Lógica alternativa cleptocíclica

No Ladrões de Bicicletas (where else?), Ricardo Paes Mamede sugere que «é preciso taxar os ricos», tendo em conta os algo surpreendentes números de vendas de automóveis no primeiro semestre deste ano (um aumento de 6,4% face a igual periodo do ano passado). Gosto especialmente desta parte [negritos meus]:

«(…) há motivos para acreditar que o crescimento das vendas automóveis é mais um sinal da grande assimetria na distribuição de rendimentos no nosso país. Não tenho dados sobre isto, mas não me admiraria que a quase totalidade do recente aumento das importações de automóveis em valor se ficasse a dever a carros de gama elevada.»

Que é como quem diz: Bem, pá, eu não sei do que estou a falar, mas enfim, pá, tendo em conta os meus preconceito ideológicos, pá, é bem de ver que temos de aumentar os impostos sobre os ricos. Têm sempre piada, estes gatunos de velocípedes. Em especial porque o valor de crescimento de 6,4% é em volume unitário e não em receitas. Isto é, venderam-se no primeiro trimestre de 2008 mais 6875 automóveis ligeiros de passageiros. Logo este número deveria ser uma indicação de que não devem estar em causa BMWs, Mercedes, Jaguares e afins.

A verdade é que não é preciso muito para obter os dados necessários. Quem quiser mandar bocas minimamente informadas pode ir ao sítio da ACAP buscá-los. Mais concretamente, aqui. Podemos ver assim, que os malandros dos fásssistas compraram mais 50(!) Jaguares e mais 4 (um escândalo) Maseratis neste semestre. Já menos felizes estarão os concessionários que venderam menos, como a Bentley (-1, uma queda de 50%, se calhar precisam de um subsídio), Ferrari (-4), Aston Martin (-7), Porsche (-6) e Lotus (-2). Ainda na «gama elevada», mas menos opulenta, a BMW realmente subiu 16,5% (mais 802 automóveis), mas isto não chega para compensar as quedas dos seus concorrentes Mercedes (-651), Audi (-453), Volvo (-305) e Alfa Romeo (-246).

E em termos gerais, quais as marcas que mais cresceram? Fácil, é só fazer contas, em vez de recorrer ao preconceito ideológico fundamentado na asneira. Seat (+2157), Fiat (+1962), Renault (+1481), Nissan (+1642), Ford (+1521), Kia (+843), Mini (+537), Skoda (+454), Smart (+419), Volkswagen (+359), Mitsubishi (+358), Hyundai (+183) e Opel (+116). Naturalmente, se somarmos estes valores, o resultado é superior ao aumento total de 6875. É por causa de todos os outros que perderam vendas, entre os quais os tais “carros de fásssista”.

15 pensamentos sobre “Lógica alternativa cleptocíclica

  1. mf

    É preciso mas é taxar os políticos , que andam à borla nesses carrinhos , e com motorista. E mais umas coisinhas. E tudo sem nada fazer de jeito.

  2. Pingback: Lógica alternativa cleptocíclica (2) « O Insurgente

  3. Pingback: Lógica alternativa cleptocíclica (3) « O Insurgente

  4. Miguel Botelho Moniz

    Caro Tarzan, tem razão. Não tinha visto. Agradeço ao André a chamada de atenção.

  5. Por acaso não conhecia os números, ainda bem que os foi buscar. É impressionante como qualquer número pode ser utilizado para fazer política fácil e demagogia da boa. Enfim, é o que temos…

  6. 🙂

    Já agora, não conferi o link mas, só por curiosidade, havia informação sobre algum aumento significativo de vendas de veículos GPL? Poderia, em teoria, ser um dos factores para o aumento das vendas, especialmente entre “carros de não-fássistas”.

  7. Miguel Botelho Moniz

    Há mais dados na Autoinforma, mas são a pagantes… Informação pública só o agregado por marca.

  8. A. R

    Pode o autor do texto referido estar sempre alerta: com estes números de vendas de automóveis podem sempre roubar-lhe a bicicleta. E se não roubarem é porque a bicicleta não está a ter saída: toca a bombar outra asneira. Eu tenho uma bicicleta que custou 350Euros. Alguém sabe se “é fassista”? Penso que sim: tem 21 mudanças e a maioria que vejo na rua só tem 3. Logo sou um priveligiado!!

  9. Segundo os dados disponíveis, a venda de carros aumentou. Factos são factos. Como porém outras coisas também aumentaram (desemprego, preço dos combustíveis, juros, crédito mal-parado, etc.), o que é que se depreende do aumento das vendas de automóveis normais? Que não se deve aos carros topo de gama dos “tios”, mas sim aos Fiats, Renaults Nissans dos filhos dos “tios” que vivem à custa dos papás? É que eu não estou a ver-me, e a muitos dos meus colegas empregados, a trocar de carro numa conjuntura destas.

  10. “É que eu não estou a ver-me, e a muitos dos meus colegas empregados, a trocar de carro numa conjuntura destas.”
    .
    Quem é que numa conjuntura destas acredita que tem o seu emprego e o seu salário garantido por direito divino?
    .
    Talvez seja cretinismo ideológico da minha parte mas a resposta é: os funcionários públicos.

  11. Direitos divinos só os “tios” é que os têm desde os tempos mais recuados e até ao fim dos séculos, amen. O resto das bestas como os funcionários públicos e demais empregados devem comer e calar e não se armarem em mais bestas do que já são…

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