Não é uma questão de pureza, mas de convicção

Caro Vasco Campilho, agradeço a preocupação que demonstra com a eventualidade de um “purista” como eu vir um dia a “tomar o poder”, o que significaria (como é evidente) que a “tirania” estaria “próxima” (Stalin ao pé de mim seria um simpático cordeiro). Mas devo dizer-lhe que exagera um pouco ao atribuir as minhas dúvidas acerca de Passos Coelho a uma preocupação com a “pureza” do seu programa. Na secção de comentários ao meu post, já procurei responder (num texto cheio de erros ortográficos, devo alertar) a algumas das objecções ao que escrevi. Mas aquilo que diz merece uma tentativa cuidada de resposta, pois essa não é de todo a minha preocupação.

Aliás, se a “pureza liberal” fosse a minha preocupação, eu não teria escrito, aqui e noutros locais, insistentes textos de apoio a Marques Mendes, que longe de ser um liberal puro (aliás, eu próprio não o sou, o que me causa inúmeros problemas no interior do Insurgente, que é como se sabe, um blog fássista onde a dissidência é punida sem perdão), estava na minha opinião a fazer um trabalho meritório na liderança do PSD. A minha dúvida, visto não conhecer Pedro Passos Coelho, está, não da “pureza” do seu programa e dos seus apoios, mas na convicção dele naquilo que diz, e na sua capacidade para o levar adiante.  Diz o Vasco que PPC explicitou “repetidas vezes” as suas ideias. Durão Barroso também, e foi o que se viu. Ora, eu, que na excitação da juventude  me deixei entusiasmar por Durão, não repito o erro (aos vinte e três, sou já um velho marcado pela desilusão). E antes de “abraçar” Passos Coelho como se ele fosse a Diana Gomes (aquela jovenzinha da natação), quero apenas ter a certeza que ele põe as suas convicções acima da possibilidade de vencer. Ora, quando Passos Coelho vai buscar o filho de Menezes para mandatário da juventude (aliás, um daqueles cargos típicos da “velha política” que Passos Coelho diz querer abandonar. Alguém me explica o que é que faz um mandatário de juventude, a não ser, no caso em concreto, oferecer um apelido que sinalize aos dependentes do “menezismo” que é por ali que devem ir?), eu não consigo deixar de pensar que ele, de forma oportunista, coloca a possibilidade de vencer antes da construção das condições necessárias à implementação do programa que ele diz defender, na sua lista de prioridades.

Para quem, como eu, acha que o grupo de interesses à volta da última direcção do PSD tem como objectivo a destruição de todas as possibilidades do PSD vir a ter um programa “reformista e liberal”, ver Passos Coelho a procurar activamente o apoio desse grupo de interesses é um sinal de que ele ou não percebe a alhada em que se está a meter, ou não se preocupa. Para quem, como eu, não conhece Passos Coelho, essa procura activa do “voto menezista” não bate certo com as ideias que ele diz defender. Para quem, como eu, não conhece Passos Coelho, o seu comportamento nos últimos dias leva a crer que ele, no fundo, é outro Durão, outra desilusão à espera de acontecer. Para quem não conhece Passos Coelho, é necessário que ele mostre, não a sua “pureza”, mas as suas convicções: que prefere perder a passá-las para debaixo do tapete. Eu não sinto que ele tenha dado essa prova. O Vasco poderá achar que eu estou enganado, e se calhar até estou. Mas se pensa que eu sou o único a pensar assim, quem está enganado é o Vasco.

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4 pensamentos sobre “Não é uma questão de pureza, mas de convicção

  1. José Barros

    Perfeitamente de acordo com o Bruno Alves. A minha opinião sobre Passos Coelho é exactamente a mesma: a “contratação” do filho de Menezes para mandatário da juventude não “cola” com o discurso de mudança que, aparentemente, o candidato pretende manifestar. Passar um cheque em branco só porque um candidato faz um papelucho com dez “valores” que promete respeitar, é que não…

  2. André Azevedo Alves

    “aliás, eu próprio não o sou, o que me causa inúmeros problemas no interior do Insurgente, que é como se sabe, um blog fássista onde a dissidência é punida sem perdão”

    Não esquecer a regra de silêncio sobre as temíveis punições…

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