Eu e Pedro Passos Coelho

No blog de apoio a Pedro Passos Coelho, volta-se ao que aqui escrevi a propósito das minhas reservas acerca do dito candidato. Tentarei responder separadamente:

1- Tiago Azevedo Fernandes acha que o facto de haver uma discussão aberta acerca do futuro do PSD será suficiente para que as minhas inquietações sejam infundadas. Percebo a ideia, mas não consigo concordar com ela. Vejo a realidade interna do PSD com cores muito negras. Por muito “aberto” que seja o debate, tenho muitas dúvidas que, mesmo que uma solução “liberal” e “reformista” venha a sair vencedora desse debate, tenha condições para se afirmar, se os mecanismos internos do partido não foram radicalmente reformados. Passos Coelho não só não se pronunciou sobre isso, como não fez nada que me dê garantias (admito que possa ser excesso de zelo meu, mas depois de Durão e da minha desilusão com ele, todo o “zelo” é pouco) de que percebe a natureza do problema. É precisamente por isso que a citação feita por Vasco Campilho, de Passos Coelho a afirmar que é “ridículo” afirmar que ele é o “herdeiro de Menezes”, não me satisfaz. É claro que é ridículo afirmar isso. O que já não é ridículo é temer que a) Passos Coelho não tenha a noção das dificuldades de que essa parte do partido só o apoia porque o vê como o mais fácil de destruir, ou b) que Passos Coelho ponha, como Durão, a vitória eleitoral à frente das condições necessárias à implementação do programa que diz defender. Se Passos Coelho vier a ganhar, espero estar enganado.

2- O Paulo Gorjão diz que nada me pode levar a crer que a declaração de apoio por parte de alguns “menezistas” tenha condicionado a agenda política de Passos Coelho. De facto, não posso. Não tenho qualquer “informação confidencial”. O meu problema é outro: não há nada que me garanta que essa agenda, por muito “livre” que seja hoje, venha no futuro a ser aplicada. Mais uma vez, poderei estar a ser “demasiado exigente”, mas apenas estou a tentar ver o que vale Passos Coelho. Estou apenas a tentar ver se o que ele diz continuará a ser dito daqui a uns anos, e se chegar ao poder, o quererá fazer (ou se terá as condições para o fazer). O Paulo diz que exijo menos de Ferreira Leite. Não é verdade. Apenas tenho em conta que, para o papel que eu acho que Manuela Ferreira Leite pode desempenhar no PSD, o seu percurso político me dá todas as garantias. Para a implementação do programa que Passos Coelho diz querer seguir, garantias são algo que escasseia.

3- Vasco Campilho diz-me que “a postura do comentador não se adapta à função do político numa sociedade democrática”, e que portanto, Passos Coelho não pode dizer aquilo que “exijo” que ele diga. O problema, caro Vasco, é que Passos Coelho, se quiser reformar o país, não terá de convencer “políticos numa sociedade democrática” mas gente que tem de formar opiniões acerca das escolhas à sua disposição: todos os eleitores são, de certa forma, “comentadores”. E há muitos eleitores que, como eu, podem ver com agrado as palavras de Passos Coelho, mas duvidam da sua sinceridade ou capacidade para as implementar, e esperam dele sinais que dissipem essas dúvidas. Para os dar, o que Passos Coelho tem de fazer é precisamente ter uma “postura” diferente daquela que os políticos normalmente têm: tem de demonstrar estar disposto a perder. Foi isso que ainda não vi.

Espero, meus caros, que tenha deixado bem explícitas as minhas dúvidas e a razão pela as tenho. Caso contrário, façam o favor de me criticar. Aproveitem, porque quando eu tomar o poder, essas brincadeiras vão ser a primeira coisa a acabar.

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8 pensamentos sobre “Eu e Pedro Passos Coelho

  1. Caro Bruno Alves, nós os dois já andamos por aqui na blogosfera há um bom par de anos. Ambos convivemos bem com a diferença e com a divergência. No problem. Um abraço.

  2. “facto de haver uma discussão aberta acerca do futuro do PSD”

    Um esclarecimento: eu refiro-me não apenas à discussão agora, mas à discussão permanente que expliquei num post anterior.

  3. Bruno Alves

    “Quem é este Bruno não-sei-quê”. Boa pergunta. Eu próprio tenho as minhas dúvidas. mas cheira-me que não é grande espingarda…

  4. André Azevedo Alves

    “Eu próprio tenho as minhas dúvidas. mas cheira-me que não é grande espingarda…”

    🙂

  5. Bruno,

    “Para os dar, o que Passos Coelho tem de fazer é precisamente ter uma “postura” diferente daquela que os políticos normalmente têm: tem de demonstrar estar disposto a perder.”

    Entendamo-nos: ninguém se apresenta a um despique eleitoral disposto a perder. Diferente disso, é estar preparado para perder. E nesse aspecto, PPC é, de todos os candidatos, o que está em melhor posição.

    Quanto ao resto, afigura-se-me que estás a hiper-valorizar questões pessoais ou ódios de estimação. A crise do PSD passa precisamente por um excesso de hostilização entre barões e baronetes e quem quiser marcar a diferença, não pode ir por aí. Acresce ainda que, os “eleitores de Menezes” (se é que eles andam presos com uma trela… ) ou de qualquer outro candidato ou ex-candidato não têm sarna que justifique tamanho segregacionismo contra eles.

  6. Afonso Henriques

    A verdade é que os “criadores” de Pedro Passos Coelho, de quem tentou distanciar-se no Congresso, têm grandes responsabilidades no estado actual do PSD.
    Houve uma intenção deliberada de fragilizar o partido, na qual Menezes participou activamente, para eleger Passos Coelho no momento oportuno.
    Tratam-se de interesses pessoais, nada mais.
    Infelizmente, Pedro Passos Coelho é uma criação de um grupo de pessoas que quer ver os seus interesses continuarem a ser acautelados quando Sócrates deixar o poder.
    É mesmo só isto!!!

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