Olhó gregório!!

A propósito da ideia disparatada de Medina Carreira de arranjar um imposto suplementar de 30% sobre os rendimentos mais elevados, ouvi o Dr Miguel Júdice, provavelmente um dos maiores recebedores (ou devia escrever receptadores?) do dinheiro colectado pelos impostos em Portugal, dizia que sim senhor e que falava contra si próprio, porque está entre o milhão ou cem mil portugueses com maiores rendimentos e que é uma boa ideia. Não percebo esta gente. Se é uma ideia assim tão boa porque precisa de ser obrigado? Porque não contribui voluntariamente com mais 30% do seu rendimento para os cofres do Estado? Porque nos toma por imbecis e porque é um bom exemplo da potencial (efectiva?) regressividade do sistema fiscal português.

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Do descerebramento terminal nos media.

O alarido à volta da proposta do Sarkozy. Sim eu sei que ser cínico equivale a ser condenado às penas do inferno. À falta do diabo da religião elevam-se os cínicos ao estatuto. Carissimos, Sarkozy sabe, e nós também, que a hipótese de haver mudança no IVA dos combustíveis é quase zero (se não for mesmo zero) e toma os eleitores franceses por aquilo que provavelmente são: parvos. Quando a ideia for liminarmente recusada (precisa unanimidade dos 27) há-de dizer que foram os demónios neo-liberais (!!) da UE que impediram tão bela ideia de ir pra a frente. Entretanto em Portugal, o spin é parecido. Já não bastava a hilariante investigação ao cartel da gasolina ordenado pelo Ministro dos Salários Baixos também já alguém mandou um telegrama (isso) para a UE a propor parecido e o Min das Finanças veio dizer que bem, enfim, talvez, discutir, estudar, nhã, nhã, nhã, nhã, nhã, nhã…Moscas diferentes mas a mesma merda, portanto.
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Em tudo quanto é lado se analisa, escalpeliza e exegisa o artigo de Mário Soares no DN. Como diz aqui o camarada Tonibler o que Mário Soares escreveu tanto pode ser um raspanete como uma lista das procuras mais populares no Google. Uma patetice sem sentido nenhum.
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Antes disto acima houve o relatório sobre a pobreza e a desigualdade. Com excepção da ode ao disparate no artigo “A Globalização do disparate” do Professor Doutor Correia de Campos foi este o caso em que se bateu o record da asneira. Três coisas:

1 Como disse o António Barreto ontem – insuspeito de simpatias neo-liberais – há variadissimas razões para o aumento da desigualdade e nem todas más. Por exemplo: a massificação do ensino faz com que num primeiro momento aumente a desigualdade por coexistirem gerações (pelo menos três digo eu) com diferentes competências e consequente desigualdade e, atribuir responsabilidades a isto ou aquilo e a este ou aquele como fazem os dois estarolas do PSD e do PS dia sim dia não, equivale ao artigo do Professor Doutor Correia de Campos;

2 Como disse o mesmo António Barreto – que estudou o assunto – e a gente vai repetindo sempre que pode, o aumento da desigualdade não equivale a que os pobres estejam cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos. Todos estão mais ricos que há trinta anos só que uns ganharam mais que outros. Pela amostra do artigo do Professor Doutor Correia de Campos ele deve achar que o António Barreto só diz disparates;

3 Não há razão rigorosamente nenhuma para que haja fome e pobreza extrema em Portugal. O Estado consome anualmente 50% de toda a riqueza produzida (já não considerando dívida pública e/ou défice) e a desculpa para tamanha extorsão são as medidas sociais*. Consome-a em quê? O que fazem os burocratas com oitenta mil milhões de euros (grosso modo) que subtraem aos cidadão? Já sei que uma parte engraçada vai para o Dr Miguel Júdice mas, e o resto? Fazem disparates assim como o artigo do Professor Doutor Correia de Campos?

*Ocorreu-me agora, que quando foi discutido o OE de 2001, o então PM António Guterres, O Piedoso, interpelado por Paulo Portas sobre o despesismo do estado, retorquiu perguntando se o deputado do CDS queria que o Governo cortasse nas pensões dos velhinhos. Oitenta mil milhões, eighty billion, 80.000.000.000 aéreos. Por ano. Mais coisa menos coisa.

7 pensamentos sobre “Olhó gregório!!

  1. “Porque não contribui voluntariamente com mais 30% do seu rendimento para os cofres do Estado?”

    Esse argumento pertence à mesma família que aqueles argumentos do género “Fulano diz que é liberal mas é funcionário público!”. É o argumento do “sol no nabal e chuva na eira”.

    Imaginemos que o individuo A está disposto a pagar mais impostos para atingir um dado objectivo (equilibrar as contas públicas, financiar um programa qualquer, reduzir outro imposto, qualquer coisa…); se ele decidisse, unilateralmente, doar ao Estado o dinheiro que iria pagar a mais de impostos, iria suportar há mesma o custo (dar esse dinheiro ao estado) mas não ia ter o beneficio (já que, em principio, apenas a sua doação não seria suficiente para financiar o objectivo pretendido) – ou seja, A iria partir os ovos mas sem fazer a omolete.

  2. “Esse argumento pertence à mesma família que aqueles argumentos do género”

    Não Miguel, não é. Desde logo porque não há nada no liberalismo contra a existência de funcionários públicos, depois porque o que eu digo é:put your money where your mouth is, porque não há qualquer obstáculo de qualquer natureza (ao contrário do liberal fp do teu exemplo) à contribuição a não ser a boa vontade do próprio. A ideia do MJ é que pertence à mesma categoria dos que acham sempre bem que os outros paguem os caprichos deles. Ver Aquecimento Glo…perdão, Alterações Climáticas e preços dos combustíveis, por ex.

  3. Imagine-se uma reunião de condomínio. O Pafúncio propõe um aumento da mensalidade em 10 euros por mês para, com os 500 euros totais (estou imaginando um prédio com 50 apartamentos), contratar um porteiro. Se a proposta não for aprovada, há alguma razão para o Pafúncio fazer um donativo mensal de 10 euros ao condomínio (afinal, ele estava disposto a pagar mais 10 euros por mês para ter um porteiro no prédio, não a pagar mais 10 euros a troco de nada)?

  4. Miguel, isso pressupõe duas coisas:

    1 que o Pafúncio recebe um serviço em troca do que paga. Não é disso que se fala no tal imposto complementar, é de diminuição das desigualdades (acabar com os ricos, portanto);

    2 que no caso dos impostos existe uma relação directa entre o imposto pago e o serviço recebido, quando esse é o papel das taxas. MJ tem a vantagem de poder doar os 30% ao serviço do estado que mais lhe aprouver. Pagar camas ou medicamentos para hospitais públicos, bibliotecas para escolas, “adoptar” os pobres que esses 30% possam pagar, etc, etc.

    Da mesma maneira que não é uma família ou uma empresa, o Estado também não é um condomínio e os contribuintes não são condóminos.

  5. luis Moreira

    …todos estão mais ricos???

    Os pobres não sairam da miséria.Continuam pobres!É o mesmo que dizer que é melhor morrer afogado numa bacia de água que numa piscina,porque aquela tem menos água!

    esse racíocinio só é aplicável a quem está acima da linha de pobreza.Você sabe que há gente que trabalha e não consegue sair da miséria?

    Como é possível dizer uma coisa destas?

  6. “Os pobres não sairam da miséria.”

    Ou seja, os nºs de contribuinte e de BI que estavam atribuidos a pessoas pobres em 1980 continuam em 2008 atribuidos a pessoas pobres. Excepto eu e a família mais próxima. E mais quase todas as pessoas que eu conhecia há trinta anos. E parte substancial dos 500.000 retornados de 75. Merecemos um prémio.

    Mais: Você faz a mínima ideia do que era a pobreza em Portugal em 1980? Imagina sequer o que seria viver mais de um ano sem receber salário e a trabalhar? Sabe o que significava as bandeiras negras que apareciam em manifestações de Norte a Sul? Descanse que com o vosso Estado Social neo-socialista as bandeiras hão-de voltar. Sabe o que significa uma inflação de 30%? Sabe o que é viver com taxas de juro de 21%?

    “Você sabe que há gente que trabalha e não consegue sair da miséria?”

    Sei. Você sabe que o estado lhes leva 50% do que produzem com a desculpa de os poder ajudar?

  7. mf

    Não sei , mas acho que não é preciso ser doutor em economia para tirar conclusões da seguinte evidência : ao mesmo tempo que o povinho trabalhador vai ficando mais pobre , os donos do estado ( que nada produzem a não ser papeis) vão ficando cada vez mais ricos. A transferência da massa parece-me óbvia.

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