O PSD deveria governar sozinho

Na sua entrevista ao Expresso deste Sábado, Manuela Ferreira Leite foi confrontada com a hipótese de “pedir” uma maioria absoluta para o PSD (alguém deveria explicar aos senhores jornalistas que nenhum eleitor “dá” ou “tira” qualquer maioria absoluta. Todos eles votam em quem preferem que venha a governar, e a ausência de uma maioria absoluta não significa que eles tenham querido entregar o poder a um determinado partido, mas sem maioria absoluta. Apenas significa que a maioria dos eleitores preferia outros partidos, sem que nenhum deles tivesse conseguido um número suficiente de apoiantes para ser o mais votado). A líder laranja respondeu que não, que não o iria fazer, e acrescentou que “há muitas formas de estabilidade”, e que dependendo da “forma como os partidos saírem das eleições”, logo reflectiria sobre a possibilidade de realizar um qualquer acordo parlamentar ou formar uma coligação.

Já aqui escrevi sobre as razões pelas quais acho que, caso venha a vencer as eleições de 2009, o PSD deveria rejeitar toda e qualquer coligação com quem quer que seja, e que Manuela Ferreira Leite deveria dizer antecipadamente que, caso não obtenha maioria absoluta, prefere governar sozinha em minoria. A repetição da estratégia de 2002/05, por exemplo, poderá ser muito atractiva para muitos sectores do partido, mas os responsáveis do PSD demonstrariam uma enorme sensatez se não fossem por esse caminho. A razão é simples: das duas vezes que o PSD formou com o CDS um “bloco” à direita (no apoio a Freitas do Amaral nas presidenciais de 1986, e no período de 2002 a 2005) nunca conseguiu ganhar uma eleição. A AD, o argumento que o leitor se preparava para usar como forma de me desmentir, foi um caso diferente, pois o PSD não formou esse “bloco” com o CDS: a coligação incluía também o PPM de Ribeiro Telles (um partido ambientalista de centro-esquerda) e os “Reformadores” dissidentes do PS. Longe de ser uma “coligação de direita” contra a “esquerda”, a AD representou uma ampla aliança dos vários grupos da sociedade portuguesa que, da “direita” ao “centro-esquerda”, queriam “libertar” Portugal da tutela militar e do “socialismo da miséria”. Cavaco, por sua vez, ganhou (tanto nas legislativas como nas presidenciais) por ter conseguido, sozinho, reproduzir essa “coligação de vontades” em torno da sua pessoa.

Restará a hipótese de um novo “Bloco Central”, uma “Grande Coligação” com o PS, que obrigaria inevitavelmente o governo daí resultante a colocar-se sob a tutela do Presidente Cavaco Silva. Esta opção seria ainda mais desastrosa, pois desgastaria não só o PSD, mas também todo o regime político português: ao puxar o Presidente da República, actualmente numa espécie de Olimpo de neutralidade político, para a arena da governação, e ainda por cima ao comando de uma maioria necessariamente conflituosa (com ambas as partes preocupadas em “ganhar posição” para o pós-queda dessa coligação), tal “solução” apenas conseguiria criar uma onda de descontentamento contra todas as instituições do regime: partidos, parlamento, Governo e Presidência. Instalar-se-ia uma crise sem fim à vista, até porque depois da queda de uma tal “Grande Coligação”, será de esperar uma deslocação de parte do eleitorado dos dois grandes partidos para os partidos mais pequenos à sua “direita” e à sua “esquerda”, fragmentando o sistema partidário e criando uma instabilidade que dificultaria a resolução da “crise” resultante da queda desse hipotético “segundo Bloco Central”.

O melhor que Ferreira Leite poderá fazer será aquilo que aqui escrevi o mês passado: anunciar, logo à partida, que não se coligará com ninguém. E se não obtiver uma maioria absoluta, seguir o exemplo de Cavaco em 1985, governando em minoria e encostando CDS e PS à parede: forçar o CDS a ter de escolher entre viabilizar um governo do PSD sem daí extrair qualquer benefício, ou ser responsabilizado pela entrega do poder à “esquerda”; e obrigar o PS a ter de escolher entre viabilizar as políticas de Ferreira Leite (e enfurecer o seu eleitorado tradicional), ou ser rotulado por ela como um partido avesso a qualquer mudança e disposto a sacrificar o país em prol dos “privilégios” dos seus dependentes (afastando assim os eleitores flutuantes que decidem eleições). O PSD só terá a ganhar com este cenário. E o país não terá de pagar o preço de fugas para a frente que poderão ter consequências mais graves que os problemas que se pretendem resolver.

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6 thoughts on “O PSD deveria governar sozinho

  1. Sérgio Nicolae

    Excelente argumento para um filme de ficção científica.
    O PSD vencer as próximas eleições ?!?
    Desculpem mas em que dimensão do tempo isso acontecerá ??

  2. Este post foi escrito, seguramente, sob a influência de substãncia psicotrópicas. Assegura-me aqui o mano mais velho que é colega do Drº do IDT. Vejams: os militantes do PSD têm hoje como garantia duas coisas: que não lhes sái o euromilhões se não jogarem e que o PSD vai perder as eleições (só não sabem se por muitos se por poucos) Que faz este patusco: elabora uma tese tendo por premissa, não o improvável, mas o impossível. Há passatempos piores, seguramente. Mas o que é confrangedor é ver acólitos não só a aplaudir tão peregrina elaboração como ainda por cima a fazerem quastão de a citar, divulgando-a… Será que são amigos? Ou querem partilhar gargalhadas á sua custa??!

    PS: como pode governar sozinha ou acompanhada, uma senhora que sendo líder do maior partido da oposição não diz nada, não sabe de nada e espera para ver?!! Será que não percebem que mais que o passado de MFL, o seu presente dá a Sócrates argumentos ARRASADORES em campanha eleitoral. Só de pensar nos debates até tenho pena, como cavalheiro, é claro.

  3. Manuel Leão

    É por causa desta brilhante análise e de outras parecidas com esta, que estamos como estamos. Reconhecidamente bem, com um país reconhecidamente próspero e com um futuro reconhecidamente risonho. Estas brilhantes análises repetem-se, ciclicamente, pelo menos de 4 em 4 anos, desde há três décadas. O pior é quando desligamos a “play station” e a realidade “real” cai em cima das nossas cabeças, como caiu a maçã na cabeça de Newton.

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