paz

O liberalismo acredita na paz como fim último dos indivíduos e da vida em sociedade. Ao contrário das doutrinas que acentuam a conflitualidade como a tendência social natural e o conflito como facto dominante da ordem social, o liberalismo crê na ordem social espontânea e na genuína vontade dos indivíduos comporem pacificamente os seus interesses, honrarem os seus acordos, cumprirem os seus contratos e resolverem as suas dissensões. Este ponto é de importância determinante na compreensão do liberalismo político e na forma como ele encara o Estado, a sociedade política e o contrato social. Contrariamente a Hobbes, que, sendo embora um contratualista, não é um liberal (embora frequentemente o confundam como tal), Locke vê a emergência da sociedade política não pela ameaça permanente da «guerra de todos contra todos», mas como o resultado de uma conjugação de esforços e vontades individuais para melhorar mais ainda as condições de vida dos indivíduos e assegurar de forma eficaz a realização de alguns dos seus direitos fundamentais. É isso que os liberais pensam sobre a origem do Estado.

O liberalismo acredita na cooperação voluntária entre os homens. Vê a sociabilidade como um instinto natural da espécie, e a cooperação humana como o princípio que levou os homens a organizarem a vida em sociedade, de modo a que cada um deles não fosse obrigado a ter de realizar todas as condições para a satisfação das suas necessidades e das necessidades dos que lhe são próximos. A divisão do trabalho é a base da sociedade capitalista e é a expressão maior dos valores liberais de cooperação e da paz. Ela está no cerne da nossa civilização e do sucesso que ela alcançou nas sociedades de raiz capitalista, em contraponto ao atraso e ao subdesenvolvimento das sociedades onde a economia é essencialmente doméstica, rudimentar e de auto-suficiência. Onde o trabalho necessário ao bom desenvolvimento da sociedade não estiver livremente segmentado pela população activa, condenando os indivíduos à auto-suficiência, ou a uma planificação desumanizada e ineficaz, não existe bem-estar. A negação do princípio da cooperação e o pessimismo antropológico sobre, no fim de contas, o destino que cada homem poderá dar à sua liberdade, são a antítese do liberalismo.

As economias fechadas, herdeiras do mercantilismo e do nacionalismo chauvinista, foram causa de quase todos os conflitos internacionais. Organizadas em zonas geográficas protegidas por fronteiras hermeticamente fechadas, onde vigora o proteccionismo das economias externas face ao mundo exterior, desde logo, em relação ao vizinho, sob o propósito aparentemente idóneo de protegerem a comunidade, os povos e nações viram-se impelidos para a guerra, a fim de «defenderem» o que julgavam ser os seus inalienáveis direitos históricos e interesses estratégicos. Esta forma de organizar os povos, isolando-os e «protegendo-os» de terceiros, produziu sucessivos conflitos e guerras, e é ainda hoje historicamente responsável por ódios ancestrais, que frequentemente descambam e voltam a provocar catástrofes humanas.

Em contrapartida, o liberalismo é cosmopolita e universalista. Herda, de Kant, uma visão de uma ordem internacional fundada na paz e no cosmopolitismo, em rumo ao estabelecimento de uma comunidade internacional onde vigorem regras de convivência normal, isto é, pacíficas, entre as gentes. Para esse fim, a abolição dos entraves à liberdade individual, entre eles, as fronteiras económicas, permitirá que o princípio da divisão do trabalho, ou seja, a livre cooperação entre os indivíduos, ultrapasse o limitado âmbito nacional e se transforme na regra geral de convívio internacional. Como Mises bem referiu no Human Action, «O princípio da divisão do trabalho é um dos motores que impulsionam o desenvolvimento do mundo, impondo uma fecunda evolução».

Num outro texto originalmente publicado em 1927, o célebre Liberalismus, numa época em que ressurgiam as exaltações nacionalistas na Europa, Mises qualificava a guerra como «um mal para todos, inclusivamente para o vencedor», e acreditava que a melhor maneira de assegurar a paz entre as nações era através da liberdade de comércio, à semelhança do que ocorrera na Europa durante boa parte do século XIX. Ele via no fim do espírito capitalista desse século, substituído «por programas socialistas, nacionalistas, proteccionistas, imperialistas, estatistas e militaristas», a razão da eclosão da Grande Guerra. E ainda não tinha assistido ao que viria pouco tempo depois…

É óbvio que o espírito da cooperação entre os homens assenta na propriedade, na desigualdade que entre eles existe, e se concretiza na liberdade contratual e no comércio. Este último aspecto – o comércio livre, é inquestionavelmente o grande motor da sociabilidade e da cooperação humana. Viu-o bem Jean Monnet – provavelmente o político mais notavelmente liberal do século passado (sei bem o que me custará esta afirmação junto dos meus colegas de blog, mas estou disposto a demonstrar o que escrevo…), que soube criar a paz e a cooperação na Europa desenvolvendo os princípios do liberalismo clássico: propriedade, comércio livre, ordem espontânea e individualismo. Monnet, apesar de simpatizar com o socialismo, foi politicamente muito mais liberal do que muitos políticos e estadistas que se afirmam como tal. Ele soube que os homens só se aproximam pela liberdade de trocar aquilo que é seu, sem dirigismos, sem imposições nem pressas, avançando por «pequenos passos». A hábil criação de um grande espaço regional europeu de livre comércio, que tanto irritou estadistas como De Gaulle, foi obra sua e a ela se deve a paz das últimas décadas na Europa Ocidental. Era bom que os liberais o reconhecessem, reclamassem essa herança como sua (tal como Mises reclamou para o liberalismo o espírito comercial e pacífico do século XIX), e lhe fossem gratos. Sob pena de não reconhecerem sequer aquilo que é seu e ficarem eternamente rotulados como incorrigíveis teóricos de coisas sem qualquer aplicação.

7 pensamentos sobre “paz

  1. Luís Lavoura

    “As economias fechadas, herdeiras do mercantilismo e do nacionalismo chauvinista, foram causa de quase todos os conflitos internacionais.”

    A Europa anterior à Primeira Guerra Mundial era um campo de enorme liberdade comercial e de migrações. Praticamente não havia fronteiras, as pessoas mudavam-se livremente de um país para o outro, as mercadorias eram transacionadas sem entaves, e havia um grau considerável de integração económica.

    Não obstante, foi esse estado de coisas que descambou na guerra que se sabe.

  2. Miguel Almeida

    Caro Rui,

    que texto extraodinário! Parabéns! como é refrescante ver alguém comentar Mises em português – o meu conselho, modesto, a todos: leiam Mises e depois voltem a reler.

    cumprimentos.

    Caro Luis Lavoura, será que me podia explicar; ” a Europa anterior à I GG” não será no tempo do feudalismo, pois não?…

  3. André Azevedo Alves

    “Viu-o bem Jean Monnet – provavelmente o político mais notavelmente liberal do século passado (sei bem o que me custará esta afirmação junto dos meus colegas de blog, mas estou disposto a demonstrar o que escrevo…)”

    Estou sem tempo para comentar de forma adequada, mas fica registada a afirmação… 😉

  4. Luís Lavoura

    Miguel Almeida, por “anterior à Primeira Grande Guerra” referia-me à chamada Belle Epoque, os anos 1900 a 1914.

  5. CN

    A defesa da paz requer uma atitude permanente de desafio e desconfiança das politicas de defesa que saiem para além da defesa territorial assim como de análise critica da história dos conflitos.

    Acima de tudo perceber que sendo o Estado um monopólio territorial da violência é inerente a si mesmo praticar a guerra por esse monopólio. Seja por causa de ganhar zonas de influencia (ver a NATO versus Rússia) seja por causas morais, etc.

  6. CN

    A defesa da paz requer uma atitude permanente de desafio e desconfiança das politicas de defesa que saiem para além da defesa territorial assim como de análise critica da história dos conflitos.

    Acima de tudo perceber que sendo o Estado um monopólio territorial da violência é inerente a si mesmo praticar a guerra por esse monopólio. Seja por causa de ganhar zonas de influencia (ver a NATO versus Rússia) seja por causas morais, etc.

  7. CN

    Já agora, vale a pensa esta citação de Rothbard de um liberal clássico Inglês (o primeiro anti-neo-cons?):

    Wrote Murray N. Rothbard: “It is time again to resurrect the wise and marvelous quote from Canon Sydney Smith, the great classical liberal and anti-interventionist in early nineteenth century England. When Lord Grey, the Prime Minister, was moving toward a foreign war, Sydney Smith wrote the following letter to Lady Grey, in 1832:

    ‘For God’s sake, do not drag me into another war! I am worn down, and worn out, with crusading and defending Europe, and protecting mankind; I must think a little of myself. I am sorry for the Spaniards – I am sorry for the Greeks – I deplore the fate of the Jews; the people of the Sandwich Islands are groaning under the most detestable tyranny; Baghdad is oppressed, I do not like the present state of the Delta; Tibet is not comfortable. Am I to fight for all these people? The world is bursting with sin and sorrow. Am I to be champion of the Decalogue, and to be eternally raising fleets and armies to make all men good and happy? We have just done saving Europe, and I am afraid the consequence will be, that we shall cut each other’s throats. No war, dear Lady Grey! – No eloquence; but apathy, selfishness, common sense, arithmetic! I beseech you, secure Lord Grey’s swords and pistols, as the housekeeper did Don Quixote’s armour. If there is another war, life will not be worth having.

    “‘May the vengeance of Heaven’ overtake the Legitimates of Verona! but, in the present state of rent and taxes, they must be left to the vengeance of Heaven. I allow fighting in such a cause to be a luxury, but the business of a prudent, sensible man is to guard against luxury.

    “‘There is no such thing as a just war, or at least, as a wise war.'”

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