Ferreira Leite e a “falência do socratismo”

Manuela Ferreira Leite
No post de ontem
, afirmei que a recente participação de Manuel Alegre numa “festa” da “esquerda”, ao lado de figuras destacadas do BE, era sintomática da iminente falência do projecto de poder pessoal de José Sócrates. Por estranho que possa parecer, essa mesma falência terá consequências problemáticas para a nova líder do PSD, Manuela Ferreira Leite. José Sócrates embarcou numa política condenada ao fracasso, por depositar no Estado a esperança da condução de um processo de desenvolvimento económico; para o fazer, teve de “racionalizar” o aparelho de Estado, provocando o descontentamento dos seus dependentes que daí saíram prejudicados, e dos apoiantes mais tradicionais, que vêem em qualquer remendo um sintoma de “neo-liberalismo”; e para “salvar” o “Estado social” em que manifestamente acredita, teve de sobrecarregar os portugueses com mais impostos que aqueles que poderiam ser suportados por uma economia pobre e frágil numa conjuntura pouco favorável como a actual. O resultado, como seria de esperar, tem sido o progressivo esvaziamento do “socratismo”: o PS arrisca-se a sofrer a perda do eleitorado tradicional que se sente “traído”, e ao mesmo tempo, do eleitorado flutuante que está descontente com os resultados da política de Sócrates.

Em que medida constitui este esvaziamento um problema para Ferreira Leite? À partida, a ruptura desse eleitorado flutuante com o PS, ainda por cima agravada pelo desgosto de parte dos “fiéis”, deveria assegurar ao PSD uma maioria absoluta que daria a Ferreira Leite as condições necessárias, não só para governar o país, como para pacificar o partido internamente. No entanto, a percepção (injusta mas vincada, e acima de tudo muito cimentada pelas “mentiras” de Durão e Sócrates, com as “trapalhadas” de Santana pelo meio) de que “todos os políticos são iguais”, poderá levar esse eleitorado flutuante a ficar renitente em se virar para o PSD. Daí poderá resultar uma vitória do PSD em 2009, mas sem maioria absoluta, o que deixará Manuela Ferreira Leite com um complicado problema para resolver: como governar eficazmente, quando Portugal precisa de um governo capaz de fazer reformas difíceis? Muitos no PSD terão certamente a tentação de fazer uma coligação ou com o CDS/PP ou com o PS. Ambas as hipóteses seriam um erro.

No que diz respeito ao CDS/PP, o problema até poderá ser resolvido pelos lados do Caldas: se o partido liderado por Paulo Portas, que tem neste momento resultados em sondagens mais fracos que aqueles que eram obtidos na liderança de Ribeiro e Castro, continuar na mó de baixo, uma coligação à “direita” até poderá não ser suficiente para o PSD obter a maioria no parlamento. Se, por outro lado, o CDS/PP conseguir acordar, Manuela Ferreira Leite deverá resistir aos muitos que lhe pedirão uma repetição da estratégia de 2002/05. A razão é simples: das duas vezes que o PSD formou com o CDS um “bloco” à direita (no apoio a Freitas do Amaral nas presidenciais de 1986, e no período de 2002 a 2005) nunca conseguiu ganhar uma eleição. A AD, o argumento que o leitor se preparava para usar como forma de me desmentir, foi um caso diferente, pois o PSD não formou esse “bloco” com o CDS: a coligação incluía também o PPM de Ribeiro Telles (um partido ambientalista de centro-esquerda) e os “Reformadores” dissidentes do PS. Longe de ser uma “coligação de direita” contra a “esquerda”, a AD representou uma ampla aliança dos vários grupos da sociedade portuguesa que, da “direita” ao “centro-esquerda”, queriam “libertar” Portugal da tutela militar e do “socialismo da miséria”. Cavaco, por sua vez, ganhou (tanto nas legislativas como nas presidenciais) por ter conseguido, sozinho, reproduzir essa “coligação de vontades” em torno da sua pessoa.

Restará a hipótese de um novo “Bloco Central”, uma “Grande Coligação” com o PS, que obrigaria inevitavelmente o governo daí resultante a colocar-se sob a tutela do Presidente Cavaco Silva. Esta opção seria ainda mais desastrosa, pois desgastaria não só o PSD, mas também todo o regime político português: ao puxar o Presidente da República, actualmente numa espécie de Olimpo de neutralidade político, para a arena da governação, e ainda por cima ao comando de uma maioria necessariamente conflituosa (com ambas as partes preocupadas em “ganhar posição” para o pós-queda dessa coligação), tal “solução” apenas conseguiria criar uma onda de descontentamento contra todas as instituições do regime: partidos, parlamento, Governo e Presidência. Instalar-se-ia uma crise sem fim à vista, até porque depois da queda de uma tal “Grande Coligação”, será de esperar uma deslocação de parte do eleitorado dos dois grandes partidos para os partidos mais pequenos à sua “direita” e à sua “esquerda”, fragmentando o sistema partidário e criando uma instabilidade que dificultaria a resolução da “crise” resultante da queda desse hipotético “segundo Bloco Central”.

O que deve então fazer Ferreira Leite? Anunciar, logo à partida, que não se coligará com ninguém. E se não obtiver uma maioria absoluta, seguir o exemplo de Cavaco em 1995, governando em minoria e encostando CDS e PS à parede: forçar o CDS a ter de escolher entre viabilizar um governo do PSD sem daí extrair qualquer benefício, ou ser responsabilizado pela entrega do poder à “esquerda”; e obrigar o PS a ter de escolher entre viabilizar as políticas de Ferreira Leite (e enfurecer o seu eleitorado tradicional), ou ser rotulado por ela como um partido avesso a qualquer mudança e disposto a sacrificar o país em prol dos “privilégios” dos seus dependentes (afastando assim os eleitores flutuantes que decidem eleições). O PSD só terá a ganhar com este cenário. E o país não terá de pagar o preço de fugas para a frente que poderão ter consequências mais graves que os problemas que se pretendem resolver.

3 pensamentos sobre “Ferreira Leite e a “falência do socratismo”

  1. hehehe, o melhor post humorístico da época… nem o sr. silva (na minha opinião um dos piores e mais hipocritas políticos portugueses de sempre) nem a ferreira leite têm a competência política e pessoal para captar o eleitorado que se situa mais à direita daquela coisa rosa-alaranjada que entendemos pelos indistinguíveis ps-psd. O PP já perdeu demasiados votos por andar a reboque do psd sem se definir política e ideológicamente… pinto de sousa e ferreira leite, capitaneados pelo sr. silva, preparam-se para dar alegremente um passo em frente, quando Portugal está junto do abismo…

  2. Pingback: O PSD dveria governzar sozinho « O Insurgente

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