Crises…

  1. Vivemos hoje em Portugal sob o síndrome do fim do mundo. A cada minuto somos bombardeados com notícias que nos apontam o caminho do abismo, sobre nós paira um denso manto, um clima de constante pavor. A apologia do medo é o driver mediático por excelência, o afrodisíaco de um certo mundo ocidental, o seguro de vida das classes políticas acomodadas e preguiçosas: para quê procurar as verdadeiras razões daquilo que se passa, se conseguimos reconduzir a realidade a duas ou três explicações simplistas, que mantêm as massas petrificadas e sem reacção?
  2. Depois do pânico ambiental, da escalada do preço do petróleo, nas últimas semanas, descobrimos que está aí à nossa porta uma crise alimentar mundial.
  3. Mas, afinal, o que se passa? De repente, há menos comida?
  4. É verdade que a maior incerteza pontual em que vivemos tem ajudado à especulação, e a instabilidade nos mercados financeiros tradicionais também conduziu à transferência de alguns investimentos para as commodities. A grande razão para a subida de alguns géneros é, porém, de explicação simples: assenta na regra mais básica da economia, aumentou a procura, a um ritmo menor que o crescimento da oferta, logo, têm subido os preços. Há mais gente a consumir nos países emergentes, com consequências nos preços: temos, por isso, uma pobreza agravada em algumas zonas do globo, dada a diminuição da pobreza noutras zonas.
  5. E temos, também, novos pobres, no cantinho onde vivemos. As subidas dos preços do petróleo e dos géneros alimentares representam uma ameaça ao nosso modo de vida? Sim, claro, porque a escalada dos preços significa que há hoje outros players na economia mundial, que concorrem – também – com a Europa e com os EUA pelos recursos, que estão dispostos a pagar mais do que aquilo que nós gostaríamos – ou conseguimos – suportar…
  6. Na nossa hipocrisia, sempre nos sentimos bem com a pobreza do resto do mundo, fechados nas nossas fronteiras super-protegidas, sonhando e vivendo as nossas Utopias, aliviando as consciências com a nossa acção “solidária”. A globalização, ao contrário do que é cantado pelas esquerdas mais ou menos anticapitalistas, não tem tornado os ricos cada vez mais ricos, representando antes o grito do Ipiranga das economias emergentes, que já não se relacionam com a Europa e os EUA de mão estendida, que não estão já disponíveis para financiar passivamente a Utopia com as mais-valias das suas riquezas e da sua força de produção. Querem o seu quinhão, estão a regateá-lo todos os dias, no jogo económico global.
  7. Em dois terços do Globo, lendo jornais, ouvindo as notícias, falando com as classes médias emergentes, não se nota que o planeta viva qualquer “crise”.
  8. O mundo, no seu todo, não está em “crise”. Nunca o PIB mundial foi tão elevado, nunca se criou tanta riqueza. O planeta está é, a cada dia que passa, em grande mudança, mais exigente. Podemos continuar a tentar encontrar bodes expiatórios para as dificuldades, paralisados pelo medo. Ou perceber que não há forma de fugir às novas exigências e, com mais coragem e inteligência, sermos agentes ainda mais activos no jogo da concorrência. O problema é que, ganhar na globalização, dá muito trabalho, implica sacrifícios acrescidos, uma maior apetência pelo risco. Mas será que preferimos ser os novos pobres deste planeta cada vez mais rico?

2 pensamentos sobre “Crises…

  1. “…o grito do Ipiranga das economias emergentes, que já não se relacionam com a Europa e os EUA de mão estendida, que não estão já disponíveis para financiar passivamente a Utopia com as mais-valias das suas riquezas e da sua força de produção. Querem o seu quinhão, estão a regateá-lo todos os dias, no jogo económico global.”

    Raf,

    O que escreveu acima poderia ter saído de um qq texto marxista. Ou então, um marxista não diria melhor 😉
    Dito isto, subscrevo a parte transcrita do seu parágrafo.

  2. Caro Marvão,
    Não vejo qualquer marxismo na substância do meu post. Eu falo no jogo da concorrência, numa destruição criadora, em mudança, e não em autofagia capitalista, em acções planificadas, nem sequer há previsões historicistas do futuro, há apenas uma constatação da realidade. O petróleo é uma fonte de energia necessária para o status quo ocidental? Então, os países produtores dizem: o Ocidente que o pague. A mão-de-obra no Oriente é qualificada e mais barata? Então, façam-se novas mega-empresas asiáticas, como a LG e a TATA, que aos poucos começam a estar na linha da frente. A India quer ultrapassar, em 2030, os EUA, já não querem ser o parente pobre da economia mundial. A China tem também aspirações. À sua escala, veja a forma como Angola se relaciona hoje com Portugal, exigindo igualdade e reciprocidade.
    O marxismo coloca opostos sob tensão. Eu limito-me a constatar que uma parte do mundo, que estava excluída dos benefícios da economia e da produção, passaram a jogar, e bem forte, com a globalização, o que causa desconforto em alguns sectores produtivos europeus, mais expostos à concorrência, edeixa a nu algumas Utopias, que se subsidiavam em parte na miséria alheia, usando as riquezas dos países não ocidentais.
    Falar em exigência, concorrência, uma maior participação de todos na economia global e uma maior distribuição dos benefícios da globalização, de uma forma expontânea, não tem nada de marxista, pelo menos do Marx que eu conheço (há outros Marxs, até há quem diga que ele podia ter sido Jesus Cristo, nesse plano não discuto).

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.