Que papel pode Ferreira Leite desempenhar no PSD

(também publicado aqui)

Uma das principais vantagens de Manuela Ferreira Leite em relação a Pedro Passos Coelho é o facto de, mesmo não se sabendo qual o programa em concreto com que pretende correr, ser já conhecida: sabe-se o que ela pensava há anos acerca da questão orçamental, sabe-se o que fez e o que rejeitou fazer. Pedro Passos Coelho tem dito, de facto, algumas coisas interessantes: o homem tem dito quase tudo o que eu quero ouvir. Mas eu não conheço Pedro Passos Coelho. Falta-lhe tempo. Falta-lhe ser testado: ver se o que ele diz hoje irá bater certo com que ele dirá daqui a três meses, daqui a um ano. Muito do que ele diz entusiasma, pois é uma ruptura com o estatismo habitual na retórica dos políticos. Mas para entusiasmos seguidos de desilusões, já me bastou Durão Barroso. Pedro Passos Coelho é para levar a sério, mas para merecer a confiança dos que querem reformas em Portugal, terá de dizer mais, durante mais tempo.

Para além do mais, há aquilo a que Pacheco Pereira se referia ontem, e Rui Rio (o “meu” candidato) na sua entrevista com a insuportável Judite de Sousa: Ferreira Leite é a única que pode recolher os cacos em que se partiu o PSD. Não que seja uma candidata consensual. Não é. Mas é a única que, se ganhar, conseguirá ter mão no partido. Imagine-se que Rui Rio se tinha candidatado: como ele próprio disse na sua entrevista de hoje, Menezes não teria “aguentado” e correria contra ele (haverá outro político em Portugal a falar assim tão descomplexadamente da sua actividade?), agravando a conflitualidade interna no seio do partido. Imagine-se, de seguida, que Pedro Passos Coelho ganha as eleições no partido, mas perde em 2009 contra Sócrates. Menezes terá o partido de novo nas mãos, aproveitando-se demagogicamente do “falhanço” de alguém “que apareceu do nada”. Ferreira Leite não só pode ganhar a Sócrates como, se não o conseguir (como é provável que não consiga), tem condições para fazer um trabalho no interior do partido, que Pedro Passos Coelho, por muito boas ideias que tenha (e certamente que muitas delas partilha com Ferreira Leite e os seus apoiantes), não terá condições para fazer.

Essa deve ser a prioridade de Ferreira Leite: reformar o partido. Claro que as eleições de 2009 são importantes (era Menezes e os seus comparsas das autarquias que não se preocupavam com elas). Como já disse, uma vitória em 2009 não só está ao alcance de Manuela Ferreira Leite, como até não será tão difícil de obter como o será ganhar esta directas no PSD). O PSD de Ferreira Leite não pode desvalorizar as legislativas de 2009, quanto mais não seja porque o país não aguenta o desgoverno socialista por muito mais tempo. Terá de “pedir” uma maioria absoluta, e dizer à partida que não aceitará governar sem ela: coligações de “necessidade” como a que se fez com Portas são um erro que não se deverá repetir.

Mas Ferreira Leite, e todos os militantes do PSD que se preocupam com o país e o papel que o partido pode desempenhar na vida portuguesa, têm de ser realistas: as confusões destes últimos anos danificaram a credibilidade do partido de uma forma difícil de medir, e numa conjuntura em que “os políticos” são alvo de desconfiança, a “credibilidade” é indispensável a um partido que queira governar eficazmente. Ainda para mais, a derrota de 2005 deixou o partido muito fragilizado, com uma escassa representação parlamentar, para não falar da sua falta de qualidade: nessas condições, é difícil elaborar um programa alternativo ao do PS que, uma vez no governo, permita fazer uma governação com cabeça, tronco e membros: mais uma vez, a experiência da improvisação permantente dos tempos de Barroso e Santana forneceu uma lição que deverá ter sido aprendida. Devido a essa posição frágil em que o PSD se encontra, a prioridade de Ferreira Leite deverá ser o interior do partido: prepará-lo para fazer um trabalho decente, seja na oposição, seja no Governo.

Ferreira Leite encontra-se numa situação semelhante àquela em que Michael Howard, antigo líder do Partido Conservador britânico, se encontrava em 2005. O seu partido vinha de um período marcado por violentas lutas internas, que se sucederam a um período de governação que, por variadas razões, descredibilizou o partido aos olhos dos eleitores. Quando Ian Duncan Smith foi literalmente “chutado” para fora da liderança do partido, antevia-se uma nova luta fratricida pela sua sucessão, entre gente como David Davis, Ken Clarke, Michael Portillo ou Oliver Lettwin. Em vez disso, avançou apenas Michael Howard, decano do partido, homem de imagem dura e disciplinadora.

Howard não conseguiu vencer Tony Blair nas eleições de 2005. A situação frágil em que encontrara o partido não o permitia. Mas a importância da sua liderança para a recuperação que, com David Cameron, os tories têm conseguido levar a cabo, não pode ser desvalorizada. No curto período em que esteve na liderança, Howard reformou a estrutura do partido, melhorando a forma como este trabalha. Por outro lado, disciplinou-o, afastando candidatos a deputados (Danny Kruger, que aprecio, e Howard Flight)que não seguiam a “mensagem” que Howard quis impôr, e membros do gabinete-sombra que tiveram alguma “dificuldade” em respeitar a sua autoridade (por muito que me custe, Boris Johnson). E acima de tudo, preparou muito bem a sua sucessão. Depois dele, não viria o dilúvio, mas sim a bonança: quando se demitiu, logo após a derrota eleitoral de 2005, definiu que as eleições para a sua sucessão teriam lugar apenas seis meses depois. À data, parecia uma loucura. Mas essa decisão veio a mostrar ter sido acertadíssima. Pois deu lugar a uma campanha longuíssima, em que todos os candidatos foram testados, tanto na sua capacidade de captar votos como na consistência e coerência das propostas que apresentavam (David Cameron teve aquilo que Passos Coelho não terá). Ao fim desses seis meses, não só o partido havia resolvido defintivamente as divisões que o haviam atormentado nos anos anteriores, como a qualidade dessa discussão (principalmente, entre David Cameron e David Davis) mostrou aos eleitores que o Partido Conservador já não era um clube de boxe, mas um partido com uma alternativa para oferecer. Se David Cameron, nos próximos anos, for morar para o Nº10 de Downing Street, ficará a dever muito ao trabalho que Michael Howard fez no pouco tempo em que o antecedeu.

É este o exemplo que Manuela Ferreira Leite, se vier a ser eleita como líder do PSD, deverá seguir. Em primeiro lugar, deverá disciplinar o partido: no caso específico do PSD, isso significa (na sequência do que estava a tentar fazer Marques Mendes) subordinar as estruturas locais à estratégia nacional do partido. Essa estratégia, por sua vez, deverá assentar na credibilização do partido: afastar pessoas de reputação duvidosa, recusar negociatas com outros partidos, afirmar que só se aceita ir para o Governo com as condições necessárias, ou seja, com maioria absoluta, para não ficar dependente da necessidade de abdicar de parte do seu programa. Esse programa precisará de trabalho para ser elaborado: Manuela Ferreira Leite, como Michael Howard, terá de reformar as estruturas do partido, de forma a permitir que este estude as questões que afectam a vida dos portugueses. E como Michael Howard, tem de trazer para o grupo parlamentar gente capaz, gente que, no futuro, possa servir bem o partido e o país.

É precisamente com o futuro que Manuela Ferreira Leite tem de pensar. Se ela conseguir fazer o que aqui enunciei, poderá ganhar as eleições em 2009. Se o conseguir, melhor ainda. Mas se não o conseguir, e é provável que não consiga, terá lançado as bases para que o PSD possa fazer uma boa oposição e, em 2013 (ou antes), esteja preparado para ser Governo (ao contrário do que aconteceu com Durão). Nesse ano, com mais de 70 anos, será pouco provável que Ferreira Leite seja a candidata a Primeira-Ministra do PSD. Se assim for, terá de preparar muito bem a sua saída. Terá, mais uma vez, de seguir o exemplo de Michael Howard: se perder as eleições de 2009, e não estiver disposta a concorrer em 2013, deverá anunciar de imediato a sua demissão, e de imediato marcar as eleições para daí a seis meses (no mínimo). Promoverá assim, como Michael Howard, uma campanha longa, em que o PSD discutirá o seu futuro, mas abertamente, e não, como tem acontecido, na escuridão dos corredores. O partido ficará a saber o que os seus candidatos realmente defendem, aquilo que são capazes de fazer, a capacidade que têm de captar votos ou apresentar propostas diferentes das do PS. Os eleitores, por sua vez, verão um partido preocupado com o país e com o que lhe poderão oferecer. Verão um partido credível, e perante o descalabro para que vai caminhando a governação socialista, poderão sentir-se seguros com a perspectiva de um futuro governo laranja (coisa que não acontece agora).

Manuela Ferreira Leite poderá, caso venha a ser eleita, desempenhar um papel importantíssimo no futuro do PSD. Mas terá que trabalhar muito, e pensar muito bem todos os passos que der. Nada poderá ser deixado ao acaso. Acima de tudo, terá de pensar muito bem no que acontecerá depois da sua saída. Aconteça o que acontecer em 2009, é o que acontecerá depois disso que será decisivo para o PSD e o seu papel na sociedade portuguesa. É por isso no futuro que deverão estar olhos de Ferreira Leite. Se assim não for, “futuro” é coisa que o PSD dificilmente terá.

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2 pensamentos sobre “Que papel pode Ferreira Leite desempenhar no PSD

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