A ditadura do soundbyte

(também publicado aqui)

No blog da Atlântico, o Pedro Marques Lopes mostra o seu desagrado por Manuela Ferreira Leite “nada propor e dizer” e logo chega à conclusão de que isso “não é propriamente uma coisa pensada: a senhora não podia ter outra porque – é agora claro – não tem ideias para coisa nenhuma.” Ao que parece, o Pedro andou um bocado distraído na última década, e não se apercebeu das funções exercidas, as intervenções políticas nos Congressos, as entrevistas, os artigos escritos, e a participação semanal num programa de rádio de Ferreira Leite, em que “a senhora” foi deixando bem claras as suas ideias para as mais variadas questões.

Se este fosse apenas um problema do Pedro Marques Lopes, a coisa até nem era muito grave. Mas esta começa a ser uma atitude geral, sintomática de um preocupante empobrecimento do debate político. Ao mesmo tempo que se esquecem as opiniões que durante anos e anos Ferreira Leite, toma-se como garantido que aquilo que Passos Coelho diz é aquilo que ele realmente pensa, e não uma mera ocupação de um “nicho eleitoral” que ele acha interessante. Independentemente dos respectivos méritos das ideias de um e outro, esta falta de atenção em relação ao passado de Ferreira Leite, e a falta de prudência em relação ao que Passos Coelho diz, mostram como a nossa cultura política vive obcecada com o soundbyte: se um político não arranjar uma frase bonita para dizer às 20 horas, é logo rotulado de “ineficaz” (na melhor das hipóteses) ou como desprovido de ideias. Se, por outro lado, conseguir arranjar umas propostas capazes de captar a atenção das pessoas (e ainda bem que Passos Coelho o fez), ninguém se preocupa em ver se elas batem certo com o seu comportamento político, ou se batem certo com outras coisas que anda a dizer. Só o presente imediato interessa, e nada do que está para trás ou a solidez do que se diz merece ser analisado.

A ditadura do soundbyte tem efeitos desastrosos: ao não tomar em conta o historial de posições de um político, faz com gente com inegável substância política (independentemente de se cahar se esa subtstância é correcta ou não) como Ferreira Leite seja tratada como alguém sem ideias, e oportunistas como Portas possam navegar ao sabor do “ar do tempo” sem serem penalizados pela sua falta de vergonha; ao não se preocupar com uma avaliação da sinceridade das propostas (que julgo meritórias) de Passos Coelho e a sua coerência com a sua “estratégia” eleitoral, faz com que se corra o risco de o PSD passar de novo por algo semelhante ao que aconteceu com Durão: de grandes proclamações de “reformismo” e promessas de aguentar a “impopularidade” para poder resolver os problemas do país, passou-se muito rapidamente aos recuos constantes e envergonhados, e ao mais puro oportunismo. Foi precisamente essa falta de avaliação do que se andava a dizer que Sócrates pôde fazer em 2005 uma campanha centrada nas promessas de “defesa do Estado social”, quando seria claro para quem passasse dois minutos a pensar sobre elas que essa “defesa” só poderia ser feita através de cortes nos benefícios e aumentos nos impostos. A pior coisa que o PSD poderia fazer seria cometer esse erro. Passos Coelho até poderá vir a ser um bom líder para o PSD, mas antes disso, deve ser devidamente avaliado. E alguém como Ferreira Leite, que tem todas as condições para desempenhar um papel importante como líder do PSD, não deve ser desvalorizada, só porque não segue o método socrático da propaganda.

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9 pensamentos sobre “A ditadura do soundbyte

  1. André Azevedo Alves

    “Independentemente dos respectivos méritos das ideias de um e outro, esta falta de atenção em relação ao passado de Ferreira Leite, e a falta de prudência em relação ao que Passos Coelho diz, mostram como a nossa cultura política vive obcecada com o soundbyte”

    Especialmente neste aspecto, era de facto aconselhável um pouco mais de prudência e bom senso.

  2. lucklucky

    Hmm então a Ferreira Leite do Governo Durão é alguém que garante que não vai recuar como o Governo Durão?

  3. lucklucky

    Hmm então a Ferreira Leite do Governo Durão é alguém que garante que não vai recuar como o Governo Durão?

  4. Bruno Alves

    “Hmm então a Ferreira Leite do Governo Durão é alguém que garante que não vai recuar como o Governo Durão?”

    A Ferreira Leite do Governo Durão, ao contrário do seu Primeiro-Ministro, ou do dr. Morais Sarmento, não recuou. A política dela seguiu o mesmo rumo durante dois anos, e era sabido que, antes de fugir para Bruxelas, o dr. Durão se preparara para demiti-la, precisamente para poder recuar no “rigor orçamental” coisa que ela se recusava a fazer.

  5. anti-comuna

    Excelente posta. Os meus parabéns. 😉

    E tem piada que o ministro das finanças mais marcante deste país, desde Cadilhe, seja tão mau apreciado.

    Havemos de contar a história…

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