Animais glorificados

As lamentáveis cenas que vamos podendo acompanhar no dia de hoje protagonizadas pelos piquetes-da-greve-que-não-o-é, somadas às outras que tristemente ainda estão frescas na nossa memória dos protestos dos pescadores e armadores (essa parece que não foi lockout, curiosamente) fazem-nos pensar.

Quando assistimos à brutalidade com que os motoristas que compões esses piquetes ameaçam e coagem aqueles que são afinal os seus colegas de profissão, assim como os pescadores o fizeram aos seus colegas e aos seus interlocutores comerciais privilegiados do dia-a-dia (aqueles que afinal lhes passam para as mãos o dinheiro que paga o fruto do seu trabalho), fazendo valer a pura força dos números e a flagrante ameaça da integridade física e dos bens, temos que concluir que a suposta Ordem em que vivemos (já) não está assim tão longe do estado de natureza e da lei do mais forte que caracterizam a sua ausência.

Afinal, de quem trata assim aqueles que lhes estão próximos, os colegas e pessoas com que têm uma relação de interesses e comercial privilegiada, que respeito será de esperar pelos restantes anónimos e desconhecidos que compõe a massa dos seus concidadãos?

Quem está disposto a prejudicar, por dias a fio, terceiros que conhece e/ou que lhe estão próximos, não tem com certeza o mínimo problema em relação ao que aconteça aos demais para satisfazer as suas reivindicações. Afinal, para os que se manifestam em prol de regimes de excepção em termos fiscais, de taxas ou de subsídios, é indiferente de onde vem esse dinheiro, desde que os destinatários sejam eles. Se um distante contribuinte, para satisfazer a sua reivindicação, vai ter que pagar mais impostos, e como tal ver reduzido o rendimento do seu trabalho que lhe está disponível, tal é-lhe completamente indiferente. Desde que sejam eles os beneficiados.

É o claro espelho do desrespeito e do atropelo do (outro) indivíduo e daquilo que não é nosso. Tudo se transforma numa estratégia admissível e implementável de conquista de bem pessoal, da matilha ou do clã. Deixa de existir qualquer noção de justiça ou de paz social a preservar, e todos os meios passas a ser tácticas para atingir o fim em vista.

A própria noção do outro como sendo um como nós, da regra de ouro de não fazer ao outro o que não gostaríamos que nos fosse feito, é substituída por uma visão do outro como obstáculo a transpor. Importa é ter mais força do que ele e fazer valer os nossos interesses. Se o outro é mais fraco do que nós, e o atropelamos com a nossa força, temos pena. Teve azar de se atravessar na frente de um mais forte.

Todo este instinto primário também nos faz compreender muito em relação ao passado, e à génese desses comportamentos. Pelo menos, ajuda a compreender em parte a complacência e o carneirismo servil perante o estado que protagoniza muito a maneira de ser lusa. Afinal, constata-se que essa relação de subjugação, perante a máquina fiscal, as ofensas contra a privacidade, as mentiras, o condicionamento económico, o compadrio e a promiscuidade dos interesses dos poderosos e da máquina do estado é sustentado exactamente por esse mesmo mecanismo de medo e de demonstração de força.

Paralelamente, progredimos para um curioso ponto da nossa evolução como Sociedade em que se conjuga, simultaneamente, uma generalizada impunidade e anarquia das relações entre privados (que bem se pode retratar nesses últimos eventos) com um prepotência e uma discricionariedade do estado para com esses mesmos privados.

Uma afirmação mais colorida contra um elemento do estado, uma insignificante fuga fiscal, são tratadas rápida, eficaz e duramente pela máquina coerciva do estado, sem complacências; coacção, agressão, bloqueio de vias de comunicação e de instalações ou a destruição de propriedade privada são solenemente ignoradas. Não interessam.

Também não é difícil de perceber o apoio popular que rodeia estas últimas manifestações. Afinal, subjugado pelo peso da coerção e dos números no passado, é natural que quem não vê nem compreende os benefícios da existência de uma Ordem ou de regras torça para que aquele que o oprimiu seja também ele subjugado pela mesmo mecanismo de força, agora do seus lado. Ou seja, que a grande matilha seja afrontada pela coligação de pequenas matilhas, independentemente dos lobos isolados que sejam trucidados pelo processo. Não interessam os meios.

Onde é que isto vai parar? Não sei, sinceramente. Mas a História tem sido pródiga em demonstrar que a destruição dessa paz social e a ruptura das regras e dos entendimentos que sustentam uma Ordem tem custos elevados.

Afinal, destruir uma casa e gerar entropia é bastante mais fácil do que construir.

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38 pensamentos sobre “Animais glorificados

  1. lucklucky

    “Afinal, quem trata assim aqueles que lhes estão próximos, os colegas e pessoas com que têm uma relação de interesses e comercial privilegiada, o que será de esperar do respeito que terão pelos restantes anónimos e desconhecidos que compõe a massa dos seus concidadãos?

    Um bom retrato do tipo de “Solidariedade” que é construída pelo socialismo e pela social-democracia. Isto só acontece porque a Democracia é considerada superior á Liberdade.

  2. A.R

    Bom post … parabéns. Mas não queiram comparar, por favor. Os camionistas são de longe aqueles que exibem os melhores posters na sua cabina ..oh …oh…. Com material daqueles qualquer um se despista ou até pode perder os travões. De resto … é a trupe do costume com instintos PREC.

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