Os Dias Contados

Crónica de Alberto Gonçalves no Diário de Notícias.

Com a recente vaga de assaltos, hipotética ou verdadeira, voltou, principalmente graças à rapaziada do Bloco, a ladainha do criminoso enquanto inocente resultado da “exclusão” e da desigualdade capitalista.

A fulminante excepção vem do dirigente do BE João Teixeira Lopes, que, sem abdicar da ladainha (as causas estruturais, a “raiz do fenómeno”, a “violência social do Governo”, etc., etc., etc.), acusa a esquerda de falta de pensamento sobre a delinquência. O dr. Lopes, pelo contrário, pensa o assunto e preocupa-se com as vítimas do crime. Ou com algumas das vítimas. A demonstrá-lo, desce da teoria e, através do exemplo de um indivíduo a quem roubaram o automóvel, lembra que o indivíduo poderia ser operário de uma empresa sob, cito, “ameaça de deslocalização” e, cito de novo, “votar à esquerda”. Ou seja, se não há problema que um contabilista reaccionário fique sem o Opel a troco de dois tiros, é urgente a preocupação perante os crimes de que o potencial eleitorado do BE é alvo.

Em última instância, a espantosa argumentação do espantoso dr. Lopes eleva o racismo ideológico a lei e, de caminho, acaba com a anacrónica distinção entre agressor e agredido: o primeiro só é criminoso se for de direita, o segundo só é vítima se se inclinar para a esquerda.

Saídas airosas

Ao que parece, George W. Bush não vai poder estar presente na Convenção do GOP que terá lugar amanhã, visto estar com a sua atenção dedicada à passagem pelo território americano do furacão Gustav, optando por discursar via satélite. Afinal, uma Convenção onde iria fazer tanta falta como o elefante que iconiza o partido.

Há sem dúvida males que, politicamente, são muito oportunos e surgem no momento mais desejado.

Registe-se também com agrado a evolução no esmero com que Bush exerce as suas funções. Afinal, ainda não há três anos, entrava o furacão Katrina em território americano, e estava o mesmo Bush ocupado em celebrar as vitórias no Iraque numa base da Marinha. No dia seguinte, já os diques haviam sido galgados, e celebrava a memória da vitória sobre o Japão na IIª Guerra na Califórnia.

Uma evolução assinalável, sem dúvida. E muito oportuna.

[editado]

Momentos de auto-crítica e clarividência inesperados

Palavras estranhamente sábias do progressista Miguel Portas (com negritos meus):

O eurodeputado bloquista Miguel Portas considerou hoje que a política europeia de imigração está a ser construída “pelo telhado” e tende a funcionar como “campo de experimentação social” e “laboratório de políticas repressivas”.

Público Última Hora.

Sinergias

Em pleno tempos de discussão acesa sobre a existência ou não de um aumento significativo da criminalidade violenta, da conjugação da liberdade e dos direitos e garantias dos indiciados ou arguidos pela prática de crimes com a eficácia do sistema judicial e com a própria orgânica e equilíbrio de poderes das polícias e do Ministério Público, é de notar a espantosa (e naturalmente coincidental) oportunidade da apresentação ontem à noite em horário nobre da nossa televisão pública de um documentário sobre a violência no Rio de Janeiro, essencialmente orientado para o relato da actuação do BOPE.

Os meus parabéns ao mais que provável autor institucional da encomenda, ou à possibilidade de direcção de programas já atingir um nível de treino que lhe permite, com autonomia e de moto próprio, do the right thing.

Fica contudo a minha curiosidade em relação a qual foi a mensagem que se quis passar: terá sido a de que “isto por cá não é nenhum Rio de Janeiro” ou de “vejam lá como é que as coisas podem ser bem piores”, ou a de que “bom, bom era ter-se uma coisa como o BOPE por cá” (esta última, naturalmente, debaixo da alçada do nosso primeiro)?

Se calhar, foram as duas.

Da flexibilidade ao contorcionismo

No Expresso deste fim de semana, surge no caderno de economia um artigo com uma fotografia de Joseph Stiglitz e uma jovem economista portuguesa, Joana Resende. Na legenda lê-se que esta última terá ficado fascinada com a “flexibilidade de pensamento” do vencedor do Prémio Nobel da Economia de 2001. Seguramente que não era esta a intenção de Joana Resende, mas perante o relatado pelo Expresso no que toca às declarações de Stiglitz no terceiro encontro de prémios Nobel, em Lindau, na Alemanha, “flexibilidade” é de facto uma palavra adequada. “Contorcionismo” também vem à ideia.

Segundo o Expresso, Stiglitz terá apontado o dedo à Reserva Federal norte-americana, atribuindo-lhe a responsabilidade pela crise financeira geral despoletada pela crise sectorial no mercado de hipotecas subprime. Até aqui tudo bem, embora imagine que as razões dele para este apontar de dedo não sejam iguais às minhas. O engraçado é que há apenas algumas semanas, num artigo traduzido pelo Diário Económico, ele colocava as culpas nos “fundamentalistas” do mercado e no papão “neo-liberal”. É impressionante como uma pessoa inteligente consegue, com base em factos relativamente incontroversos, contorcer a lógica para chegar às conclusões que são mais convenientes à sua agenda política.

O diabo está nos detalhes

No Correio da Manhã de hoje, Jorge Morgado, da DECO, dá os seus bitaites sobre o mercado de comunicações móveis na UE:

«Devemos caminhar para um mercado único. Em última análise, o que defendemos é que se acabe com o roaming e que as coisas funcionem como no mercado interno, em que só há chamadas dentro e fora da rede.»

Claro que o facto de que o cliente está fora da rede de origem quando está num país estrangeiro, que essa rede pertence a accionistas diferentes, tem licenças e custos operacionais diferentes para efectuar as comunicações, isso não interessa nada. Se calhar, o secretário-geral da DECO gostaria de participar numa equipa multidisciplinar composta por elementos dos 27 países da UE, que teria como objectivo redefinir e redistribuir as licenças de GSM/3G das dezenas de operadores existentes, para compulsivamente criar um conjunto de operadores pan-europeus que possibilitasse a sua visão. Tudo, claro, no melhor interesse dos cidadãos e consumidores europeus, de forma desinteressada e altruista. Fatal conceit, é o que é.

Curtas

A Ossétia do Sul e a Abkázia, têm todo o direito de se declarar independentes – se for a vontade dos seus cidadãos -, e a Rússia tem todo o direito de as ajudar. Mas não devia enviar tropas para essas regiões após lhes reconhecer a independência?

Ana Gomes tem todo o direito de gostar de estar completamente rendida a Obama, e o Público tem todo o direito de a convidar para comentar a Convenção Democrata. Mas não podia a senhora ou o jornal ter reparado que o discurso de Martin Luther King não começa com as palavras “I have a dream”? (página 10 da edição de 29/08/2008)

McCain nomeou uma mulher para vice-presidente. So what? Se isso lhe trouxer vantagem eleitoral, por ela ser mulher, é porque os eleitores o querem assim. É uma verdade de La Palisse dizer que McCain escolheu o candidato (neste caso a candidata) que mais votos lhe traz. O objectivo é governar, e para isso é preciso convencer o eleitorado. It’s democracy, stupid.