Menezes e o PSD

Num momento de rara lucidez, Luis Filipe Menezes afirmou que Portugal enfrenta “um vazio complicado”, em virtude de o PS “já não merecer ser Governo”, e o PSD “ainda não o merecer”. De facto, a descredibilização do Governo é notória, tal como é evidente a incapacidade de Menezes e do PSD conseguirem captar a confiança do crescente número de descontentes com a acção governamental. A ausência de um pensamento coerente, que permita ao PSD reconhecer, perante os portugueses, os erros do passado, e apresentar-lhes uma alternativa, uma verdadeira alternativa, à receita socialista para o empobrecimento progressivo dos cidadãos, faz com que nem a ruína da ilusão propagandística de Sócrates se traduza num realinhamento das preferências eleitorais num sentido favorável aos laranjas. E se Menezes tem razão na análise que faz ao momento do país e do partido que lidera, isso quer também dizer que o próprio Menezes tem de ser afastado, pois ele é, pela má oposição que faz, um responsável pelo “complicado vazio” português.

O problema é, no entanto, bem mais grave. Como o próprio Menezes também diz (embora como uma forma de se desculpar), o problema do PSD é “institucional”. É que por muito desastroso que Menezes seja como líder laranja, ele não surgiu por acaso. Ele foi escolhido pelos militantes do PSD. Partido cujos responsáveis não hesitaram em, anteriormente, darem um encosto a Pedro Santana Lopes na sua subida ao poder, com os resultados que se conhecem. Partido que, depois disso, o voltou a acolher como se nada se tivesse passado, aparentemente sem ter a consciência de que esse era o caminho mais curto para os portugueses perderam a (pouca) confiança que ainda tivessem no PSD. Se quiser ganhar eleições, o PSD tem de se “lavar” do seu passado. É também por isso importante que Menezes saia o mais rapidamente possível da liderança do partido: não que isso seja suficiente para resolver os problemas do PSD, e de seguida, do país, mas porque essa “lavagem” do passado será penosa e demorada, e quanto mais cedo começar, mais rapidamente Portugal poderá ultrapassar o “complicado vazio” que o atormenta.

Prova das dificuldades que Menezes está a criar ao PSD pode ser encontrada no que se passou este Sábado. Durante a semana, o líder laranja apresentou uma série de propostas de alteração dos regulamentos internos do partido. Dez antigos secretários-gerais do PSD manifestam-se contra elas e o pouco tempo que houve para as discutir, e Luís Filipe Menezes faz orelhas moucas. Não quer saber, e 48 horas depois de divulgar o conteúdo das ditas, levou-as a votação, na qual foram obviamente aprovadas.  Menezes tornou  assim inevitável uma ruptura entre a direcção e alguns “notáveis” do partido, num domínio em que um consenso mínimo é desejável: quanto o combate se centra nas regras, combate-se sem regras. Se prova fosse precisa, ela aqui está: Menezes está a condenar o PSD à destruição. Não é apenas o facto de tais propostas constituírem, em si, um retrocesso na transparência e democracia internas do PSD. Ao querer apressar a votação das suas propostas, Menezes está a dizer ao número cada vez menor de cidadãos que se interessam pelo seu partido que ele, para cimentar o seu poder interno, está disposto, não só a dar todos os meios mais obscursos a um grupinho de caciques sem quaisquer escrúpulos de a eles recorrerem, mas também a lançar o partido num combate fratricida, mesmo que sob pena de não conduzir a oposição ao governo. Ao apressar a votação das suas propostas, Menezes diz aos eleitores que o seu “poleiro” no PSD é mais importante que a apresentação de uma alternativa à política de empobrecimento progressivo do PS. Menezes disse que o PSD não estava preparado para ser Governo. De facto não está. E com alguém que pensa e age como Menezes, nunca estará.

2 pensamentos sobre “Menezes e o PSD

  1. nuno nasoni

    Obviamente aprovadas… num órgão em que Menezes tem, apenas, uma maioria simples (sem maioria absoluta)?

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