Ortografia e ordem espontânea

Legislar a ortografia? Por Luís Pedro Machado.

Além de não reconhecer validade aos argumentos dos apologistas do Acordo Ortográfico, oponho-me a ele antes de tudo porque sou contra a ingerência estatal na ortografia; esta não deve ser objecto de legislação, pelos mesmos motivos por que não deve haver uma lei que defina o que é gramaticalmente correcto. Assim como os gramáticos e linguistas registam e sistematizam os usos linguísticos dum povo, seleccionando o que há de melhor ou mais representativo, dando relevância à norma culta, à expressão da língua na literatura, também os mesmos estudiosos deviam proceder analogamente quanto à grafia das palavras. É isto que acontece com a língua internacional actual de facto, o Inglês. Não há nenhuma academia britânica supervisionando a língua, como acontece com o Espanhol ou o Francês. E, no entanto, não há nenhuma selva ortográfica no Inglês, ao contrário do que a maioria pensa que acontece quando a ortografia não é regulada por lei. Aliás, penso que esta ausência de regulação é um factor de dinamismo e vitalidade da língua inglesa.

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7 thoughts on “Ortografia e ordem espontânea

  1. Mas a ortografia já está legislada – a única coisa que este acordo faz é trocar uma “lei” por outra (em certo sentido, como o acordo determina que as anteriores normas ortográficas continuam a ser aceitáveis, ele até “des-legisla” a ortografia).

  2. hajapachorra

    Ortografia quer dizer ‘grafia correcta’ e só pode sê-lo se alguém legislar definindo o que é correcto. Pode ser a escola, a polícia, a academia, a assembleia geral do benfas ou o parlamento, mas tem que ser declarada. Porque é que os palhaços não vão para as conferências de imprensa do sr. Luís Filipe Vieira?

  3. «Ortografia quer dizer ‘grafia correcta’ e só pode sê-lo se alguém legislar definindo o que é correcto.»

    Porquê? Há alguma legislação que diga que o símbolo correcto para a soma é este: “+”?

    Que eu saiba, a escola, a polícia e as academias não legislam. Se a escola ensina que para somar se usa o símbolo +, apenas está a ensinar uma tradição de séculos que não surgiu por uma legislação mas pelo uso livre dos matemáticos. (O símbolo + evoluiu a partir da letra p, inicial de “plus”, que é “mais” em Latim.) A mesma coisa se devia aplicar à ortografia. Isso de dizer que o correcto é o que vem na lei é próprio dum mundo orwelliano.

  4. Caro Miguel Madeira

    A crítica que faço ao facto de se legislar a ortografia também se aplica ao estado actual, claro. Fiquei sem perceber se você é a favor ou não de se regular a ortografia por lei. Mas quer se seja a favor ou contra isso, pode-se rejeitar esta reforma ortográfica por ser artificial e imposta sem consultar o povo. Por exemplo, é possível ser a favor da legislação ortográfica mas defender que ela se deve basear na norma que emerge do uso da língua. Pode-se ainda ser a favor da regulação ortográfica mas apenas se as reformas forem graduais. Não é a minha posição, como penso que ficou claro.

    Mas se se é contra a legislação ortográfica então é-se necessariamente contra esta reforma. É que se a legislação ortográfica é um mal, uma reforma ortográfica artificial e centralista é ainda pior: de facto esta é uma consequência daquela (explico melhor em baixo).

    Os políticos alteraram profundamente a ortografia em 1911 numa altura em que isso não afectava grande parte da população precisamente por ser analfabeta. Desde então, as reformas foram mínimas, o número de alfabetizados cresceu enormemente e essa grafia artificial (que está muito longe de ser perfeita; as regras de acentuação, por exemplo, parecem-me fracas) foi aprendida e usada por muita gente que a adoptou como sua. Agora, porque meia dúzia de iluminados pensa que a língua portuguesa vai ser o Quinto Império, querem mudar a ortografia à força, como em 1911. E olhe que há por aí muitos defensores do Acordo que o criticam por ser muito pouco ambicioso, que queriam uma escrita fonética (algo impossível, mesmo teoricamente, e se quiser explico-lhe porquê), que queriam alterar profundamente a grafia. Alterar a forma de escrever das pessoas por decreto é ilegítimo, inútil, violento, e potencialmente causador de desnormatização, precisamente o contrário do pretendido. Isto é uma consequência do facto de se regular a ortografia: impedem-se ou dificultam-se as mudanças naturais, progressivas, sedimentadas e desejadas pela comunidade falante e incentiva-se assim a mudanças administrativas periódicas que vão desagradar a muitos e prejudicar a sua vida. Diz-me que é apenas mudar uma lei por outra, como se isso fosse pouca coisa. Mudar uma lei que afecta toda a gente no seu dia-a-dia é algo em si mesmo indesejável. Era preferível que não houvesse lei nenhuma. Se é inútil, para quê, então?

    A estabilidade gráfica é algo naturalmente desejado por comunidades numerosas de falantes, precisamente porque contribui para a boa comunicação, para a melhor aprendizagem das normas gráficas, para a continuidade do património literário e para a poupança de custos de adaptação quer dos textos quer das pessoas. Deixe-se a comunidade em liberdade e dessa liberdade resultará ou uma estabilidade, ou uma evolução; mas qualquer que seja o resultado, esse será o que melhor se adequa às necessidades dos falantes.

    Como escrevi no blogue, este é o principal motivo por que me oponho ao Acordo, mas os meus motivos são muitos mais. Quando tiver mais tempo, expô-los-ei lá.

    «o acordo determina que as anteriores normas ortográficas continuam a ser aceitáveis»

    Onde é que o acordo prevê que as formas antigas continuam a ser aceites? Tanto quanto eu saiba, com o Acordo, “óptimo”, por exemplo, passa a ser “oficialmente errado” (haverá coisa mais ridicícula?), e apenas “ótimo” será aceite (ou aceito, como dizem os brasileiros…)

  5. Pá, vocês arrefinfem na *Nova Águia*, que ultimamente só por lá aparecem cretinos!

    Cumprimentos.
    P. S. Já não tenho paciência para argumentar acerca do Acordo.

  6. Pá, vocês arrefinfem na *Nova Águia*, que ultimamente só por lá aparecem cretinos!

    Cumprimentos.
    P. S. Já não tenho paciência para argumentar acerca do Acordo.

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