Pedro Passos Coelho enfrenta um teste à sua credibilidade

Parece que os “menezistas”, na ausência do seu líder, e sem que Alberto João Jardim se tenha decidido a avançar, se viraram para Pedro Passos Coelho e irão apoiá-lo na corrida para a liderança do PSD. Se Passos Coelho quer ser levado a sério como promotor de uma mudança no PSD num sentido “liberalizante” (como disse querer no Prós e Contras), deverá ter cuidado com isso. Pois se é verdade que não pode impedir as pessoas de votarem nele, pode certamente não apostar deliberadamente no cortejar das hostes “menezistas”: se o fizer, se assentar a sua táctica eleitoral na captação de votos “menezistas”, estará apenas a mostrar que não percebe a natureza do problema que o PSD enfrenta.

Menezes representou, como já escrevi, a face de um PSD “autárquico” que, revoltado com a estratégia de Marques Mendes de subordinação dos interesses dos aparelhos locais à estratégia nacional de credibilização do partido (visível no retirar do apoio do partido a Valentim Loureiro, Isaltino ou Carmona Rodrigues), lhe retirou o poder interno e reorientou o PSD de acordo com esses interesses locais: veja-se como Menezes rasgou os pactos da lei autárquica (que retirava poderes às juntas de freguesia) e do mapa judicial (que poderia implicar o fecho de alguns tribunais no interior do país). Os “menezistas” vêm Ferreira Leite como uma continuadora da estratégia “mendista”, e precisamente por isso, querem que qualquer pessoa que não ela venha a conquistar a liderança do PSD. Queriam que menezes se recandidatasse, depositaram esperanças em Jardim, e não confiando em Santana Lopes, tiveram que arranjar alguém. Mais por acidente do que por convicção, encontraram Passos Coelho.

Não é estranho que gente que, em relação à RTP, apenas queria cortar a publicidade, e que no que toca à CGD só se preocupava se a chefia ia ou não para alguém do PSD, corra agora a apoiar alguém que defende a privatização de ambas? Tal alinhamento só se compreende se percebermos que o “menezismo” reconhece a frágil posição em que, se ganhar, Passos Coelho ficará: com um eventual falhanço eleitoral em 2009, Passos Coelho terá poucas condições para “aguentar” o partido, e Menezes poderá regressar, responsabilizando a “aventura” da aposta “num jovem sem passado” pelos resultados e apresentando-se como alguém que teria tido melhores resultados se “eles” o tivessem deixado tentar. Menezes e os seus aguadeiros só apoiam Passos Coelho na esperança de este falhar. Querem erguê-lo para depois o deitarem abaixo, e recolherem os cacos. Se Passos Coelho quiser ganhar o PSD, mas ganhar para mudar o partido e o país, terá de ganhar contra o “menezismo”. Terá de criticar a liderança de Menezes, e dizer abertamente que percebe a jogada interesseira que Ribau e Marco António se preparam para fazer. Se quer ser levado a sério, Passos Coelho tem de mostrar que prefere perder votos a ser feito de refém de quem estragou a imagem do partido no país. Se quiser continuar a pensar como um jota, então, faça o favor de abraçar Menezes e os seus dependentes. Se quiser ganhar, e se quiser fazer alguma coisa de relevante com essa vitória, tem de mostrar que está disposto a perder.

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9 pensamentos sobre “Pedro Passos Coelho enfrenta um teste à sua credibilidade

  1. http://www.militantedebase.blogspot.com/

    Sou daqueles que não deixo de simpatizar com a candidatura de PPC.
    Falta-lhe por enquanto contudo, conteúdo.
    Não basta construir umas linhas programáticas e dizer que estão abertas para discussão pública. Um rebanho precisa do seu pastor. Logo precisa de conseguir passar algo mais forte do que a mera ideia de abertura á sociedade civil.
    Por outro lado a postura. Temo que desta postura ministral PPC não consiga descolar. Um líder para arrastar as massas precisa de ter uma postura mais proactiva, mais incisiva e acima de tudo mais motivadora. Resumindo eu olho para PPC e ainda não consigo ver nele um candidato GANHADOR.

    http://www.militantedebase.blogspot.com/

  2. O PPC não vai fazer campanha contra ninguém. Vai afirmar princípios pela positiva, e abrir o debate interno e à sociedade civil. O resultado disso será uma política oposta à de Menezes em muitos pontos (noutros não), mas não centrado em pessoas. Já basta de fulano contra sicrano. Se ele for coerente, será ideias contra ideias, projectos contra projectos. Isso diminui a agressividade.

  3. Estou de acordo com o Tiago Azevedo Fernandes. O Bruno Alves tem de compreender uma coisa: Pedro Passos Coelho nao esta a construir uma linha politica a partir de uma coligação de apoios, mas sim uma coligação de apoios a partir de uma linha politica. E isso é uma diferença fundamental de Pedro Passos Coelho relativamente aos candidatos nas ultimas directas – e nao so Menezes.

    Quem se junta a Pedro Passos Coelho sabe ao que vem. Sabe que apoia um lider que nao tem medo de afirmar as suas convicções, de propor um projecto de rotura. Havera apoios interesseiros e oportunistas? Com certeza, e nao so de um quadrante, como também os ha noutras candidaturas. Pedro Passos Coelho apenas tem de seguir o seu caminho, congregando quem quiser cooperar no seu projecto e nos seus termos.

  4. -O Bruno faz uma excelente análise mas poderia explorar um pouco mais o súbito interesse dos menezistas na candidatura de PPC. Além de queimarem como bem descreveu uma hipótese de futuro, que de repente fica-se pelo presente, também conseguiriam inflingir uma derrota a Manuela Ferreira Leite, acabando com um mito, calavam duma vez por todas Pacheco Pereira entre outros, que ficariam com o seu “prestígio” em causa, derrotavam Santana Lopes, queimando-lhe a recuperação de imagem que vem fazendo, Alberto João Jardim não é para levar a sério, ficando apenas com 2 vozes dissonantes no PSD dum sebastianicamente regressado Menezes após 2009, Marcelo, que não enfrentará ninguém, pois na sua agenda estará a sucessão de Cavaco Silva após o cumprimento de 2º mandato, onde terá que disputar o espaço com Durão Barroso, caso nenhuma anormalidade aconteça, e Rui Rio, mas este terá previamente de bater Elisa Ferreira no Porto mantendo maioria, para poder ser a única oposição a Menezes, mas em situação algo complicada mesmo assim, e Menezes com mais tempo.

  5. Não concordo nada que a situação seja favorável a um regresso de Menezes. Pelo contrário PPC, abrindo o debate a “gente nova pensante”, arruma de vez com qq hipótese de Menezes. A base de apoio de Menezes é conjuntural, é feita principalmente por descontentes com a situação actual que não conseguem vislumbrar alternativa satisfatória. Ora havendo um novo ambiente mais sólido, com uma base teórica e programática mais profunda promovida por uma nova geração de militantes activos e competentes, deixa de haver o caldo de cultura dos “menezistas”.

  6. José Barros

    Excelente análise. Dito isto, não acredito – ao contrário do autor do post – na vitória de Passos Coelho, ainda que com o apoio dos menezistas. Isto porque o valor eleitoral do candidato é uma incógnita, para mais quando um ano parece pouco para que os eleitores queiram conhecer o candidato do PSD nas legislativas. Ou seja, parte-se do princípio de que o país ainda tem paciência para as “experiências” do PSD, coisa de que duvido muito. Quer se queira, quer não, mesmo o aparelho terá de engolir um sapo vivo chamado MFL, porque sabe que a única coisa que o país espera neste momento do PSD é alguma segurança e consistência, sendo a questão do cinzentismo em termos eleitorais de somenos importância. O discurso estafado da credibilidade e da união visa apenas lembrar os militantes do PSD desse facto.

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