O Urso ferido

 

A 31 de Março de 1989, Vasco Pulido Valente escrevia, n’O Independente, um artigo (As origens da III Guerra Mundial) no qual criticava severamente todos aqueles que aplaudiam a perestroika na URSS e a consequente “liberalização” do país. Para Vasco Pulido Valente, essa “liberalização” faria com que o “império russo” começasse a “tremer nos fundamentos” e ficasse numa “péssima posição para resistir aos choques que o esperam”, dos quais resultariam apenas e só um “caos de nações independentes, condenadas ao conflito externo e à tirana interna”: na URSS como no “antigo império dos Romanov” viviam “quinze nacionalidades e dez etnias diferentes”, que só o “chicote” e a “força bruta” mantinham em ordem. Se o “chicote”, por virtude da “liberalização”, deixasse de ser usado, a “desintegração” do “império russo”, como a desintegração dos Impérios Otomano e Hasburgo décadas antes, apenas traria o conflito étnico e um eventual alastramento do conflito (a tal “III Guerra Mundial” cujas “origens” Vasco Pulido Valente via na desintegração do “império russo”).

A Guerra da Geórgia é ainda um dos restos deixados por essa desintegração. Quando a Geórgia se libertou da tutela soviética, duas regiões no seu território (a Abkhazia e a Ossétia do Sul) mantinham uma maioria de “russos étnicos” na sua população. A Ossétia do Sul declarou-se uma República Soviética (um acto que não foi reconhecido pela Geórgia), e após uma derrota imposta às forças militares georgianas, os separatistas da Ossétia realizaram o primeiro de dois referendos (não reconhecidos) nos quais a maioria da população aprovou a reunião do território com a Ossétia do Norte, sob a soberania russa. A Geórgia sempre reclamou que a Ossétia do Sul fazia parte do seu território, e mostrou-se até pronta a oferecer maior autonomia política, proposta rejeitada pelos separatistas, cada vez mais próximos da Rússia, principalmente após Vladimir Putin lhes ter entregue passaportes russos, que na prática os transformam em cidadãos da Rússia, dessa forma “obrigada” (por si própria, note-se) a protegê-los. Após confrontos entre forças militares georgianas e separatistas da Ossétia, a Rússia interveio, com o argumento de que uma “limpeza étnica” estaria a ter lugar. A comunicação social ocidental entretém-se a tentar identificar quem é o “mau da fita” nesta crise, e qual o “injustiçado”. Será difícil arranjar uma resposta que satisfaça toda a gente. Mas há algo bem mais importante em toda esta crise: perceber por que razão a Rússia interveio.

...e é por isso que é perigosa
...e é por isso que é perigosa

 

Ao contrário do que escreve João Marques de Almeida no Diário Económico, a acção russa na Geórgia não significa o “regresso daquela para o topo da hierarquia do poder mundial”. Antes pelo contrário: a Rússia ataca a Geórgia porque sabe que está fraca, e acima de tudo, a enfraquecer. A intimidação de países vizinhos, o abuso da sua posição no mercado energético, ou os estranhos assassinatos de opositores ao regime de Putin, fizeram com que os observadores ocidentais falassem do “ressurgir” do “urso russo”. O crescimento económico russo, à boleia do aumento do preço dos produtos energéticos, apenas lhes confirmou essa ideia.

Na realidade, o “urso” está ferido, e com gravidade: como notou há tempos Fraser Nelson, o futuro demográfico da Rússia é negro, devido aos graves problemas de abuso de de drogas e bebidas alcoólicas da sua população, e ao elevado número de pessoas contaminadas com o HIV; no plano militar, o orçamento de Defesa da Rússia correspondia a apenas 5% do americano. Por outro lado, a receita para o “milagre económico russo” poderia ser também a receita para o seu desastre: uma eventual queda do preço dos produtos energéticos seria um rude golpe para uma economia excessivamente dependente dos lucros que daí tem retirado. Para além do mais, os estados vizinhos vão-se aproximando cada vez mais dos EUA: a Polónia, a Hungria e os Estados bálticos já fazem parte da UE da NATO, e Ucrânia e Geórgia já receberam promessas de que serão admitidos.

É por isto que a Rússia ataca a Geórgia agora (e chantageia os seus vizinhos com o abastecimento energético, ou mata os opositores ao regime). Porque os seus responsáveis sabem que à medida que os anos passarem, terão cada vez menos capacidade para o fazer, e que se os seus vizinhos entrarem na NATO, nada poderão sem fazer sem arrastarem forçosamente os EUA para um conflito. Esta é, aliás, a razão pela qual a Guerra da Geórgia é perigosa, tal como um eventual conflito militar entre a Ucrânia e a Rússia também o será: a Rússia prefere que uma eventual guerra a larga escala tenha lugar agora, em vez de anos mais tarde.

Tal como a Alemanha em 1914 (a braços com o abrandamento do crescimento económico em relação ao aumento da despesa pública, o aumento dos custos da dívida pública, e o receio de ser “cercada” pelos planos militares russos e ingleses) deu o seu “cheque em branco” à Austria para atacar a Sérvia, também a Rússia deu aos separatistas um “cheque em branco” para provocar a Geórgia, pois se a Rússia “tiver” de entrar em conflito com esse país, mais vale ser agora, antes de os países ocidentais serem obrigados a auxiliá-la, do que quando a NATO “cercar” a Rússia. O que torna esta disposição russa para “correr riscos” particularmente preocupante é o facto de essa ausência de “obrigação” de auxílio de países como os EUA à Geórgia não facilitarem a sua posição. Pois tal como a Inglaterra em 1914 (que, como Asquith repetidamente insistia, por nada estava obrigada a defender a neutralidade belga do avanço das tropas alemãs) os riscos de não ir em auxílio do pequeno estado ao qual se prometeu protecção talvez sejam demasiado grandes.

Em 1914, a Inglaterra temia que a “anexação da Bélgica e da Holanda” fizesse com que a Alemanha tivesse acesso aos portos da costa do Canal, em posição de atacar as ilhas britânicas, e que a “elevada indemnização imposta à França” colocasse a Alemanha numa “posição dominante” no continente, que poderia “colocar à sua disposição” uma futura “preponderância naval” (a tradição estratégica britânica sempre procurara limitar a fraqueza das suas forças militares terrestres através de duas linhas essenciais: a primeira, como o Sir Humphrey de Yes Minister diz, “manter a Europa dividida”, para que a sua superioridade naval (a segunda) não fosse posta em causa por uma potência hegemónica que a pudesse suplantar). Hoje, dificilmente os EUA (e os países europeus) se sentirão confortáveis com um eventual domínio russo do Cáucaso, e principalmente com o controlo do oleoduto BTC, que transporta o petróleo do mar Cáspio para a Turquia (que de certeza não quer o controlo russo da Geórgia, e que é membro da NATO), e que oferece ao Ocidente uma alternativa aos oleodutos controlados pela Rússia.

Voltemos a 1914: apesar de, como disse, a Inglaterra não estar obrigada a defender a neutralidade belga, havia no seio do governo britânico a ideia de que, se perdesse o “seu bom nome”, a Inglaterra arriscava-se a “destruir” a sua “posição no mundo”. Ao não respeitar uma aliança, arriscava-se a que, no futuro, os seus aliados a imitassem, isolando-a. Ora, se é verdade que os EUA não estão “obrigados” a defender a Geórgia, não é menos verdade que a Geórgia tem várias tropas no Iraque. Se os EUA abandonarem um aliado que esteve do seu lado quando eles precisaram, todos os seus outros aliados pensaram duas vezes antes de colaborarem com a América. Países como a Polónia, ou a Ucrânia (aqueles que temem a Rússia e dos quais os EUA e a “Europa” precisam) dificilmente se sentiriam seguros se os EUA fechassem os olhos ao ataque russo à Geórgia.

A gravidade da situação reside no facto de, como escreve Anne Applebaum, tudo estar nas mãos da Rússia. Um país que entra em acção para eliminar o status quo não aceitará a sua restituição. Outra possibilidade poderia passar pela ocupação da Ossétia do Sul e da Abkhazia por forças de manutenção da paz, mas um país que age contra a Geórgia com o objectivo de impedir a sua entrada na esfera de influência do Ocidente dificilmente estará disposto a que esses mesmo países enviem tropas para a sua fronteira. A única forma de o conseguir seria apresentar esta proposta juntamente com a ameaça de que, se esta for rejeitada, os aliados da Geórgia não teriam outra alternativa senão entrar em guerra com a Rússia. O risco desta hipótese é que a Rússia pode preferir a concretização da ameaça à solução pacífica (mais uma vez, a “solução” é precisamente aquilo que se quis evitar com o ataque á Geórgia): a sua fraqueza poderá levá-la a preferir arriscar tudo agora, em vez de ficar à espera do futuro. A Rússia responderia ao bluff dos EUA. E como uma III Guerra Mundial não estará na lista de desejos de muita gente nos EUA e na Europa, o melhor será não arriscar o tal bluff: se apostarmos nele, ou o levamos até ao fim, o que resultará numa tragédia, ou ficaremos à mercê da Rússia. Mas ficar a assistir ao que a Rússia fizer na Geórgia poderia não ser garantia de nada. Os países que realmente não querem ver a Rússia com a rédea solta (Polónia, Ucrânia, República Checa, os países bálticos) e aqueles que não estiverem dispostes a ver a Rússia tomar conta das suas mais-valias geo-estratégicas (o problema da Turquia com o oleoduto BTC), podem não ser tão cautelosos como outros países mais distantes. E como eles são membros da NATO, a sua entrada numa guerra com a Rússia significaria uma de duas coisas: ou a tal “III Guerra Mundial” que se pretende evitar, ou a desintegração da NATO, e a consequente insegurança dos países europeus.

Distraída com os Jogos Olímpicos, a comunicação social não se apercebe da gravidade do que se passa na Geórgia. Iludida pela coreografia russa, a intelligentsia ocidental não percebe por que razão esta crise é tão perigosa: a percepção russa de que está a ficar cada vez mais fraca em relação aos seus “rivais” (e de que essa tendência não será invertida nos próximos tempos), faz com que esteja disposta a “agitar” o xadrez internacional, e mais grave ainda, com que qualquer tentativa de “refrear” os seus ânimos tenha poucas hipóteses de ser bem-sucedida, pois para a Rússia, precisamente porque se sente enfraquecida e a enfraquecer, o cumprimento de qualquer ameaça será preferível ser levado a cabo agora, do que ser adiado para mais tarde; por outro lado, as circunstâncias particulares deste conflito (o facto de ele envolver um aliado próximo dos EUA e afectar interesses geo-estratégicos de membros da NATO), faz com que a possibilidade de todo o Ocidente ser arrastado para uma guerra a larga escala (ou, em alternativa, ver ruir todo o seu edíficio de Defesa) não seja assim tão longíqua. Se a Rússia realmente quiser a “III Guerra Mundial” que, há anos atrás, Vasco Pulido Valente escreveu que iria decorrer da desintegração do seu império, dificilmente poderemos fugir a ela.

25 pensamentos sobre “O Urso ferido

  1. Pingback: Forças militares russas avançam para outras zonas da Geórgia « O Insurgente

  2. Não me admirava nada que nas próximas horas o oleoduto Baku-Tblisi-Ceyhan venha mesmo a ser destruído.
    Beneficiando, além do mais, e como já está a beneficiar com o aumento do preço do barril do petróleo que contrariou a tendência das últimas semanas, os grandes oligarcas russos que suportam Putin.

    São bastante sérios os acontecimentos na Geórgia. E estão a reunir-se todas as condições necessárias e adequadas para um conflito político e militar em maior escala.

    É triste ver na Europa um presidente de um estado soberano e legítimo ter de andar a fugir e proteger-se na rua de bombardeamentos no seu próprio país.

    Enfim, esperemos é que os actuais líderes ocidentais saibam colocar limites à Rússia, de modo a que não se volte a repetir a política do apaziguamento que se fez nos finais dos anos 30 frente à Alemanha nazi (com os resultados que se conhecem).

  3. lucklucky

    Bom texto só algumas adendas. Os movimentos Europeus em relação á Alemanha deveram-se á vitória dos Estados Alemães sobre a França em 1870. A guerra que com o Golpe de Estado bolchevique na Russía definiu muito do século XX.

    Discordo da parte citada abaixo. Julgo que a guerra teve muito pouco que ver com condições circunstanciais da economia. Sobre esse ponto faria muito mais sentido serem os Ingleses a provocar a guerra eles é que estavam a perder cada vez mais posição na economia enquanto a sua Marinha Real só pelo génio de administração de Fisher que conseguiu que fosse a primeira a colocar em operação um dreadnought(couraçado) manteve alguma vantagem. Sem esse passo a Royal Navy estaria a combater com outras no mesmo pé ou mesmo em posição de inferioridade.

    “Tal como a Alemanha em 1914 (a braços com o abrandamento do crescimento económico em relação ao aumento da despesa pública, o aumento dos custos da dívida pública, e o receio de ser “cercada” pelos planos militares russos e ingleses) deu o seu “cheque em branco” à Austria para atacar a Sérvia”

  4. HO

    Bruno,

    Bom texto, mas esta linha de pensamento não é muito semelhante à dos que criticavam, por exemplo, a agressividade da política externa de Reagan nos anos 80? Os dirigentes russos são relativamente vulneráveis – a sanções políticas e económicas, por exemplo. E têm um mindset bastante diferente do dos estadistas prussianos, creio eu.

  5. Esta análise não colhe: não é verdade que a Rússia esteja a fazer a guerra em larga escala. Compare-se a dimensão dos bombardeamentos da Nato à então Jugoslávia (Sérvia-Montenegro)com o que Rússia tem feito na Geórgia? Por exemplo, em Tiblissi apenas bombardeou um aeroporto militar, enquanto a Nato se entregou à destruição das infraestruturas civis de Belgrado.
    A Rússia agiu com toda e legitimidade, pois a situação dos seus militares na Ossétia do Sul estava salvaguarda pelo Conselho de Segurança da ONU. A Rússia agiu dentro da legalidade. E até agora com contenção, atendendo às atrocidades cometidas pelos militares georgianos (treinados por instrutores israelitas e americanos) em Tshkinvali.
    Quanto à “demografia russa”, é verdade que a situação é complexa. Mas recomendaria ao ilustre articulista alguma moderação, no exercício de futurologia a que parece entregar-se. Não se esqueça que a Rússia já viveu períodos bem mais dramáticos na sua História recente, com perdas demográficas muito mais profundas. Lembre-se dos anos finais da Primeira Grande Guerra, ou dos anos trinta do século passado, para não falar do segundo conflito mundial. Lembre-se de que a Rússia soube sempre ressurgir desses períodos dramáticos.

  6. “não é verdade que a Rússia esteja a fazer a guerra em larga escala”

    Certamente que não. Tirando a mobilização da frota do Mar Negro e de milhares de tropas que ocupam neste momento grande parte da Geórgia.

    “atendendo às atrocidades cometidas pelos militares georgianos”

    Até agora só se ouviu a versão russa.

    “por instrutores israelitas e americanos”

    Um crime só por si. Deviam ter auscusltado primeiro os russos?

  7. “Por exemplo, em Tiblissi apenas bombardeou um aeroporto militar”

    Há umas horas atrás outro iluminado dizia que a Rússia iria limitar a sua acção aos territórios secessionistas. Estetelou-se ao comprido. Cuidado

  8. Bruno Alves

    Caro HO,

    não vejo onde está a semelhança entre o que eu escrevi e os que criticavam reagn pela sua suposta agressividade: eu não estou a dizer que a “culpa” é nossa; apenas que a fraqueza da Rússia, e o facto de tudo isto acontecer num local como a Geórgia (um aliado, com aquele oleoduto) e não num local como Chechénia, tornam tudo muito mais perigoso.

  9. Nuno

    A Russia ataca a Europa e depois a quem é que vende o gás para aquecer a água do duche?? Aos chineses??

    O Putin- o “homem do gás” de metade da Europa não quer dar cabo do cliente- quer eliminar a concorrência- porque as coisas vão mal lá em casa e se falha o ganha-pão lá se vai o urso (de peluche).

    Basta os europeus passarem a aquecer o banhinho com painéis que lá se vai o ímpeto disciplinador pelas atrevidotas neo-democracias do Caucáso.

  10. “Há umas horas atrás outro iluminado dizia que a Rússia iria limitar a sua acção aos territórios secessionistas. Estetelou-se ao comprido. Cuidado”.

    Recomendo o mesmo para ti e para os teus…Realmente, não sei o que farão se não se confirmar a tão anunciada invasão russa da Geórgia. Por exemplo, é falso que as tropas russas tenham ocupado Gori. Mas como tais notícias provêm dos georgianos, depreendo que, para ti, sejam boas 😉
    Eu limito-me a ler/ver as notícias, és tu quem sugere a invasão, não eu.
    Atenção, mobilizar uma frota não significa estar a fazer a guerra. Ou a Rússia já empregou essa grande massa de navios na guerra?

  11. Bruno Alves

    caro Luís Marvão,

    eu não disse que a Rússia está a fazer guerra em larga escala (não sei se está ou não. Levar a sério as afirmações de ambos os lados nestes primeiros dias não nos levará a lado nenhum). Apenas disse que me parece que está disposta a arriscar que tudo isto se venha a tornar numa guerra a larga escala.

    Quanto à “legalidade”, também não leu nada no meu texto que acusasse a Rússia de comportamento “ilegal”, quanto mais não seja porque quando a avaliação de se algo é “legal” ou não depende do julgamento de um dos envolvidos, só se deve suspeitar dela. Dito isto, eu até posso admitir que a Rússia possa ter “razão” (eu aliás escrevi que não punha a Rússia como “má da fita”. Eu não sei quem é o “mau da fita”, e acho que a discussão não leva a lado nenhum). A única coisa que quis foi tentar perceber o que estaria na cabeça dos responsáveis, e penso que isso é a percepção da fraqueza do seu país.

    Isto leva-me á sua crítica da minha “futurolgia”, e sim, tem toda a razão ao dizer que eu devo ter cuidado. Projecções demográficas são sempre duvidosas, e nos “rivais” da Rússia podem acontecer catástrofes que levam a quebras demográficas ainda maiores (por exemplo, uma epidemia de uma doença qualquer, que por milagre, não afecte a Rússia). Mas o Luís comete o mesmo erro, ao presumir que a Rússia só porque no passado se “levantou” de crises maiores, o vai conseguir fazer outra vez: de certeza que em Viena, em 1914, muita gente pensava o mesmo do Império Habsburgo, e a coisa deu no que deu. Nenhum de nós sabe como vai ser o futuro, por isso, a crítica aplica-se tanto a mim como a si.

    Posto isto, mais uma vez, não leu com atenção o que eu escrevi: eu não escrevi que a Rússia não se vai levantar da sua crise. Apenas disse que esse factor (juntamente com a fragilidade da economia russa e a fragilidade relativa das suas forças militares, e a rápida perda de influência nos países vizinhos) faz com que me pareça que os responsáveis russos vejam o futuro com algum receio, e prefiram arriscar tudo agora na tentativa de evitar danos maiores, em vez de arriscar um conflito em larga escala (alargado a mais países) mais tarde. Nada disto é “futurologia”, apenas a minha interpretação (provavelmente errada) do que se está a passar agora.

  12. «Quando a Geórgia se libertou da tutela soviética, duas regiões no seu território (a Abkhazia e a Ossétia do Sul) mantinham uma maioria de “russos étnicos” na sua população.»

    Ainda gostava de saber aonde foram buscar essa ideia – a ossétia tinha para aí 2% de russos e a abkhazia uns 15%.

  13. “Atenção, mobilizar uma frota não significa estar a fazer a guerra. Ou a Rússia já empregou essa grande massa de navios na guerra?”

    Podem estar apenas com problemas de estacionamento.

  14. Bruno Alves

    Caro Miguel Madeira,

    fui buscar essa ideia ao que tenho vindo a ler nos últimos anos (na Economist, principalmente) sobre a Geórgia, mas devo dizer que nos últimos dias ouvi na televisão alguém dizer o que o Miguel diz. Admito perfeitamente que possa estar errado quanto a isso. Não acho que afecte o essencial do que escrevi, mas admito que possa ser um erro.

  15. Bruno Alves

    caro lucklucky,

    essa visão da luta entre a potência em ascensão (a Alemanha) e a potência em queda (a Inglaterra) é uma ideia que, de facto, ficou, mas que é um pouco errada. Em primeiro lugar, como escrevi, o crescimento económico alemão era grande, mas o crescimento da despesa pública era maior, e a divída estava cada vez mais cara. E, mesmo admitindo que a Alemanha fosse a potência em ascensão, a verdade é que se sentia a enfraquecer: são os responsáveis alemães que se dizem sentir “cercados”, e que não poderão enfrentar uma guerra anos mais tarde, porque tinham a percepção (certa ou errada) de que estava a ficar para trás.

    Por último, a principal rivalidade da época não era Alemanha/Inglaterra, mas Inglaterra/França (no Norte de África) e Inglaterra/Rússia (na Ásia). A inglaterra alia-se com os russos e os franceses precisamente para evitar entrar em guerra com eles. Quando estes entram em guerra com a alemanha (a rússia por causa da Sérvia, a França por causa da Rússia), a Inglaterra acaba por ser arrastada para uma guerra com o país contra o qual tinha pouco: apenas não podia aceitar que a Alemanha dominasse a Europa continental, mesmo que isso aliviasse a Inglaterra dos problemas que tinha com franceses e russos.

    E quanto à guerra de 1914 ter sido uma consequência da de 1870, sinceramente, não me parece. Se quiseremos ir buscar grandes causas a várias décadas atrás, elas estarão na expulsão do Império otomano dos balcãs (criando a confusão que por lá se seguiu) e a crescente fragilidade do Império Austro-Húngaro (que leva a Sérvia a entusiasmar-se na Bósnia e obriga a Áustria a responder para que outros não tenha ideias semelhantes): a partir do momento em que estes dois entram em confronto, a Rússia entra para proteger a sérvia, a Alemanha para proteger a Austria (a quem dá o “cheque em branco” porque prefere que a guerra seja naquele ano, e não depois), a França por estar obrigada a lutar ao lado da Rússia, e o Reino Unido por não querer o domínio da europa continental por parte de nenhuma única potência, mesmo que fosse aquela com a qual tinha menos conflitos de interesse.

  16. André Azevedo Alves

    “Podem estar apenas com problemas de estacionamento.”

    Ora bem. E se calhar passou-se os mesmos com os bombardeiros e com as bombas que carregavam: não tinham onde as guardar e forma obrigados a largá-las sobre a Geórgia…

  17. Pingback: VIII.1. Blog Room: Para lá dos Impérios… « bem-vindo à esfera

  18. HO

    Bruno,

    na assumpcao de que a Russia responderia ao bluff [sic] dos EUA.

    “…os separatistas da Ossétia realizaram o primeiro de dois referendos (não reconhecidos) nos quais a maioria da população aprovou a reunião do território com a Ossétia do Norte, sob a soberania russa.”

    Isto escapou-me. Nao e verdade. Foram realizados dois referendos, mas num deles a esmagadora maioria da populacao votou a favor da integracao na Georgia. A campanha propagandistica russa criou a ilusao de um sentimento pro-russo monolitico na Ossetia do Sul que nao tem qualquer correspondencia com a realidade. Noutro comentario tracei um pararelo com Adjara que me parece muito valido.

  19. Pinho

    2 perguntas:

    De certeza que o orçamento para a defesa da Rússia é apenas 5% do total americano?

    No caso de haver um alargamento do conflito para ocidente por parte da Rússia, não é favorável o facto da Turquia que fraz fronteira om a Geórgia ser apenas a “Asiática”?

    Cumprimentos

  20. Bruno Alves

    caro Pinho,

    quanto aos 5%, eram em 2007, altura em que foi escrito o artigo do nqual retirei a informação (e que citei). Quanto à Turquia, a fronteira ser asiática ou europeia é irrelevante, porque ela é membro da NATO. Seja ela atacada por onde for, teremos de a auxiliar (ou acabar com a NATO)

  21. Bruno Alves

    Caro HO,

    o que li foi que os dois referendos tinham dado uma vitória a quem queria a reunião com a Rússia. Tal como com a correcção feita pelo Miguel Madeira, acredito que possa estar errado…

  22. “o que li foi que os dois referendos tinham dado uma vitória a quem queria a reunião com a Rússia.”

    Houve três referendos (penso que dois no mesmo dia).

    O primeiro – em 1992 deu a vitória aos secessionistas. Dos dois realizados a 12/11/2006, um deu a vitória à independência, outro à reunificação com a Geórgia

    Penso (mas não vou apostar a minha vida nisso) que as alternativas eram Geórgia ou independência, não unificação com a Rússia.

  23. vendap

    Posso dar aqui uma mijadinha? Muito obrigado.
    Passei por acaso aqui e vi esta algazarra toda à volta da Geórgia, Rússia, etc, e veio-me à tola um nome – Ossétia do Sul – que se bem me recordo fica encostada á Ossetia do Norte, ora a Ossétia do Norte é parte integrante da Rússia por opcão aquando da reformulação daquilo a que chamam hoje de “urso ferido e fraco”. Eu compreendo que tenham ficado desanimados com o resultado da contenda, ainda não foi desta, pensarão alguns, para a próxima não falha! Acontece que no meio desta algazarra vi escrito que pouco importa quem começou esta guerra – aliás, que importa quem começa e quem acaba? – ninharias… mas já agora vou lembrá-los do seguinte: A Georgia atacou selvaticamente a Ossétia do Sul, matando pelo menos 2000 civis…. escusam de estar aos berros a dizer que foram danos colaterais.. fizeram-no em primeira instancia com artilharia pesada a mais de 20Kms o que não conjuga com o verbo recuperar a antiga Ossetia do Sul mas sim com o verbo genocídio. Após tantos anos de internet ainda não tinha entrado num blogue tão fascizoide como este. O esforço que empregam nas teorias de treta para demonstrar que a Rússia está fraca, ferida de morte, vai acabar, não tem cheta, só gasta 5% dos EUA na defesa, etc é digna de entrar no guiness. O que faz um país não é o seu território. Para algumas mentes parece asneira o que estou a dizer..bem vejo. A identidade cultural, a história, a memória, o orgulho,a língua e os valores é que fazem um país. Estão convencidos que a Rússia gasta pouco em defesa e que não podem competir com os EUA directamente ao ponto de os pôr em sentido, ok. Por mim até me convem que pensem assim. Agora, sejam no mínimo honestos. Tentem enchergar para alem da verga. O único império que poderá cair é aquele que existir. No vosso entender já vejo a resposta..

    uff…..estava mesmo à rasquinha. Obrigado.

  24. A delimitação de zonas de influência sempre existiu e assim continuará a ser. A Rússia mais não fez que confirmar a sua tradicional política nas suas vulneráveis fronteiras do sul. Parece-me bastante irrealista pretender incluir um crescente números de Estados de duvidosa viabilidade no seio da NATO e isto, seguindo meros e momentâneos interesses económicos (energéticos, mais concretamente. Os russos agiram tal como todos os impérios o fizeram, Portugal incluído. Defenderam aquilo que consideram ser o seu “espaço vital”. Recuemos 400 anos e analisemos a política expansionista portuguesa no Brasil e os rotineiros “castigos” às cidades do Malabar.
    A Europa precisa de uma Rússia forte a amistosa e basta olhar para o mapa da Ásia Central para compreender esta inevitabilidade. Não desejamos decerto ver os chineses nos Urais ou num futuro mais ou menos próximo, sermos obrigados a enviar tropas de contenção dos islamitas em toda aquela zona. Os russos que façam o que lhes compete. Já que existe gente com apetites revisionistas, que tal reivindicar a entrega aos polacos de todos os territórios que faziam parte do reino em 1772? Se a loucura prevalecer, chegaremos lá. Já bem bastou o desastre de 1945!

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