Eduquês e propaganda pura e dura

Um dos mais perversos efeitos da ausência de liberdade de educação em Portugal é que o ensino e os exames de Português (e não só…) assentam cada vez mais numa nefasta combinação de eduquês com propaganda socialista pura e dura: Os testes de Português podiam ser substituídos por uns papeluchos como os do Totobola. Por Maria Filomena Mónica.

Hoje de manhã acordei a pensar no Ministério da Educação. Num mundo ideal, eu seria professora de Português, consistindo a minha missão em sujeitar a exame todos os membros do Gave (Gabinete de Avaliação Educacional), da DGIDC (Direcção-Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular), do GEPE (Gabinete de Estatística e Planeamento da Educação), da DGRHE (Direcção-Geral dos Recursos Humanos da Educação) e da ANQ (Agência Nacional para a Qualificação) usando para o efeito uma “grelha” por mim elaborada.

(…)

Nos Grupos II e III, transcrevia-se um texto de Luís Francisco Rebelo sobre “O Memorial do Convento” de José Saramago, e outro, de Guilherme Oliveira Martins, sobre o P. António Vieira. Do ponto de vista ideológico, o segundo era inócuo, o mesmo não se podendo dizer do primeiro. Depois de um elogio rasgado ao livro, L. F. Rebelo defendia coisas tão etéreas quanto a “a história não é uma categoria imutável e fixa, mas a contínua respiração da realidade, rio cujas águas nunca param e nunca se repetem”, desembocando o seu argumento no conceito de “luta de classes”, após o que remetia para o poema de Brecht, “Perguntas de Um Operário Letrado”, o qual servia de base para defender que “O Memorial do Convento reflectia o conflito entre um “rei beato” e os “servos da gleba”.

(…)

Voltando ao exame, intrigou-me a ênfase nos autores contemporâneos. Um anjo da guarda explicou-me o motivo. A 4 de Outubro último, através da portaria 1322/2007, Valter Lemos determinou que, este ano, os exames de Português do 12.º ano passassem a ter como matéria, não o que fora dado ao longo do ciclo, como sucedia, mas apenas o leccionado no 12.º ano. Tal como sucedera no exame de Matemática, a mutilação foi deliberadamente planeada, no sentido de tornar mais simples os exames. Pelo meio, desapareceram autores como Eça de Queiroz e Cesário Verde – declaro, é evidente, um interesse pessoal – substituídos por Luís de Sttau Monteiro e José Saramago, cujas obras, “Felizmente Há Luar” e “O Memorial do Convento”, são de leitura obrigatória (dada a fama internacional, Fernando Pessoa manteve-se). Em suma, dos clássicos, apenas Camões.

Como qualquer professor sabe, os alunos apenas estudam o que vem para exame, ficando indignados quando lhes “sai” uma coisa não estipulada. A portaria 1322/2007 deu-lhes autorização para esquecer o que eventualmente tivessem aprendido nos dois anos anteriores. Quem viu os telejornais, não pode ter deixado de notar as declarações no sentido de que o exame de Português tinha sido “canja” e que portanto o futuro iria ser risonho. Não, não vai. Porque os alunos, que hoje ostentam uma face optimista, não tardarão a chorar ao verificarem que não arranjam emprego.

A responsabilidade pelo desastre – porque é de um desastre que se trata – deve ser atribuída a quem ocupa o poder, isto é, em primeiro lugar, a Maria de Lurdes Rodrigues, uma ministra cujo objectivo passou a consistir em baixar o insucesso escolar por via burocrática.

(…)

No final, lembrei-me de ver a prova de Língua Portuguesa do 9.º ano, um exame a que foram sujeitos dezenas de milhares de estudantes. Do programa, simplório, não reza a História. Desta feita, o escândalo é o próprio exame. O principal texto – o A – versa a União Europeia. Retirado da Internet, é um artigo de propaganda. Espero que ninguém tenha a tentação de me vir explicar, a mim, que, nos idos de 1960, queimei as pestanas a tentar perceber o que, na opinião de Althusser, era um AIE (Aparelho Ideológico do Estado), e que, na década seguinte, se deliciou a ouvir o “We don’t need no education” dos Pink Floyd, que a escola transmite valores. Mas uma coisa é estar consciente do facto, outra aceitar que nela se transmita propaganda pura e dura. Ora, é isto que acontece nesta prova.

Não só os meninos foram sujeitos à ideologia veiculada pela “nomenklatura” europeia, como o que lhes era pedido se limitava a comentários de índole escolástica. Eis o início: “A União Europeia (EU) está empenhada no desenvolvimento sustentável. Para tal é necessário um equilíbrio cuidado entre prosperidade económica, a justiça social e um ambiente saudável. De facto, quando visados em simultâneo, estes três objectivos podem reforçar-se mutuamente. As políticas que favorecem o ambiente podem ser benéficas para a inovação e competitividade. Por sua vez, estas impulsionam o crescimento económico, que é vital para atingir os objectivos sociais.”

(…)

À volta da elite burocrática sediada no Ministério da Educação, existe hoje um enxame de “especialistas” que determina o que é, ou não, “correcto”. Os exames que elaboram poderiam ser substituídos por uns papeluchos como os do Totobola, nos quais os alunos fariam ao acaso umas cruzinhas, sendo estas posteriormente contadas por uma máquina. O actual secretário de Estado da Educação e os seus anões não pertencem à tradição humanística que fez a glória da cultura ocidental, mas a uma corrente pedagógica que vê o aluno como um robot e o professor como uma máquina registadora. O Português não é a sua pátria.

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3 thoughts on “Eduquês e propaganda pura e dura

  1. Ontem encontrei um sítio que considero fabuloso para a língua portuguesa: corpus do português

    Quanto ao ponto deste «post» é uma tristeza que quase todos os organismos de educação um pouco por todo o mundo Ocidental estão a fazer, no Reino Unido bastava respondeu com umas quantas ordinarices para se obter pontos nas respostas (bastava que as palavras formassem uma frase) mesmo que nada tivessem a haver com a pergunta…

  2. Pingback: Será que os exames são faceis? « My cool life in the west coast

  3. afonso pedro barbosa

    Nao deixa de ser interessante uma pessoa manter-se informada do que “por ai vai”. Mesmo quando se tem uma percepçao forte e conformadamente enraizada, como é o meu caso, sobre o “para onde isto vai”, às vezes é impossivel nao ficar surpreendido ao descobrir “onde isto jà vai”. A leitura do artigo no Publico “Os testes de Português podiam ser substituídos por uns papeluchos como os do Totobola ” de Maria Filomena Monica a 04 de Julho de 2008, obrigou-me a lguma reflexao sobre este assunto, que nao adivinhava estar ja tao avançado.

    A prodigalidade legislativa do Governo, empurrado pelo monstro europeu, jà nao é surpresa para ninguém, mas a velocidade com que ela se antecipa à propria realidade nao deixa de ser impressionante. No caminho da degradaçao cultural e linguistica que se tem vindo gradualmente a desenvolver no todo da sociedade, o poder – nao suficientemente contente com o facto que ja nao se encontre hoje em dia ninguem, a bem dizer, com menos de 25 ou mesmo 30 anos com quem se possa ter uma conversa interessante, numa palavra, que possua uma linguagem oral complexa – decidiu finalmente deixar-se de arcaismos e de visoes romanticas sobre essa “tradiçao humanistica” de que fala a autora do artigo e assumir a liderança do processo: daqui a 15 ou 20 anos, nao so os jovens nao saberao falar reflectidamente, mas nem mesmo poderao jà ler ou escrever dessa forma. O que é impressionante é que estes saudosistas d’outros tempos, que falam da “gloria da cultura ocidental”, nao viram (nao quiseram ver!) que essa cultura esta morta e por enterrar (nos museus, nas bibliotecas), e que o seu cadàver, apesar de assombrar ainda como um espectro os tempos modernos nao pode contudo – e talvez infelizmente (confesso) – ser ressuscitado. Esta elite intelectual que tendo lido Orwell nao o soube “perceber” (identificar, como diria um historiador burocrata) na realidade, antes que essa mesma realidade lho espetasse nas trombas: ninguem se indignou quando a ortodoxia se apoderou das ciencias naturais porque elas sao exactas (ainda um dia me haveriam de explicar em que é que isso torna o facto mais aceitavel); depois quando através da porta da “exactidao” e pela imposiçao da matematica (o calculo, na analise; a estatistica, na grande efabulaçao da contabilidade nacional) ela se emparou da economia e de seguida, pouco a pouco, e pelas mesmas travessas, das ciencias socias (se bem que a historia tenha sido, de um certo modo, precisemos, poupada) – poe-se agora a bradar aos ceus porque essa mesma ortodoxia quer penetrar, atraves do ensino, na linguagem e no pensamento. Um vislumbre do grande delirio orwelliano, duma lingua construida burocraticamente, apresenta-se-nos jà no real e nos fazemos um escabeche. Este infantilismo nao ajuda. Nao ajuda porque distrai e priva a atencao do essencial: a intromissao na lingua, como instrumento ultimo de controle, é a consequencia logica da evoluçao duma ortodoxia à qual todo os outros espaços foram deixados livres, e que os tendo mais ou menos, segundo o caso, preenchidos, se volta para a origem mesma do pensamento. Privando a atençao deste facto essencial esta analise é muito “pertinente” mas nao passa dos jornais, nao remete para as suas causas e nao tira consequencias, fica-se, morna e impotente, por uma denuncia simplista do secretario de estado e dos seus anoes, que nao sao responsaveis pela situaçao historica actual; numa palavra, restringe-se ao jogo mediatico.
    Orwell, observandoo nazismo e o comunismo, compreendeu que um povo privado de cultura e de historia, estaria à merce da opressao mais esmagadora e da tirania mais humilhante. Esta é a liçao do seculo XX, ele teve o merito de a descrever tao rapidamente quanto humanamente possivel. Herman Hesse previu a guerra (stephenwolve), mas talvez nem suspeitasse da possibilidade de um tal totalitarismo. Orwell foi um visionario, e talvez estivesse certo quando suponha que um povo privado nao so de historia e de cultura, mas tambem de linguagem propria, tornar-se-ia entao vitima de uma tirania certamente eterna porque nao questionavel.
    O problema, com o totalitarismo moderno é que ele nao tem um rosto cruel. Esta aparencia simpatica de “herdeiro do liberalismo” (é-o? nao o é?; questoes muito interessantes mas que deixaremos para uma outra ocasiao) tem-no escamoteado, mas à medida que ele se desenvolve e fortifica vai ficando mais visivel, porque a vida vai ficando mais insuportavel. E acima de tudo, ha que tirar as consequencias, de dizer alto e bom som que é de totalitarismo que se trata (em Portugal e em Bruxelas) e de nao fingir acreditar que a acçao do governo nao é consequente com a sua politica e com a realidade social actual : quando Maria Filomena Monica se faz de indignada porque estes jovenzinhos assim formados nao arranjarao emprego, revela toda a naividade do tipo de pessoas que tem a destreza intelectual para analisar a realidade mas, por um defeito emocional, por uma identificaçao romanticamente idealizada a essa “civilizaçao ocidental” que eles creem ainda a mesma da sua juventude, nao sao capazes de a enfrentar tal como ela se lhes apresenta, refugiando-se assim nesse tipo de subterfugios. Se, Maria Filomena Monica, acha mesmo que estas criancinhas idiotas que estao a sair da escola como da linha de montagem, nao vao arranjar emprego; se acha mesmo que eles estarao desactualizados no seu tempo, gostaria de lhe perguntar se jà se deu ao trabalho de ir ao centro de emprego?, ou simplesmente de consultar uma pagina de internet duma qualconque agencia de trabalho temporario? Se o fizesse aperceber-se-ia que para os empregos, os ateliers de formaçao e todas essas inutilidades que por ai andam, nao saber falar, ler e escrever duma forma reflectida, numa palvra nao saber pensar, nao é senao uma vantagem.

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