A preocupação com “o social”

(também publicado aqui)

Há dias, Manuela Ferreira Leite afirmou que os problemas que Portugal hoje enfrenta são de “natureza social”, e que portanto, a prioridade de um PSD por si liderado deverá ser precisamente “o social”. Logo esta frase foi tomada, por vários comentadores liberais (desde bloggers a Lobo Xavier) como uma tentativa de “ultrapassar o PS pela esquerda”, e claro mais um sintoma do suposto estatismo de Ferreira Leite, apesar de ela também dizer que o Estado precisa de deixar de “sufocar” a sociedade. Esta reacção é interessante, porque diz muito acerca da cultura política dominante em Portugal. A “esquerda” tem o triste costume de associar, a qualquer tentativa de cortar o peso do Estado, uma suposta indiferença para com “os pobres”, interpretando-a como a defesa de uma “selva capitalista” onde só pérfidos seres obcecados com o lucro podem sobreviver. Quando esses comentadores liberais, por Manuela Ferreira Leite mostrar uma “preocupação” com “o social”, a acusam imediatamente de ser “socialista”, estão a aceitar a caricatura que a “esquerda” faz de quem quer menos Estado: eles próprios parecem estar a aceitar que qualquer diminuição do peso do Estado é negativa para “o social”, parecem estar a aceitar a ideia, fomentada pela “esquerda”, de que uma solução “mais liberal” só piorará a situação de vida dos mais pobres. Ora, quando Ferreira Leite diz que a sua prioridade é “o social”, e ao mesmo tempo, diz também que o Estado precisa de ser aligeirado para deixar de “sufocar” a sociedade, o que ela está a dizer é que para melhorar a vida dos mais pobres, é preciso adoptar uma solução governativa mais liberal que a actual. E isso é algo que qualquer liberal deveria ver com bons olhos.

14 pensamentos sobre “A preocupação com “o social”

  1. Caro Bruno Alves,

    «Quando esses comentadores liberais, por Manuela Ferreira Leite mostrar uma “preocupação” com “o social”, a acusam imediatamente de ser “socialista”»

    Tem então de avisar a senhora para também não ter tanta aversão à palavra liberal tal como demonstrou no debate de hoje. O facto da senhora ser menos “socialista” que o Sócrates não a deixa de tornar “socialista”.

    «quando Ferreira Leite diz que a sua prioridade é “o social”, e ao mesmo tempo, diz também que o Estado precisa de ser aligeirado para deixar de “sufocar” a sociedade, o que ela está a dizer é que para melhorar a vida dos mais pobres, é preciso adoptar uma solução governativa mais liberal que a actual.”»

    Mas mesmo que a senhora procurasse uma solução governativa mais “liberal” que a actual, o facto é que a repercurssão dessa mesma nova solução governativa não se faria sentir no curto prazo no nível de vida dos pobres. E a senhora disse claramente no debate da TVI que o problema “social” tem de ser atacado já. Parece-me que a senhora, como qualquer bom “socialista”, vai abusar da redistribuição de rendimentos – e depois que ninguém se queixe de boa parte da população viver na dependência do Estado.

    Talvez se a senhora fosse um bocado mais explicita no que pretende fazer, mas não me parece ser essa a intenção da senhora. E dessa forma o discurso da senhora de “preocupação” com “o social” cheira-me um bocado ao discurso de miss de acabar com a fome no mundo.

  2. JoãoMiranda

    Bruno,

    Quando Manuela Ferreira Leite usa a palavra “social” está a usá-la num sentido muito preciso. Ela está a dizer que tomará medidas paliativas para minorar as consequências da crise económica entre os mais pobres. Ela tem uma perspectiva próxima dos católicos socialistas.

  3. HO

    “Tem então de avisar a senhora para também não ter tanta aversão à palavra liberal tal como demonstrou no debate de hoje”

    O liberalismo em Portugal é muitas vezes mais uma birra logocrata que outra coisa qualquer.

    “Mas mesmo que a senhora procurasse uma solução governativa mais “liberal” que a actual, o facto é que a repercurssão dessa mesma nova solução governativa não se faria sentir no curto prazo no nível de vida dos pobres.”

    Porquê?

    “Parece-me que (…) Talvez se (…) não me parece (…) cheira-me um bocado (…)”

    Eu sou bem mais assertivo: a MFL representa a única possibilidade, num futuro previsível, de reduzir o intervencionismo e dirigismo estatal em Portugal. Os outros não demonstram ter escrúpulos em não saberem do que falam – pior ainda, parecem comprazer-se em falarem do que não sabem. Depois chamem à política da MFL couve ou Plutão, que vai dar ao mesmo; e sempre poderá o Passos Coelho, que propõe uma artilharia de políticas socialistas e a privatização de duas empresas públicas, ficar, meritoriamente, o liberal, visto que se sente “confortável” com a palavra. Façam é um blog de apoio à senhora e convidem-me para escrever lá.

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  5. Caro HO,

    “Eu sou bem mais assertivo”

    eu não consigo ser tão assertivo porque a senhora compromete-se muito pouco com aquilo que pretende fazer.

    “Porquê?”

    Porque é uma mistificação que os problemas que afectam o país podem ser resolvidos de um dia para o outro. No dia em que um politico decidir efectivamente cortar o peso do estado na economia os efeitos no curto prazo serão negativos – fruto, entre outras coisas, da natural adaptação que os agentes económicos terão de fazer da nova realidade. O problema é que os politicos, e nisso Ferreira Leite em nada é diferente, centram boa parte da sua actividade em questões de curto prazo (o que normalmente, leia-se, implica intervenção estatal na economia) em detrimento das medidas que são as mais importantes: as de longo-prazo.

  6. HO

    Caro Jorge,

    “eu não consigo ser tão assertivo porque a senhora compromete-se muito pouco com aquilo que pretende fazer.”

    Dita-me a experiência que isso é sempre preferível a quem recorre a slogans de autocolantes. Mas admito que aqui exista algum grau de subjectividade; e onde o Jorge encontra indecisão ou vacuidade que se constituem como sub-solo para desconfianças, eu encontro saudável prudência. Já explicarei porquê adiante.

    “No dia em que um politico decidir efectivamente cortar o peso do estado na economia os efeitos no curto prazo serão negativos – fruto, entre outras coisas, da natural adaptação que os agentes económicos terão de fazer da nova realidade.”

    Provavelmente. Mas não necessariamente para os pobres.

    “O problema é que os politicos, e nisso Ferreira Leite em nada é diferente, (…)”

    Um dos problemas do sistema político português é a enorme dificuldade em escrutinar cada um dos políticos individualmente – o que pensam, como se conduziriam nesta ou naquela posição, como agiriam face a isto ou aquilo. O caso da MFL é, para mim, dos menos problemáticos, essencialmente porque lia os artigos que publicava num jornal. Já percebi que essa fonte tem sido entendida como ilegítima, quando não ridicularizada. Mas até me provarem que se tratava de escrita ficcionada, não encontro razões para não aplicar o princípio da simplicidade. Aliando a isto o que sei do percurso político da senhora, arrisco que a Ferreira Leite, não sendo diferente – nem ela o pretenderá ser, graças a Deus -, é muito melhor que as alternativas. Dentro e fora do partido.

  7. Bruno,
    Tenho de reconhecer que não te falta criatividade, mas MFL tem tanto de liberal como a minha bicla de trotinete…

  8. anti-comuna

    “Quando Manuela Ferreira Leite usa a palavra “social” está a usá-la num sentido muito preciso. Ela está a dizer que tomará medidas paliativas para minorar as consequências da crise económica entre os mais pobres. Ela tem uma perspectiva próxima dos católicos socialistas.”

    Estou em total desacordo com o JM. Ela tem uma perspectiva social-democrata à nórdica. (Os Liberais Sociais aí reinam, não se esqueçam.)

    O que os Liberais tugas têm que compreender é o seguinte. A fome está a propagar-se a alta velocidade em Portugal. E não tenhamos aqui dúvidas. Como já alguém aqui o disse e muito bem dito, se o Estado começar a cortar na despesa pública, isso terá efeitos recessivos e, porventura (embora não necessáriamente, dependendo da forma e a quem se destina essa mesma despesa) agravar mais as condições sociais de parte da população. Logo, cortar no monstro estatal vai exigir uma atenção especial com alguns grupos sociais, em especial as já vítimas da fome. É por isso que advoga a introdução, pelo menos temporária, das senhas de sobrevivência, à americana. E isto terá que ser feito o quanto antes possível.

    O problema, e outro comentador também o referiu, os liberais em Portugal quase só conhecem ou o Liberalismo económico ou teórico, esquecendo-se estes mesmos que o Liberalismo não se cinge a esta visão da sociedade. O Liberalismo, ou melhor, os vários liberalismos, em Portugal, estão fracamente representados e existe mesmo confusão entre os que acabam por ser liberais mas negam-no. Da mesma forma, muitos liberais têm a sua visão do que é o Liberalismo e agarram-se a essas ideias (ou fato, como diria PPC) e rejeitam como liberal tudo o que não encaixa nessa imagem do Liberalismo.

    MFL diz-se social-democrata. Logo dizem que é socialismo democrata. Não o é. É outra coisa qualquer e seria a muitos interessante compreender o que é mesmo a social-democracia e o liberalismo nos países nórdicos para tentar entender em que posicionamento ideológico se encontra Ferreira Leite. Eu sei, eu sei, que para muitos o Liberalismo nasceu com os clássicos do século XX ou até mesmo Locke e a sua defesa acérrima da propriedade privada. Mas o Liberalismo e as suas várias facetas não nasceu dessas ideias (ou tão pouco dos famosos “iluminados católicos”, como agora alguns o querem fazer crer). Mais, é preciso entender que o próprio comunismo nasceu do seio do Liberalismo, depois renegado e até espezinhado.

    O que me parece é que os rótulos são demasiado importantes no contexto ideológico português. E é tão caricato que até me faz rir quando um Liberal se diz liberal mas é-o conservador. Outros dizem-se socialistas mas são liberais. A maioria confunde defesa do capitalismo com liberalismo.

    Seja como for, neste momento, por várias razões, só Ferreira Leite pode e tem condições para aguentar o barco português que se afunda a alta velocidade. Mais que isso. Só mesmo Ferreira Leite tem as condições objectivas para levar por diante políticas que servem os interesses da agenda liberal e, mais que isso, de Portugal.

    Não gostam de Ferreira Leite? Ok. De acordo. Cada um é como cada qual. Mas não tenhamos dúvidas, é ela a maior esperança que podemos ter. Aliás, ela faz lembrar, em parte, o próprio Cavaco Silva. Que sendo um tipo de esquerda, foi o que mais teve políticas liberais em Portugal, aquando do exercício do poder.

    PM Por exemplo. Em quase todo o mundo protestante, Liberal tem uma conotação com a esquerda. Só em países católicos se conotam com a direita. Nunca meditaram no porquê? Por exemplo, nos países nórdicos, os partidos liberais designam-se mesmo: venstre. Nunca se meditaram no porquê? E o investigaram?

  9. anti-comuna

    Só uma pequena errata.

    Onde se lê isto:

    “É por isso que advoga a introdução, pelo menos temporária, das senhas de sobrevivência, à americana. E isto terá que ser feito o quanto antes possível.”

    Deve ler-se, para evitar erros de atribuição de ideias, já que sou eu que o advogo:

    É por isso que ADVOGO a introdução, pelo menos temporária, das senhas de sobrevivência, à americana. E isto terá que ser feito o quanto antes possível.

  10. MFL não tem que ser liberal… mas que está lá o ideário está.

    Desconfiem é daqueles que se assumem como liberais mas ontem tinham medo da palavra (viram a resposta de PPC à pergunta de Moura Guedes “é liberal ou não?)

    MFL é a única hipótese de libertarmos a sociedade da asfixia do Estado. Quem muito fala pouco diz 😉

    Parabéns Bruno, tem sido um prazer ler-te.

    Abraço

  11. O HO diz:

    “a MFL representa a única possibilidade, num futuro previsível”

    O anti-comunida diz:

    “só Ferreira Leite pode e tem condições para aguentar o barco português que se afunda a alta velocidade. Mais que isso. Só mesmo Ferreira Leite tem as condições objectivas para levar por diante políticas que servem os interesses da agenda liberal e, mais que isso, de Portugal.”

    O Nélson Faria acompanha:

    “MFL é a única hipótese de libertarmos a sociedade da asfixia do Estado.”

    Yes. She. Can. A única, só ela e mais ninguém… estamos safos.

  12. Caro anti-comuna,

    “É por isso que advoga a introdução, pelo menos temporária, das senhas de sobrevivência, à americana.”

    As senhas de sobrevivência até podem fazer sentido nos EUA onde os mecanismos de protecção social não se comparam aos de Portugal, a propósito:
    http://blasfemias.net/2008/05/24/uma-proposta-social/

    E sobre o carácter temporário da medida, o que não falta em Portugal é exemplo de medidas temporárias que rapidamente ganham carácter permanente.

  13. anti-comuna

    “E sobre o carácter temporário da medida, o que não falta em Portugal é exemplo de medidas temporárias que rapidamente ganham carácter permanente.”

    É das poucas medidas que não me importem que se tornem permanentes.

    Combater a fome tem que caber ao Estado e não apenas à sociedade civil. Posso mais tarde explicar melhor o porquê. Mas estamos a falar de combate à fome. Portanto, mesmo que se torne permanente, perfiro isso que gastar dinheiro em TGVs, RTPs, etc.

  14. lucklucky

    O comportamento de MFL enquanto Ministra da Educação e das Finanças demonstra claramente que ela não sabe ou não quer saber de mudar os dados de um problema. Para ela os contribuintes servem para pagar os vícios do Estado e prontos . Ela é o representante do Português ” Bom aluno da Europa” o copista que segue os outros e levará tudo á frente (incluíndo acabar leis básicas de liberdade e direitos) quando pressionada caso seja necessário salvar o Estado tal como está.
    MFL no IMI, quando enganou nos impostos, quando obrigou os contribuintes a serem eles próprios a provarem que não deviam dinheiro mostrou toda a sua escola de funcionária estatista.

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