Crónica de Alberto Gonçalves no Diário de Notícias.
Com a recente vaga de assaltos, hipotética ou verdadeira, voltou, principalmente graças à rapaziada do Bloco, a ladainha do criminoso enquanto inocente resultado da “exclusão” e da desigualdade capitalista.
A fulminante excepção vem do dirigente do BE João Teixeira Lopes, que, sem abdicar da ladainha (as causas estruturais, a “raiz do fenómeno”, a “violência social do Governo”, etc., etc., etc.), acusa a esquerda de falta de pensamento sobre a delinquência. O dr. Lopes, pelo contrário, pensa o assunto e preocupa-se com as vítimas do crime. Ou com algumas das vítimas. A demonstrá-lo, desce da teoria e, através do exemplo de um indivíduo a quem roubaram o automóvel, lembra que o indivíduo poderia ser operário de uma empresa sob, cito, “ameaça de deslocalização” e, cito de novo, “votar à esquerda”. Ou seja, se não há problema que um contabilista reaccionário fique sem o Opel a troco de dois tiros, é urgente a preocupação perante os crimes de que o potencial eleitorado do BE é alvo.
Em última instância, a espantosa argumentação do espantoso dr. Lopes eleva o racismo ideológico a lei e, de caminho, acaba com a anacrónica distinção entre agressor e agredido: o primeiro só é criminoso se for de direita, o segundo só é vítima se se inclinar para a esquerda.