Razão vs Emoção (6)

Socialistas costumam designar os liberais como sendo demasiado “economicistas”. Mas se a ciência económica pretende estudar as escolhas resultantes da acção humana que mal há nessa denominação?

Bom, o problema é que quando liberais tentam explicar as consequências financeiras de decisões políticas são logo acusados de não ligarem à componente social da questão. Nada mais errado, visto haver sempre consequências sociais da alocação política (logo, involuntária) de fundos.

Costumo dizer que socialistas olham para o que está à vista, economistas tentam vislumbrar o que deixa de ser visto (o custo de oportunidade).

Contudo, as consequências do aumento do salário mínimo não são invisíveis! Foi o que tentei demonstrar com o post intitulado “Directores financeiros usam calculadoras!”. É que conheço pelo menos um director financeiro que – desde a divulgação do objectivo de subir o salário mínimo para 500 euros até 2011 – começou a fazer os cálculos sobre o ano de fecho da fábrica onde trabalha. Ele sabe que os possíveis ganhos de produtividade não cobrem o acréscimo nos custos salariais. Já iniciou, por isso, o envio de CVs…

7 pensamentos sobre “Razão vs Emoção (6)

  1. Nuno

    Pois é caro BZ, provavelmente o seu amigo devia aprender a usar a calculadora para perceber que ele ganha mais do que aquilo que a empresa é capaz de lhe pagar. Ele a administração decerto!
    É q mais certo é o problema não estar nos €500 dos operários, mas antes nos custos dos administradores e restante elenco directivo, entre vencimentos e outros beneficios. Quero dizer com isto q o fosso entre uns e outros tem de estreitar e não o contrário como parece sugerir!
    Pq será q no estrangeiro os portugueses são óptimos trabalhadores? Eu respondo-lhe já, a diferença está na qualidade dos gestores e administradores!
    Cpmts

  2. António Carlos

    “É que conheço pelo menos um director financeiro que – desde a divulgação do objectivo de subir o salário mínimo para 500 euros até 2011 – começou a fazer os cálculos sobre o ano de fecho da fábrica onde trabalha.”
    É melhor esse director financeiro não colocar no seu currículo essa forma de lidar com variações definidas à partida nos custos de um dos factores de produção. Porque se perante um aumento previsível com (bastante) antecedência a sua reacção é desistir e enviar currículos, como reagirá a aumentos imprevisíveis (por exemplo, dos combustíveis) e com efeitos no curto prazo dos outros factores? Fraco director financeiro que só consegue trabalhar em ambientes sem “instabilidade”.

  3. Os fundamentos da doutrina neoliberal são exactamente opostos aos fundamentos doutrinários do marxismo-leninismo. Se uma considerava o homem como ser eminentemente social, e elevava o ser social, o ser colectivo, ao seu expoente máximo com total desprezo pelo ser individual, o neoliberalismo manifesta-se exactamente ao contrário. Ergue o ser individual à sua expressão maior, considerando-o agora como o motor da História, como o herói do desenvolvimento económico e social da humanidade e manifestando igual desprezo pelo ser social.
    Se uma advogava um Estado que controlava e planeava ao mais ínfimo pormenor a economia nacional, o outro advoga um “Estado mínimo” que não intervenha minimamente no desenvolvimento económico uma vez que este se basta a si próprio, não precisando de quaisquer “enquadramentos” que, em sua óptica, resultam sempre como obstrução ao natural desenvolvimento da economia (a economia rege-se por si e qualquer enquadramento resulta sempre em perturbação do normal funcionamento do mercado).
    Consideramos que ambas as ideologias não respondem à verdadeira natureza do homem, pelo que, os estados que basearam as suas politicas com base em tais teorias, uns mergulharam na estagnação económica e empobrecimento generalizado das suas populações, os outros com promessas “inovadoras”, acabarão por conduzir igualmente os seus povos para um mesmo destino, gradual empobrecimento e aprofundamento acentuado das desigualdades sociais, com uma estagnação económica como corolário.
    Na verdade o homem contém em si e vive em permanente contradição entre o ser social e o ser individual. O homem existe em unidade dialética e em permanente conflito com estes dois contrários – o ser individual e o ser social. E qualquer doutrina que não tenha esta realidade em consideração estará inexoravelmente votada ao fracasso. Por mais roupagens de “modernidade” com que se venha a mascarar.

    Princípios básicos da cartilha neoliberal

    – mínima participação estatal nos rumos da economia de um país;
    – pouca intervenção do governo no mercado de trabalho;
    -previdência pública apenas para os miseráveis, os que “não deram certo”;
    -protecção social tratada como questão individual, como decisão pessoal de se prevenir;
    – direitos dos trabalhadores tratados como privilégios, fruto de populismo, e causa de desemprego e de ineficiência económica;
    – política de privatização de empresas estatais;
    – privatização dos serviços públicos, mesmo os considerados essenciais para a sociedade (água, luz, telefone, educação, saúde, previdência, etc.).
    – livre circulação de capitais internacionais e ênfase na globalização;
    – abertura da economia para a entrada de multinacionais;
    – adopção de medidas contra o proteccionismo económico;
    – desburocratização do Estado: leis e regras económicas mais simplificadas para facilitar o funcionamento das actividades económicas;
    – diminuição do tamanho do Estado;
    – posição contrária aos impostos ;
    – aumento da produção, como objectivo básico para atingir o desenvolvimento económico;
    – contra o controle de preços dos produtos e serviços por parte do Estado, ou seja, a lei da oferta e procura é suficiente para regular os preços;
    – “Despolitização da política económica, fim da macroeconomia”: políticas macroeconómicas apresentadas como técnicas rígidas, divididas apenas em “responsáveis” ou “populistas”;
    -Enfraquecimento dos sindicatos;
    Milton Friedman (um dos seus teóricos) afirma que se há desemprego então deverão reduzir-se os salários. Se esta diminuição dos salários não é capaz de gerar emprego, então é preciso continuar a baixar os salários. Para que os salários possam baixar, devem desaparecer os Sindicatos, já que estes não permitem que haja uma “livre” contratação da mão-de-obra, impedindo que o valor da força de trabalho se fixe pelas leis de mercado. Se os Sindicatos fazem subir o salário, isto leva a reduzir o nível de emprego.

  4. Nuno:
    “provavelmente o seu amigo devia aprender a usar a calculadora para perceber que ele ganha mais do que aquilo que a empresa é capaz de lhe pagar. Ele a administração decerto!”

    Ele ganha o salário definido pelo mercado. Não sei se sabe mas não há assim tantos directores financeiros disponíveis.

    Mesmo que a Administração tivesse os salários reduzidos a zero o previsto fecho da fábrica poderia ser adiado apenas alguns meses. E, entretanto, quem gere a empresa? Se os operários tivessem as necessárias qualificações não estariam lá a trabalhar.

    “o fosso entre uns e outros tem de estreitar e não o contrário como parece sugerir!”

    Estou apenas a sugerir que os salários dependem da produtividade dos trabalhadores. Se leu o post acima pode verificar que aumentar o salário mínimo alarga ainda mais o “fosso”!

  5. António Carlos:
    “se perante um aumento previsível com (bastante) antecedência a sua reacção é desistir e enviar currículos, como reagirá a aumentos imprevisíveis (por exemplo, dos combustíveis) e com efeitos no curto prazo dos outros factores?”

    Aumentos do preço dos combustíveis afectam os custos a todos os concorrentes da empresa, incluindo os estrangeiros. Excepto se resultarem de aumento de impostos em Portugal…

    A produtividade dos trabalhadores não varia com o valor do salário mínimo (a não ser que queira considerar a exclusão dos menos produtivos dado o aumento do desemprego). Mesmo que tal variação seja previsível, aumentar a produtividade não é tão fácil como assinar um decreto-lei!

  6. “É que conheço pelo menos um director financeiro que – desde a divulgação do objectivo de subir o salário mínimo para 500 euros até 2011 – começou a fazer os cálculos sobre o ano de fecho da fábrica onde trabalha.”

    E só agora é que começou a mandar CV’s??? Não me cheira que com essa perspicácia toda vá ter grande sucesso…

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