Estará Huckabee a prejudicar Romney?

(também publicado aqui)

O André citou aqui uma das ideias mais repetidas na noite eleitoral americana de ontem, e nas análises feitas já hoje, a de que Huckabee e Romney estão dividir o “voto conservador”, o voto “anti-McCain”, acabando assim por favorecer o senador do Arizona, e acima de tudo, prejudicar Romney, teoricamente o seu mais perigoso opositor. Se olharmos com um pouco de atenção para o que se tem passado ao longo de todo o processo das primárias, será fácil de perceber como é pouco provável que assim seja. Qualquer pessoa que tenha assistido aos debates entre os candidatos republicanos certamente notou a falta de simpatia que todos os candidatos nutriam por Romney. Nenhum outro foi tão atacado por todos os outros como Romney. Huckabee, em particular, não se cansa de acusar Romney de mudar de posições constantemente. Já para McCain, Huckabee só tem palavras simpáticas: diz que discorda quanto a isto ou aquilo, mas não hesita em dizer também que McCain é “um dos nossos”, que tem um “record” conservador, e que Roney, esse sim, tem um passado “liberal” enquanto Governador. McCain é visto como um concorrente, Romney como um adversário. É visto com ódio e algum desprezo. Ora, se o candidato pensa assim, é natural que os seus apoiantes partilhem a sua aversão a Romney. É natural que tendam a preferir McCain a Romney, e não o inverso. Como nota Jay Cost, é precisamente isso o que acontece: “Huckabee voters have a +36% favorable rating of McCain, but a -4% rating of Romney”, e na Florida, por exemplo, “Huckabee voters there claimed McCain as their second choice”. Se há divisão de voto, e ela prejudica alguém, é a divisão do voto “anti-Romney” prejudicando McCain e Huckabee.

Veja-se o que aconteceu ontem em West Virginia: os apoiantes de McCain não o conseguiram colocar na segunda fase da votação, e em alternativa, fugiram todos para Huckabee, garantindo-lhe a vitória no estado. É óbvio que se pode argumentar que foi uma votação táctica, com o objectivo de derrotar o candidato que mais perigo causa a McCain. É verdade. Mas mostra como Romney é visto tanto pelos apoiantes de McCain, como pelos de Huckabee, como a pior alternativa possível: os apoiantes de Huckabee podem não concordar com McCain, e os apoiantes de McCain podem não concordar com Huckabee, mas ambos são reconhecidos como candidatos “honestos”, e portanto preferíveis a alguém que tanto uns como outros vêem como um “hipócrita” à caça de votos, e que “gasta fortunas” em “campanha negativa” contra os seus próprios colegas (como Huckabee ontem dizia). McCain não está ser favorecido pela permanência de Huckabee. Se Huckabee tivesse desistido, McCain teria mais votos, e se McCain não estivesse na corrida (e não surgisse uma alternativa como os já afastados Giulani e Fred Thompson), talvez Huckabee pudesse ser o nomeado.

Há, no entanto, uma ressalva que devo fazer: na realidade, talvez o voto “anti-Romney” não se esteja a dividir. Se, como venho dizendo desde o primeiro debate republicano, Huckabee vier a ser o candidato a vice-presidente do nomeado (que será McCain), o voto “anti-Romney” não está partido ao meio. Um voto em Huckabee é um voto em McCain. Aqui sim, Romney tem “razão de queixa”. Quando ele e o seu apoiante Rush Limbaugh atacam McCain e Huckabee pela sua “aliança”, eles reconhecem que um voto em Huckabee é um voto contra Romney. De facto, a “aliança” McCain-Huckabee impede o sucesso de Romney, não por o voto em Huckabee ser um voto que, de outra forma, iria para Romney, mas sim porque qualquer voto em Huckabee ser um voto contra Romney, e que iria para McCain se Huckabee não lá estivesse.

5 pensamentos sobre “Estará Huckabee a prejudicar Romney?

  1. É natural que Huckabee e McCain estejam a arrumar tacticamente Romney. Romney é o único candidato que consegue “invadir” simultâneamente uma parte do espaço de Huckabee e outra de McCain. A verdade é que Romney está no meio destes dois.

    Huckabee e McCain não “roubam” votos um ao outro.

    É normal que a “clubite” de alguns votantes os leve a ter uma posição desfavorável relativamente ao principal concorrente do seu candidato.

    O que é inegável é que a base conservadora caso não existisse Huckabee (ou Romney) fugia toda para Romney (ou Huckabee). Da mesma forma que se não existisse McCain os moderados votariam maioritariamente em Romney.

  2. HO

    Muito bom, concordo em quase tudo. Duas notas:

    “Veja-se o que aconteceu ontem em West Virginia: os apoiantes de McCain não o conseguiram colocar na segunda fase da votação, e em alternativa, fugiram todos para Huckabee, garantindo-lhe a vitória no estado. É óbvio que se pode argumentar que foi uma votação táctica, com o objectivo de derrotar o candidato que mais perigo causa a McCain. É verdade.”

    Não é exactamente verdade. Os apoiantes do McCain dificilmente se deixam pastorear e para boa parte deles, e por muita conveniência táctica que existisse, seria inaceitável votar em Huckabee. Foram essencialmente os apoiantes do Ron Paul que, obedecendo aos ditames do Soviete Central, votaram em bloco em Huckabee, recebendo em troca três delegados à Convenção. Os apoiantes do McCain dividiram-se assim na segunda volta: 76 votaram Huckabee, 57 votaram Romney, 12 votaram McCain e 33 abandonaram a convenção.

    “Se, como venho dizendo desde o primeiro debate republicano, Huckabee vier a ser o candidato a vice-presidente do nomeado (que será McCain), o voto “anti-Romney” não está partido ao meio.”

    Duvido. Seria uma carga de problemas em termos eleitorais (e não tanto para o eleitorado moderado e mais centrista em questões sociais; mas desconfio que seria um ticket muito difícil de vender a nichos do eleitorado conservador que os vêem a ambos como apóstatas). No entanto, o McCain gosta genuinamente do Huckabee e, sendo o McCain como é, isso poderá ser suficiente. Os meus preferidos seriam o Jeff Flake, o Jindal, o Coburn ou o JC Watts. Mas o primeiro é do Arizona, o segundo demasiado novo, o terceiro também é senador e o quarto não tem qualquer vontade de regressar à vida política (e, com esta treta do Obama, tornar-se-ia numa escolha susceptível mal entendida). Aposto no Pawlenty ou no Sanford.

  3. HO

    DM,

    Creio que a sua tese assenta em vários equívocos.

    Primeiro que tudo, e como indicia o post, os eleitores não raciocinam dessa forma. Neste triângulo o tópico decisivo será, antes de mais, a personalidade. O Huckabee e o McCain distinguem-se pela autenticidade, o Romney está no extremo oposto.

    Doppo, o McCain não é exactamente um “moderado”. Você pode vê-lo assim, mas os eleitores do Huckabee não. Nas coisas que são importantes para eles, McCain não é moderado – é quase um deles. Eles estão-se francamente nas tintas para assuntos como o aquecimento global. E, se muitos ignoram o que seja o Gang of 14, poucos não largariam umas gargalhadas se lhes fosse dito que o negócio que colocou o Alito e o Roberts no SCOTUS foi uma catástrofe para o conservadorismo. Eles vêem McCain como um “maverick”, coisa bastante diferente de moderado. Os eleitores do Huckabee podem ser muito conservadores (embora uma grande parte deles só o seja em questões “sociais” – o Huckabee é um populista económico em último grau, por exemplo), mas escassos sofrem do mal da partidarite. Como acha que o Huckabee governou um estado com uma legislatura esmagadoramente democrata? A capacidade de falar com o outro lado é entendida como positiva, não como traição.

    Já o Romney sofre de uma absoluta incapacidade de se afirmar como um deles. A ideia de que os conservadores evangélicos, em particular os sulistas, iriam votar massivamente num engravatado do nordeste que ainda há dois anos era pro-choice, pro-gun control, pro-gay rights, etc. para travar um veterano do Arizona com um inequívoco registo pro-life, etc., só faz sentido para os pundits de DC, NY e Palm Beach. Em particular no Sul, a “phonyness” é invendável. Aliás, se analisarmos os mapas eleitorais dos estados sulistas verificamos que o Romney só obteve bons resultados nos subúrbios das grandes cidades, intensamente povoados por transplantados do Nordeste. Nos condados rurais foi virtualmente inexistente.

    O Romney é somente o candidato dos “lealistas” ao GOP, ao establishment e aos líderes do “movimento conservador” dos últimos 8 anos. É essa a sua base e ele não tem a capacidade de “invadir” seja o que for. O que se traduz num candidato extraordinariamente fraco que, apesar de ter gasto 5 vezes mais que todos os seus adversários juntos, ainda não conseguiu vencer umas primárias num estado em que não tenha residido.

    É este conjunto de factores que tem provocado alguns dissabores ao Romney. Por exemplo, supor-se-ia que ele obtivesse melhores resultados em zonas como o Panhandle na Florida ou o sul da California – áreas onde o efeito horse-race poderia levar o eleitorado de Huckabee (o candidato não competitivo) a votar nele. Mas aconteceu precisamente o inverso: esses conservadores preferiram votar em McCain, o que conduziu este a uma vitória na Florida por uma margem maior do que o esperado e, mais importante, a uma vitória arrasadora na California, onde o sistema de alocação por distritos eleitorais poderia, a priori, provocar uma divisão mais igualitária (ou mais proporcional) dos delegados – acontecendo precisamente o oposto: o Romney, com 38% do voto, não arrecadará mais de 10 delegados contra os 160 de McCain.

    Assim, é natural que os resultados das sondagens feitas para um hipotético head-to-head McCain vs. Romney sejam na ordem dos 63%-30%. E que nas exit-polls de ontem o Romney seja a segunda escolha para apenas 2 ou 3 eleitores do Huckabee em cada dez. O Bruno tem toda a razão quando escreve que “se Huckabee tivesse desistido, McCain teria mais votos, e se McCain não estivesse na corrida, talvez Huckabee pudesse ser o nomeado” (embora esta segunda possibilidade seja muito mais dúbia).

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