Contra a indiferença (actualizado)

O que se está a passar em Myanmar, antiga Birmânia, deveria merecer a nossa total indignação, e não a nossa aparente indiferença. Já morreram ou desapareceram, pelo menos, 60 mil pessoas, e a Junta Militar continua a recusar ou a dificultar, na prática, a ajuda internacional, motivada pelo sentimento egoista de manutenção de um dos regimes mais opressivos que o nosso mundo hoje (des)conhece.

Espanta-me, também, o silêncio geral; não de ninguém em especial, mas não nos devia fazer pensar a forma como conseguimos olhar passivamente para todo este drama, ao longo dos últimos dias? Compare-se com o ruído que houve a propóstito do Katrina e, se calhar, percebemos que a Ocidente ainda estamos manietados por enormes complexos de superioridade, que aos nossos olhos as vidas asiáticas ainda valem pouco, que continuamos a ser um país pequenino, que vive fechado no seu quintal, que, eventualmente, a população de Nova Orleães serviu, sobretudo, para que alguns aproveitassem a ocasião para destilar o seu rancor anti-Bush, misturado com a preocupação demonstrada com as pessoas em sofrimento. Não sei. São apenas interrogações.

Eu não posso fazer grande coisa. Como a maioria de nós. Mas, pelo menos, há que não perder a capacidade de nos indignarmos. De não olharmos com indiferença, passivamente, para tão grande sofrimento, piorado por quem joga as vidas de um povo inteiro nos tabuleiros e nos calculismos do Poder.

Nota: Afinal, há quem tenha falado na blogosfera sobre o ciclone da Birmânia.

Actualização: O cenário começa a ganhar proporções impressionantes: ciclone pode ter feito mais de cem mil mortos.

4 pensamentos sobre “Contra a indiferença (actualizado)

  1. Anónimo

    As minhas mais sentidas palmas para este post. É ensurdecedor o silêncio na blogosfera sobre este assunto, seja de esquerda seja direita, liberal ou conservadora. O mundo em que vivemos está mais interessado em discussão retórica de luta ideológica do que resolver os problemas.

    Em certos sectores é mais noticiado um soldado americano a atirar um cãozinho por uma ribanceira do que estes milhares de mortos na Birmania. O exemplo do Katrina é notável. Um morto americano em Nova Orleans para os cronístas da esquerda mais do que 10 mil mortos na Birmânia. Quem não se recorda das dezenas de artigos escritos sobre o Katrina pelo Miguel Portas, pela Joana Amaral Dias, pela Ana Gomes, pelo Vital Moreira, etc,etc. Tudo gente que na verdade se está nas tintas para a tragédia, apenas interessava a cartilha ideiologica.

    É preciso dizer ainda outra coisa. Não estamos a falar de catástrofes naturais em que nada podemos fazer, como terramotos ou tsunamis. Estamos a falar e uma tragédia TOTALMENTE evitável. Sabia-se o que iria acontecer 48 horas antes da tragédia. Isto que se passou na Birmania é uma vergonha para a humanidade e eu não vejo nem uma linha de indignação sobre o assunto. A quando do Katrina escreveram-se milhões de artigos sobre o Bush e a FEMA. Triste e patético o mundo em que vivemos !

  2. Anónimo

    Para vermos onde isto chega e o estado senil em que algumas pessoas se encontram.

    Al Gore Calls Myanmar Cyclone a ‘Consequence’ of Global Warming
    http://www.businessandmedia.org/articles/2008/20080506160205.aspx

    Uns aproveitam para falar do Bush e do Katrina, outros aproveitam para falar do aquecimento global, tudo a favor das suas pequenas grandes causas. Como se a história daquela região não estivesse cheia de ciclones devastadores aos longo dos séculos. Sobre as vitimas. Nem uma palavrinha. Mundo perdido.

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