode ser que o português comum consiga perceber como a “narrativa” do “silêncio” é falsa, e a “epidemia” fique restrita à quarentena das redacções dos jornais e das televisões. Mas só facto de ela existir faz com que seja sempre um problema, um problema que Manuela Ferreira Leite terá forçosamente de ultrapassar.

6 pensamentos sobre “O “silêncio” de Ferreira Leite

  1. Nuno

    Comparativamente com a verborreia diária do Governo até o Alberto Jão é mudo.
    É de louvar que as intervenções sejam feitas justificadamente e sem sucumbir à sede de sound bytes do nosso tabuloidismo mas este, entediado, fala-nos regularmente do “silêncio”.

    É uma questão de tempo até se começar a conjunturar a lançar o estágio seguinte: fabricar notícias á custa da suposta inactividade.

  2. MFL não foi eleita presidente do PSD para ficar em casa, em silêncio. Por isso, é certeira a crítica de fundo de Menezes, à excepção de que Menezes é a ultima pessoa com autoridade moral para a criticar: se não fora o péssimo desempenho dele como líder, MFL não seria hoje a presidente do PSD.
    Mas, MFL anunciou logo de ínicio que não falaria, no sentido de que, ao contrário de outros antecessores, não se deixaria enredar na teia de anúncios, réplicas, e contraditas mesquinhas do cenário político dos últimos tempos. Percebe-se a sua estratégia de, a cerca de um ano de distância das eleições, deixar o governo PS desgastar-se sozinho.
    Por outro lado, MFL foi eleita sem programa e sem equipa: ao longo deste tempo congregou o seu team, e vem preparando o seu projecto. E percebe-se que a esta distância MFL não queira ainda apresentar soluções e propostas para as questões da actualidade. Esse é o papel do Governo, que claramente o vem desempenhando mal. E MFL não quer dar soluções e oferecer respostas ao PS.
    Sobretudo, MFL não quer que as atenções do eleitorado se desviem da crise e das insuficiências do Governo PS para se focarem no debate PSD-PS. Ainda não é o momento para tal.
    O momento actual é propício a deixar o governo PS sozinho na arena numa pega de caras ao touro da crise económica e da vaga de crimes… e com MFL a assistir na primeira fila da bancada….. esfíngica.
    Mas, digo eu, assistir de bancada só, não pode ser. Não basta. É preciso vaiar o toureiro.
    Até porque há razões de sobra.

  3. JoaoMiranda

    Sempre pensei que o silêncio era uma estratégia deliberada e assumida de Ferreira Leite. Pelo menos é isso que se deduz das críticas de Ferreira Leite aos seus antecessores.

  4. Bruno Alves

    Meus caros, a “estratégia” não é de “silêncio”, isso é um termo que começou a circular na comunicação social na altura das directas (e que os Passos Coelho agradeceu), mas que não corresponde à realidade. A “estratégia” é, isso sim, de falar de forma diferente: menos espalhafato para os telejornais, menos soundbytes, etc. Mas não deixa de falar. Como aliás se pode ver…

  5. Bruno Alves

    caro Bruno, tem toda a razão, mas o que eu critico é a crítica, que se faz a ferreira leite, de não dizer nada, o que não corresponde à verdade. Criticar ferreira leite por dizer o que diz, é com cada um. mentir e dizer que ela não diz nada, é mais grave.

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